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O Simbolismo do Graal - I

por João José Baptista Neto

Publicado dia 19/4/2008 em Autoconhecimento

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Do Livro "El Rey del Mundo", de René Guénon
Extraído do site link, com autorização.

CAPÍTULO V


Fazíamos, há pouco, alusão aos “Cavaleiros da Távola Redonda”; não será fora de propósito mencionar aqui o que significa o “romance do Graal”, que nas lendas de origem celta se apresenta como sua figura principal. Em todas as tradições se faz alusão a algo que, a partir de uma certa época, teria se perdido ou estaria oculto: é, por exemplo, o Soma dos Hindus ou o Haoma dos Persas, a “bebida da imortalidade”, que precisamente tem uma relação muito direta com o “Graal”, visto que é, diz-se, o cálice sagrado que conteve o sangue de Cristo, o qual é também a “bebida da imortalidade”. Para as demais, o simbolismo é diferente: assim, entre os Judeus, o que se perdeu, é a pronúncia do grande Nome divino (1); mas a idéia fundamental é sempre a mesma e veremos mais adiante a que corresponde exatamente.

(1)Lembremos também, a esse respeito, a “Palavra perdida” da Maçonaria que simboliza igualmente os segredos da verdadeira iniciação; assim, a “busca da Palavra perdida” não é mais que outra forma do “romance do Graal”. Isso justifica a relação assinalada pelo historiador Henri Martin entre a “Massonerie du Saint-Grial” e a Maçonaria (ver ‘O Esoterismo de Dante’, ed 1957, pp 35-36); e as explicações que damos aqui permitirão compreender o que dissemos, a esse propósito, da conexão muito estreita que existe entre o simbolismo do “Graal” e o “centro comum” de todas as organizações iniciáticas.

O Santo Graal é, diz-se, o cálice que se usou na Ceia e onde José de Arimatéia colheu depois o sangue e a água que saíam da chaga lateral de Cristo aberta pela lança do centurião Longino(2). Segundo a lenda, esse cálice teria sido levado para a Grã-Bretanha pelo próprio José de Arimatéia e Nicodemos(3); e é preciso ver nisso a sinalização de um laço estabelecido entre a tradição celta e o Cristianismo. O cálice, na verdade, desempenha um papel muito importante na maioria das tradições antigas e, sem dúvida, isso era assim de forma concreta nos Celtas; há que se destacar inclusive que frequentemente está associado à lança e que esses dois símbolos são então de certo modo complementares; mas isso nos afastaria de nosso tema(4).

(2)Esse nome, Longino, está associado ao próprio nome da lança, em grego logké (que se pronuncia lonké); em latim lancea, que tem a mesma raiz.
(3)Esses dois personagens representam aqui respectivamente o poder real e o poder sacerdotal; ocorre o mesmo com Arthur e Merlin na instituição da “Távola Redonda”.
(4)Diremos só que o simbolismo da lança está frequentemente relacionado com o “Eixo do Mundo”; a esse respeito, o sangue que goteja da lança tem o mesmo significado que o rocio que emana da “Árvore da Vida”; ademais, sabe-se que todas as tradições são unânimes em afirmar que o princípio vital está intimamente ligado ao sangue.


O que talvez mostre mais claramente o significado essencial do “Graal”, é o que se diz a respeito de sua origem: esse cálice teria sido talhado pelos Anjos em uma esmeralda caída da testa de Lúcifer no momento de sua queda(5). Essa esmeralda lembra de uma maneira muito chamativa a urnâ, a pérola frontal que no simbolismo hindú (de onde passou ao Budismo) ocupa com frequência o lugar do terceiro olho de Shiva, que representa o que se pode chamar o “sentido da eternidade”, assim como já explicamos em outra parte(6). Mais ainda, diz-se que o “Graal” foi confiado a Adão no Paraíso terrestre, mas que, em sua queda, Adão o perdeu por sua vez, já que não pôde levá-lo com ele quando foi expulso do Éden; e, com o significado que acabamos de indicar, isso se faz suficientemente claro. Na realidade, o homem, separado de seu centro original, encontrava-se a partir de então enclausurado na esfera temporal; já não podia encontrar o ponto único a partir de onde se contemplam todas as coisas sob o aspecto da eternidade. Em outros termos, a possessão do “sentido da eternidade” está ligada ao que todas as tradições chamam, como lembramos mais atrás, o “estado primordial”, cuja restauração constitui a primeira etapa da verdadeira iniciação, posto que é a condição prévia da conquista efetiva dos estados “supra-humanos”(7). Ademais, o Paraíso terrestre representa propriamente o “Centro do Mundo”; e o que diremos a seguir, sobre o sentido original da palavra Paraíso, poderá fazê-lo compreender melhor.

(5)Alguns dizem uma esmeralda caída da coroa de Lúcifer, mas nisso há uma confusão que provém do fato de que Lúcifer, antes de sua queda, era o “Anjo da Coroa” (quer dizer Kether, a primeira Sephirot), em hebraico Hakathriel, nome que tem como número 666.
(6)“O Homem e seu vir-a-ser segundo o Vedanta”, p. 150 da ed. Francesa.
(7)Sobre esse “estado primordial” ou “estado edênico”, ver “O Esoterismo de Dante, pp 46-48, e 68-70 da ed. Francesa; e “O Homem e seu Vir-a-Ser segundo o Vedanta”, pg 182 da ed. francesa.


O que segue pode parecer mais enigmático: Seth conseguiu entrar no Paraíso terrestre e pôde assim recuperar o precioso cálice; isto posto, o nome de Seth expressa as idéias de fundamento e de estabilidade e, por conseguinte, indica de certo modo a restauração da ordem primordial destruída pela queda do homem(8). Assim pois, deve-se compreender que Seth e aqueles que depois dele possuiram o Graal puderam por isso mesmo estabelecer um centro espiritual destinado a substituir o Paraíso perdido, e que era como uma imagem deste; e então, essa possessão do Graal representa a conservação integral da tradição primordial em um tal centro espiritual. Quanto aos demais aspectos, a lenda não diz onde nem por quem foi conservado o Graal até a época de Cristo; mas a origem celta que se reconhece deve dar a entender sem dúvida que os Druidas tiveram uma parte nisso e que devem ser contados entre os conservadores regulares da tradição primordial.

(8) Diz-se que Seth permaneceu quarenta anos no Paraíso terrestre; esse número 40 tem também um sentido de “reconciliação” ou de “retorno ao princípio”. Os períodos medidos por esse número se encontram com muita frequência na tradição judaica-cristã: lembremos os quarenta dias de dilúvio, os quarenta anos durante os quais os Israelitas erraram pelo deserto, os quarenta dias que Moisés passou no Sinai, os quarenta dias de jejum de Cristo (a Quaresma tem naturalmente a mesma significação); e sem dúvida poderiam ser encontrados outros.

Texto revisado por Cris

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