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O CENTRO DO MUNDO



Desde a Grécia antiga que a visão geocêntrica se inicia, baseada na teoria aristotélica de que a Terra era esférica, estava sustentada no eixo do mundo e com o sol girando ao seu redor. Em 1864, Júlio Verne publica seu clássico de literatura “Viagem ao centro da terra”, uma fantasia do imaginário humano a respeito dos mistérios que possam existir dentro do globo terrestre. O problema dessa “visitinha”, na verdade, não seriam os 6.370 quilômetros de distância a serem percorridos, mas os 5 mil graus Celsus a serem suportados, tornando rocha em estado líquido.
Por trás dessa ansiedade pelo desconhecido, está um sentimento de dominação, de poder e centralização, bem característico da mente masculina que ainda domina o mundo.
Podemos ver isso na construção do nosso modelo sócio-econômico, com grandes empresas sufocando as menores, com a prevalência dos interesses institucionais sobre os dos funcionários, muitas vezes sujeitos a regimes de trabalho e remuneração que não nos afastam muito do sistema escravocrata. Falamos de liberdade, mas que se estabelece na sujeição a um intenso ritmo de trabalho, demandando dez, doze horas diárias para se ganhar um pequeno salário que será gasto na compra de produtos de sobrevivência, favorecendo economicamente justamente os “donos” do sistema. Fica muito difícil para este funcionário ter tempo e motivação para refletir sobre si mesmo, sobre sua vida, e avançar na consolidação de valores mais nobres para sua alma.
O mesmo homem que conquista a lua, que delira com viagens ao centro da Terra ou às amplitudes do espaço, cria instituições de dominação de outros seres humanos, em um exercício de poder que se repete tanto na macro quanto na micro sociedade. Pois, quando retorna para casa, este ser dominado também acaba por exercer sua cota de dominação sobre os outros seres humanos que compõem sua família.
Já na antiguidade, na sociedade judaica, quanto na Idade Média, na sociedade cristã, este modelo se organizava na supervalorização da instituição em detrimento do ser humano. A Igreja Católica viveu e conspirou nessa tendência, ao colocar-se como dona da verdade, na infalibilidade papal, avançando na construção de templos, na conquista de terras e riquezas, mas esquecendo-se de transformar o homem em um ser melhor para conviver com seu semelhante. Bem... às conseqüências dessa história nós estamos assistindo.
Foi então que, por volta do século XVI, como um braço do Movimento Renascentista, surge a proposta humanista, tentando erguer o homem ao seu papel de protagonista da história, já que é o único que dela tem consciência.
A própria biologia nos dá evidência dessa primazia, na medida em que somos o ápice da cadeia evolutiva, ponto para onde convergiram todos os esforços da natureza e que, agora, tem o poder de intervir sobre ela. Poder, aliás, que nos tem sido extremamente perigoso.
Mas, quando falo de ser humano, como centro das atenções e motivações da vida, não me refiro a eu ou a você, caro leitor. Falo do ser humano enquanto humanidade, como um conjunto auto-regulado pelas forças de interação que se estabelecem entre as partes que o compõem.
A sociedade do porvir depende da sobrevivência da humanidade atual, e será construída com bases na solidariedade recíproca, onde o bem estar de um será importante para todos e o de todos preocupação de cada um.
Para isso, será preciso romper com este modelo centralizador, que coloca no eixo do mundo as instituições ou mesmo as pessoas individualmente. Humanizar o mundo é percebermos que a dor que me incomoda, também incomoda meu semelhante, que a necessidade que me aflige, também aflige meu semelhante; e, se ele não tiver o que precisa para viver ou para sanar suas dores, virá tomá-lo pela força da sobrevivência que vige na sua natureza animal.
Ao homem que não se permite viver, pensar e sentir como homem, não se poderá recriminar por se comportar como um animal.
No célebre romance “Os três mosqueteiros”, escrito pelo francês Alexandre Dumas, eternizou-se o lema: “um por todos e todos por um”, e se nós não fizermos o mesmo na gigantesca relação social que organiza nossa humanidade, talvez ela não sobreviva para contar novas histórias.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor do livro
“Psicanálise da alma”
www.joaocarvalho.com.br

Texto revisado por: Cris
Publicado dia 19/3/2007

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Autor: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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