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O BIG BROTHER DA VIDA



Apesar das tentativas de nos esquivarmos não conseguimos deixar de nos deparar com as cenas da casa do Big Brother, que insistem em invadir nossos lares há sete anos, com o agravante de que, aparentemente, continuamos a lhes dar audiência. Às vezes fico pensando se me iludo com a idéia de que aquelas vivências são naturais ou se me repugno com a farsa com que modelam nossa maneira de ver a vida. E não vai aí nenhum discurso puritano de condenação à sensualidade já que, como psicanalista, entendo que o desejo faz parte de nossas pulsões de vida e precisam ser experienciadas com naturalidade e prazer.

Talvez o que incomode seja o objetivo vil com que o programa expõe as relações humanas, banalizando expressões de relacionamento sob a capa da espontaneidade. Isso parece incoerente com o fato de que, alguns minutos antes, o enredo da “novela das oito” provoque reflexões sobre questões éticas e afetivas significativamente relevantes, guardando, é claro, os artifícios artísticos de uma produção televisiva.
Apresentar jovens bem esculpidos fisicamente, com os perfis da beleza moderna, evidencia os reais propósitos em jogo. E, se não me engano, nunca os participantes foram escolhidos tão especificamente quanto aos seus atributos corporais. Vocês acham que eu não gosto de ver moças bonitas desfilando sua exuberância? Claro que gosto, como sei que minhas amigas do sexo feminino também gostam de ver os rapazes “sarados”, com sua musculatura em evidência. Muito natural. A estética é uma das condições de saúde humana. Mas também gostamos de ver pessoas inteligentes, cultas, divertidas, interessantes, corajosas, etc. A questão é a de se colocar em um altar de louvor modelos de beleza e de comportamento como se fossem únicos. É uma atitude discriminatória sub-reptícia, que induz as pessoas, inconscientemente, a rejeitarem as diferenças.

Por exemplo, na medida em que os modelos de beleza vão sendo introjetados em nossas mentes fica muito mais difícil a aceitação física daquelas pessoas que não correspondam às expectativas que foram criadas. Nesse sentido, essa ação condicionante tende a diminuir a atração sexual entre casais, principalmente quando a idade vai avançando e o peso dos anos vergando os atributos físicos. Muitas das traições que se multiplicam nos casamentos têm origem nessa viciação psicológica.

Naquela casa, por trás dos amores e conflitos generalizados, estende-se uma teia de propostas hedonistas retratando o grande “Big Brother” da humanidade, que é sustentado pelo sistema econômico que rege nossas vidas. Poder, dinheiro e prazer são as palavras chaves nesse enredo do nosso cotidiano. Não é de se estranhar que a audiência perdure após sete anos.

Então, nos assustamos com a violência, com a degradação do meio ambiente, sem perceber que elas são o resultado desse conluio de poder, dinheiro e prazer. São os restos de nosso consumismo que poluem o planeta, são a miséria e as injustiças no mal uso dos recursos públicos que geram os conflitos sociais, é a maresia do egoísmo que está corroendo nossa civilização. E nós continuamos a ver Big Brother, continuamos nos permitindo ser vítimas de um processo massificante de alienação, com vistas à manutenção das vantagens pessoais de uma minoria.

Na nossa ingenuidade, ficamos pensando que apenas assistimos àquelas imagens, imunes às influências que elas exerçam sobre nós. Ledo engano! São imagens extremamente condicionantes que atuam diretamente sobre os instintos básicos de vida, mobilizando desejos oriundos do nosso primitivismo animal e, por isso mesmo, egocêntricos e egoístas. São, portanto, um veneno que mais destrói o bem estar comum do que proporciona prazer.

E, talvez, valha à pena ressaltar que, por nossa vez, também somos partícipes de uma casa vigiada, a casa de nossas vidas. As individualidades que já deixaram a existência física, pelo fenômeno da morte do corpo biológico, chamadas de “presenças” em Terapia Regressiva de Vidas Passadas, chamadas de “espíritos” nas mais diversas doutrinas religiosas, e que continuam atraídas pelos interesses materiais, permanecem nos assistindo, influenciando nossas vidas, impondo-nos seus desejos e situações. São também fruto da alienação, da falta de conhecimento das finalidades maiores da vida, ligando-se a nós pela sintonia de ideais com que se familiarizam conosco.

Bem, preciso terminar por aqui... o “Big Brother” da vida já vai continuar. Levamos alguns milhares de anos para construir nossa civilização e não vai ser assim, de repente, que iremos curar suas enfermidades. Espero que, pelo menos, possamos refletir um pouco mais criticamente sobre aquilo que vemos e ouvimos, deixando de ser tão influenciados e rendidos no nosso direito de pensar.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor do livro “Psicanálise da alma”

Texto revisado por Cris
Publicado dia 25/1/2007

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Autor: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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