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O problema e a solução no relacionamento

por Theresa Spyra

Publicado dia 2/7/2008 em Autoconhecimento

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Joana ama o marido. Mesmo com ela vivendo em São Paulo e ele em Mogi das Cruzes. Ela é bem sucedida profissional e financeiramente, e sustenta a casa. E talvez por isso eles estejam morando separados, apesar de casados. É, ele é depressivo. Não acerta um emprego ou um empreendimento. E ela, o que faz? Dá tudo a ele. Fornece até o seu cartão de crédito. Provê tudo ao seu filho... quer dizer, marido. A irmã de Joana, Pietra, também teve um relacionamento complicado. Não tem mais. Estão separados. Chamavam-se de papai e mamãe. Ambos com muitas mágoas de papai e mamãe, chamando-se de papai e mamãe...

Nesses dois casos que citei, não havia marido e mulher, mas sim, um homem em busca do amor dos pais – na figura da mulher - e mulheres em busca do amor dos pais – na figura do homem. Para quem conhece a história de Édipo e Jocasta, sabe que isso de casar com mamãe ou papai não dá certo.

Muitos relacionamentos são assim. Trabalhando com constelação familiar sistêmica, é mais do que comum ver relacionamentos serem corroídos e rompidos porque ambos, marido e mulher, estão presos às dores dos seus pais. Não falo isso no sentido moralista. Quem conhece um pouco da teoria da constelação familiar sabe que essa “prisão” ocorre em nível inconsciente, não premeditado, e só quando a “coisa ficou feia”, é que um ou ambos procuram ajuda terapêutica. Sabe o que ocorre nesses tipos de relacionamento, onde os parceiros estão presos às mágoas do passado? Ocorre um severo desequilíbrio na ordem do dar e receber.

Dar e receber na mesma medida

Por exemplo: eu acho que minha mãe não deu o carinho que eu merecia. Tudo bem, até pode ser verdade, porém, no sistema familiar, esse tipo de “rebeldia” filial, ao não aceitar os pais exatamente como eles foram, por piores que tenham sido, provoca um emaranhamento sistêmico. Isso quer dizer que essa dor, essa emoção carregada de ressentimentos é transmitida para frente, para os descendentes familiares. Caso não seja vista, trabalhada, aceita esta dor, o relacionamento futuro fica comprometido e, depois, os relacionamentos dos filhos e netos têm a tendência também de terem complicações.

Se pensarmos bem, esta dinâmica, ao contrário de ser negativa ou ruim, é bonita e redentora. Explico o porquê. O sistema familiar é sempre maior do que o ego, do que o indivíduo. Eu, como indivíduo, posso ter mágoa do meu pai, e meu pai pode ter mágoa da mãe dele, minha avó. Porém, para o sistema familiar, que inclui eu, meu pai, meus avós e antepassados, não há espaço para exclusões e mágoas. E mais: somente o fato de eu estar viva, vencendo todas as probabilidades de não estar (poderia ter sido abortada, poderia não dar certo a fecundação naquele exato instante em que ocorreu, poderia ter sido morta pelos meus pais na infância, poderia não ser cuidada e morrer doente...), apesar de tudo isso, estou aqui. Meus pais serviram à vida e permitiram que esta vida se demonstrasse por mim. Todos os pais, somente pelo fato de terem dado a vida, já são credores. Um filho nunca pode dar mais para seu pai ou mãe. Não há como, pois a vida é o valor maior que temos. Podemos, isso sim, como pais dos nossos filhos, dar a eles, e eles sempre serão devedores.

Mas no relacionamento a dois, não deve existir esse desequilíbrio no dar e receber. Ninguém é devedor de ninguém, nem credor. Marido e esposa, namorado e namorada, amigos, enfim, são iguais, porque não existe um vínculo familiar nessa história. Porém, quando identifico meu pai ou mãe no meu parceiro, e busco redimir minhas mágoas familiares com ele, começo a exigir muito mais do que ele pode dar. E como sempre existe a reciprocidade, ele também exige carinho, cuidados, atenção que ele acha que não recebeu dos pais dele. Eu tenho que suprir isso. E não dá certo.

