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O CÓDIGO



Era uma caixa pequena com menos de um palmo. Rafael a percebera pela primeira vez, em seus quase cinco anos de freqüência na loja de antiquários. Ele sempre se demorava lá quando retornava da escola. Gostava de apreciar as numerosas prateleiras cheias de quinquilharias obsoletas, que as pessoas adoravam adquirir pra fins estranhamente estéticos.

Rodopiava seus olhos pelos objetos quando avistou a caixinha de madeira agreste, crua e sem verniz. Parecia que tinha acabado de ser talhada na madeira ainda tirada da selva. O estojo era rústico. Havia uns desenhos tribais entalhados na superfície. No lugar das dobradiças estava curiosamente acoplada uma espécie de código, como aqueles dos cofres atuais.

O rapaz demorou-se nos ornamentos, achou que poderiam ser de alguma civilização antiga. Queria perguntar ao dono da loja sobre a caixinha, mas o “seu” Edgar estava ocupado atendendo um casal de gringos.

Rafael continuou sua explanação subjetiva. Segurou a caixinha, de um marrom-escuro, bem na altura dos olhos a fim de abstrair algo a mais que pudesse desvendar a natureza do cubo misterioso. Percebeu que algo dentro dele balançava ao toque de suas mãos.

O rapaz voltou a olhar para “seu” Edgar. Este, adormecido da presença de Rafael dentro da loja, ainda estava tentando se comunicar com o casal estrangeiro. Nem se preocupava muito com a permanência do jovem, mesmo porque se acostumara com Rafael ali diariamente; o menino já se confundia com os objetos expostos nas prateleiras.

Apalpava daqui, apalpava dali... encontrou, então, uma espécie de botão camuflado em meio aos desenhos tribais esculpidos em alto relevo. A caixinha se abriu! A alma que se agitava dentro do cubo eram uns óculos sem pernas, semelhantes às lunetas que os finos senhores da sociedade usavam em meados de 1800...

Mas era incoerente uma luneta do século XIX estar guardada dentro de uma caixinha rústica e tribal... “Vai ver é excentricidade do antigo dono...”, pensou Rafael. Pegou os óculos, acomodou-os frente aos seus grandes olhos verdes e voltou-os à caixinha novamente. Havia a outra parte do cubo onde ficavam os tais códigos para desvendar e que, por capricho do destino, Rafael conseguira! No fundo da tampa estava escrita uma frase em francês: “A curiosidade pode matar os tolos que só sabem ver o mundo com as mãos.”

Rafael não sabia francês, muito menos que a caixinha era um artifício para enganar possíveis ladrões. Sim! A pequena caixa era uma ratoeira. E Rafael não pôde perceber sua utilidade porque morrera com o veneno introduzido em suas narinas por conta das lunetas que, ele mesmo havia posto frente a seus olhos.

Hellen Katiuscia de Sá
20 de fevereiro de 2007

Texto revisado por Cris
Publicado dia 24/2/2007

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