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O Recado

por Eduardo Paes Ferreira Netto

Publicado dia 16/2/2008 em Autoconhecimento

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O velho mestre, sentado em sua poltrona predileta, matutava sobre o assunto da conferência que deveria proferir no próximo domingo para os membros de sua congregação e convidados.

A congregação era uma espécie de escola, onde a par do estudo sobre todas as religiões e filosofias conhecidas, procurava levar seus associados a uma vivência real e à aplicação prática, no quotidiano, dos princípios morais comuns a todas elas: amor ao próximo, mansidão, não violência, tolerância, humildade absoluta, vida simples, ausência de paixões e egoísmo, enfim todas aquelas qualidades e virtudes que distinguem o homem verdadeiramente espiritualizado.

O mestre era muito considerado por sua elevada espiritualidade e profundo saber, tanto na área filosófica, quanto científica, daí a grande procura de sua congregação por pessoas das mais diversas religiões, doutrinas ou filosofias das mais diferentes origens e costumes.

Funcionava na congregação um sistema de graduação visando com isso, por um lado, tornar mais homogêneas as diversas classes de discípulos e, por outro, motivar os mais novos na procura pelos graus mais elevados, o que implicava automaticamente no desenvolvimento das qualidades espirituais, sua precípua finalidade. Estava, entretanto, chegando à conclusão de que o sistema estava falhando. Os discípulos, via de regra, conseguiam excelentes resultados nas provas meramente intelectuais; revelavam-se nelas, verdadeiros luminares. Entretanto, quando se tratava de verificar a aplicação prática dos conhecimentos auferidos via o mestre, com tristeza, que a maioria ainda não havia conseguido erradicar os germens do egoísmo, do orgulho, da vaidade, do desejo de simplesmente ser louvado e engrandecido, chegando muitas vezes a exigir que o mestre lhes conferisse graus superiores com base exclusivamente nos conhecimentos intelectuais. Via com pesar que estavam mais preocupados com os resultados materiais que poderiam obter do que com a realização interior. Conhecia-os como a palma da própria mão, amava-os e preocupava-se intensamente com a falta de vivência prática.

O papel sobre a escrivaninha, ainda em branco, esperava que a mão do mestre empunhasse a caneta e em caracteres firmes lhe traçasse suas mensagens cheias de luz e sabedoria. Recostado à poltrona, cofiando vez por outra a espessa barba, aguardava a visita da musa, que tardava. A inspiração teimava em não afluir a seu cérebro privilegiado; era raro acontecer tal coisa. Nunca tivera como agora tanta dificuldade em preparar uma conferência. Deixou o trabalho de lado, levantou-se, apagou a luz do gabinete e foi dormir. A Sabedoria Infinita lhe daria na hora exata a inspiração necessária.

No amplo auditório as poltronas estavam todas ocupadas. Pessoas sentadas pelos corredores e pelas escadarias lotavam completamente o recinto. O presidente da congregação abriu os trabalhos e fez um laudatório à guisa de apresentação do conferencista que foi saudado com calorosa salva de palmas.

O mestre entrou sorridente, trazendo nas mãos um maço de papéis. Curvou-se humildemente ante o auditório, recebendo mais palmas. Agradeceu o calor da recepção e pediu que todos se sentassem.

Tinha muito o que dizer e o tempo se escoava rapidamente. Havia escrito um verdadeiro libelo contra a conduta incorreta de grande parte de seus seguidores que contrapunham seus interesses pessoais aos da comunidade; dos que eram incapazes de um trabalho desinteressado e livre de egoísmo; dos que se preocupavam apenas com os resultados pecuniários ou de qualquer outra ordem de interesses com que pudessem dar vazão à sua vaidade pessoal ou ao incontido orgulho.

Todos tomaram seus assentos. A atmosfera era de expectativa. O silêncio, absoluto. O mestre abriu o calhamaço de papéis sobre a mesa. Repentinamente num dos vitrôs do auditório, pousou uma pequena ave que começou a cantar. Ora um trinado, ora um canto corrido, enfim numa variedade indescritível de sons de incomparável beleza dava o seu recado a uma platéia embevecida e em respeitoso silêncio. O pequeno cantor indiferente à platéia continuava emitindo os maviosos sons de sua privilegiada garganta, encantando o auditório boquiaberto. A ave durante três ou quatro minutos deu o seu concerto, bateu asas e foi embora. Nada cobrou pelo espetáculo, não esperou os aplausos da multidão, simplesmente deu o seu recado e foi-se.

O velho mestre com lágrimas nos olhos, observava a assistência que embevecida continuava em silêncio. Após alguns minutos de respeitoso silêncio o mestre falou, a voz ainda um tanto embargada pela emoção:

- Minhas senhoras, meus senhores, caros discípulos, minha palestra está terminada. Boa noite, muito obrigado!

Todo o auditório levantou-se e irrompeu em prolongada e estrondosa salva de palmas. Cada um dos ouvintes voltou à sua casa naquela noite maravilhosa com o extraordinário exemplo de trabalho desinteressado que a pequena ave deu a cada um.

Por Eduardo Paes

Texto revisado por Cris

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