Segundo Bert Hellinger, criador da constelação familiar sistêmica, existem três tipos que ocorrem nessa troca do “dar e receber”: abstinência, prestimosidade e troca total. As duas primeiras são perniciosas para a relação. A última seria a mais adequada.

Vou explicar cada uma delas.

Abstinência ocorre às pessoas que não aceitam aquilo que a vida está oferecendo. Se recusam a interagir com a vida, criticam e condenam aquilo que existe para elas. Os casos de depressão podem se enquadrar nesta característica. Muitas vezes, uma pessoa recusa-se a aceitar o pai, ou a mãe, ou os dois. Mais tarde, essa recusa se estende ao relacionamento amoroso. E, por fim, ela começa a recusar tudo o que a vida oferece de bom. Como intimamente todo ser humano tem o impulso familiar de aceitar os próprios pais, ele fica magoado e com sensação de culpa, sentindo-se incompleto e perdido.

O que é a prestimosidade? Ser prestimoso é ser prestável, alguém que tem créditos, não no sentido material, mas também pode ir por esse lado. É a pessoa que sempre dá e recusa-se a receber. Negam as suas necessidades, recusam-se a ganhar os préstimos de outras pessoas e, ao contrário do que possa parecer, isso não é humildade, em absoluto. Isso é uma ilusão de superioridade, onde a pessoa rejeita os prêmios da vida e nega a igualdade ao parceiro de relação.

A troca total, ou seja, o dar e receber total é, como Hellinger fala “o mais belo caminho da inocência no dar e receber”. Existe um contentamento, uma plenitude. Dar e receber sem barreiras coloca duas pessoas como iguais, humildes e poderosas ao mesmo tempo, prestativas e abertas a serem servidas, e representa uma honestidade de sentimentos e de emoções redentora.

O relacionamento livre de amarras

Quando nos sentimos amarrados a um parceiro podemos nos ver como “donos” ou “submissos”... às vezes, os dois, em momentos diferentes. Este fato não significa distúrbio de caráter. Não existem distúrbios de caráter: somente seguimos os impulsos tentando equilibrar as dores emocionais originadas no nosso passado familiar.

É possível se desligar dessas dores. Para isso é necessário querer. É necessário aceitar que é possível viver independente emocionalmente do outro e, por isso mesmo, amá-lo em toda a plenitude. As músicas e os poetas não cansam de dizer sobre o amor que só existe em liberdade. Quando existe prisão emocional, o amor não flui.

Por que temos dificuldade de soltar? Porque dentro de nós já sentimos a sensação do vazio, da perda e não queremos perder novamente. Mas essa sensação de vazio e perda é uma ilusão, originada no passado. Aceitar a ilusão, reconhecê-la, respeitá-la. Afinal, ela também foi parte da própria vida, e deixá-la, este é o caminho. Este caminho deve estar preenchido de atitude. Atitude de liberdade: libertar o outro, mesmo correndo o risco que ele se vá. Libertar a si mesmo, mesmo correndo o risco de ser feliz. Dois seres livres que se amam, frutificam o amor, não desconfiam, não culpam, não julgam... Simplesmente crescem juntos. Até quando? Sabe lá Deus...

Theresa Spyra
Facilitadora alemã de constelação familiar, profissional e empresarial sistêmica
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Texto revisado por Cris

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Sobre o Autor: Theresa Spyra   
Theresa Spyra é alemã, trainer e terapeuta com especialização em constelação sistêmica familiar, organizacional e estrutural. Estudou com a também alemã Mimansa Erika Farny, pioneira na introdução do método sistêmico de Bert Hellinger no Brasil, e aprofundou-se nos sistemas estruturais e organizacionais, com estudos no Brasil, Alemanha e Suíça
E-mail: [email protected]
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