O perigo dos poderes parapsíquicos
Autor Alexei Bueno
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 8/28/2026 7:19:42 PM

Depois do surgimento das redes sociais - sim, sou mais antigo que elas -, vez ou outra vejo reaparecer uma questão que, na verdade, está longe de ser nova: o desejo de desenvolver capacidades psíquicas, como clarividência, experiências extracorpóreas e mediunidade. O problema não está necessariamente no interesse por esses fenômenos, mas na possibilidade de que tais capacidades sejam simbolicamente transformadas em sinais de superioridade espiritual, passando a alimentar justamente aquilo que o desenvolvimento interior deveria ajudar a compreender e transcender: o orgulho e o ego. Este artigo tem como objetivo refletir criticamente sobre essa questão, procurando distinguir a busca por experiências extrafísicas do verdadeiro desenvolvimento espiritual.
Na Ordem Rosacruz AMORC, há, em determinados graus de seus ensinamentos, exercícios práticos voltados ao desenvolvimento de capacidades psíquicas. Entretanto, antes de chegar a essas práticas, é interessante observar que existe todo um cuidado por parte dos instrutores em alertar para um perigo que pode acompanhar o buscador espiritual: o desenvolvimento de capacidades parapsíquicas motivado por interesses egóicos, como a vaidade, o desejo de poder ou a necessidade de sentir-se superior aos demais.
Quando me refiro à capacidade parapsíquica, estou falando das faculdades por meio da qual o ser humano percebe informações ou vivência de fenômenos que transcendem os meios sensoriais do corpo físico. Existe uma ampla variedade de fenômenos tradicionalmente investigados pela Parapsicologia, entre eles a telepatia, a clarividência, a precognição e a psicocinese. Entretanto, uma das capacidades que mais vejo ser, por vezes, "ostentada" nas redes sociais diz respeito às experiências fora do corpo, popularmente conhecidas como "viagem astral". Em alguns casos, a experiência deixa de ser apresentada simplesmente como objeto de investigação ou desenvolvimento pessoal e passa a ser utilizada como uma espécie de credencial de superioridade espiritual.
Naturalmente, considero importante falarmos a respeito dessas questões, relatarmos nossas vivências e experiências e, inclusive, compartilhá-las com outras pessoas, sobretudo quando o objetivo é promover a reflexão e o aprendizado mútuo. A questão que procuro colocar em pauta, entretanto, está justamente no limite, muitas vezes sutil, entre o compartilhamento saudável de uma experiência e sua utilização como instrumento de afirmação do ego, de vaidade ou de suposta superioridade espiritual.
Essa questão me faz recordar o mito do Anel de Giges (modernamente representado pela saga "O Senhor dos Anéis", apresentado por Platão em A República, que reflete justamente sobre a dimensão ética daquele que adquire um poder. Neste mito, um homem encontra um anel capaz de torná-lo invisível e, ao perceber que pode agir sem ser visto e, aparentemente, sem sofrer as consequências sociais de seus atos, utiliza essa extraordinária capacidade em benefício próprio: aproxima-se da rainha, participa da morte do rei e, por fim, apodera-se do reino. O anel funciona, assim, como uma espécie de teste moral, pois levanta uma questão fundamental: como agiríamos se possuíssemos um poder que nos permitisse ultrapassar determinadas limitações impostas pela vida cotidiana? Fazendo um paralelo com a chamada viagem astral, podemos formular uma provocação semelhante: o que a maioria das pessoas faria se pudesse vivenciar experiências fora do corpo de maneira plenamente lúcida e voluntária? E, indo além, o que aconteceria se essa capacidade estivesse ao alcance de uma parcela significativa da população?
Essa mesma reflexão pode ser estendida à telepatia, à clarividência e a outras supostas capacidades parapsíquicas. Quais seriam, afinal, as verdadeiras motivações daqueles que desejam desenvolvê-las? Seria a vontade de relatar experiências nas redes sociais, conquistar reconhecimento ou notoriedade, ou simplesmente sentir-se "mais poderoso", "mais especial" ou espiritualmente superior aos demais? Ou, ao contrário, haveria uma motivação genuína voltada ao conhecimento, à investigação, ao autoconhecimento ou mesmo ao auxílio ao próximo? Talvez a questão mais importante não seja apenas perguntar se tais capacidades podem ser desenvolvidas, mas compreender por que desejamos desenvolvê-las e o que faríamos com elas caso realmente as possuíssemos.
Nesse sentido, o "anel" do buscador espiritual - representado pelas capacidades parapsíquicas que existem de maneira latente em todos nós - poderia funcionar simbolicamente como o Anel de Giges. Afinal, a aquisição de uma capacidade parapsíquica não transforma necessariamente aquilo que somos; ao contrário, pode ampliar as possibilidades de expressão daquilo que já existe em nosso interior, sejam virtudes ou fragilidades. Diante disso, talvez a pergunta mais importante não seja se somos capazes de desenvolver tais faculdades, mas se estamos interior e moralmente preparados para lidar com elas. Será que estamos preparados para isso?
Uma pessoa poderia interpretar uma experiência extrafísica com cautela e humildade, reconhecendo: "Experimentei algo que ainda não compreendo plenamente". Outra, porém, movida pelo orgulho, poderia interpretar exatamente a mesma vivência de maneira completamente diferente: "Isso demonstra que sou espiritualmente superior aos demais". O fenômeno vivenciado pode ser semelhante - uma experiência fora do corpo -, mas a maneira como cada indivíduo o interpreta e o incorpora à própria identidade pode ser profundamente distinta. É justamente nesse ponto que surge o perigo: aquilo que deveria servir como oportunidade de investigação, autoconhecimento e ampliação da consciência pode acabar se transformando em alimento para a vaidade e para o próprio ego que a busca espiritual, em princípio, deveria ajudar a compreender e transcender.
Concluindo, penso que o centro de toda essa reflexão está na maturidade, entendida como um processo de desenvolvimento pelo qual todos passamos e que envolve aspectos fundamentais como humildade, compaixão e, sobretudo, autoconhecimento. O problema não está necessariamente em desejarmos desenvolver nossas capacidades parapsíquicas; esse desenvolvimento pode até surgir como consequência natural do próprio processo de ampliação da consciência. A dificuldade começa quando essas capacidades se transformam em alimento para a vaidade, em instrumentos de afirmação do ego ou em uma maneira de demonstrar alguma suposta "superioridade espiritual". Retornando à metáfora de Giges, poderíamos dizer que o buscador espiritual imaturo preocupa-se principalmente em encontrar o anel e descobrir os poderes que ele pode proporcionar; o buscador mais maduro, porém, procuraria primeiro compreender quem ele se tornaria depois de encontrá-lo. Afinal, talvez mais importante do que possuir o anel seja estar preparado para não ser possuído por ele.
Alexei Bueno
Meus livros: https://clubedeautores.com.br/livros/autores/alexei-bueno
Meus cursos:
- Filosofia do Ocultismo: https://www.udemy.com/course/filosofia-do-ocultismo/
- Viagem Astral: https://www.udemy.com/course/aprenda-sobre-experiencias-fora-do-corpo-ou-viagem-astral/
|
Conteúdo desenvolvido pelo Autor Alexei Bueno Visite o Site do autor e leia mais artigos.. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui. |









in memoriam