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O Simbolismo do Graal - II

por João José Baptista Neto

Publicado dia 19/4/2008 em Autoconhecimento

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A perda do Graal ou de alguns de seus equivalentes simbólicos é, em resumo, a perda da tradição com tudo o que ela contém; quanto ao resto, para dizer a verdade, essa tradição está mais oculta do que perdida, ou ao menos não pode estar perdida senão para alguns centros secundários, quando estes cessam de estar em relação com o centro supremo. Quanto a este último, guarda sempre intacto o depósito da tradição e não é afetado pelas mudanças que sobrevêem no mundo exterior; tanto é assim que, segundo diversos Pais da Igreja e concretamente Santo Agostinho, o dilúvio não pôde alcançar o Paraíso terrestre, que é “A morada de Henoch e a terra dos Santos”(9), e cujo cume “toca a esfera lunar”, quer dizer, se encontra mais além do domínio da mudança (identificado como “mundo sub-lunar”), no ponto de comunicação da Terra e dos Céus(10).

Mas, do mesmo modo que o Paraíso terrestre veio a ser inacessível, o centro supremo, que é no fundo a mesma coisa, pode no curso de um certo período não estar manifestado exteriormente e então pode-se dizer que a tradição está perdida para o conjunto da humanidade, já que não é conservada mais que em alguns centros rigorosamente fechados, e a massa dos homens já não participa dela de uma maneira consciente e efetiva, contrariamente ao que havia tido lugar no estado original(11); tal é precisamente a condição da época atual, cujo começo remonta muito mais além do que é acessível à história comum e “profana”. Assim pois, a perda da tradição, segundo os casos, pode ser entendida nesse sentido geral, ou bem pode se referir ao obscurecimento do centro espiritual que regia mais ou menos invisivelmente os destinos de um povo particular ou de uma civilização determinada; é necessário pois, cada vez que se encontra um simbolismo que se refere à sua perda, examinar se deve ser interpretado em um ou outro sentido.

(9)“E Henoch caminhou com Deus e não apareceu mais (no mundo visível ou exterior), porque Deus o levou.” (Genesis V, 24). Teria sido então transportado ao Paraíso terrestre; isto é o que pensam também alguns teólogos como Tostat e Cajetan. Sobre a “Terra dos Santos” ou “Terra dos Vivos”, ver o que se dirá mais adiante.
(10) Isso está conforme o simbolismo empregado por Dante que situa o Paraíso terrestre no cume da montanha do Purgatório, que se identifica nele a “montanha polar” de todas as tradições.
(11) A tradição hindu ensina que não havia na origem mais que uma só casta, que era denominada Hamsa; isso significa que todos os homens possuiam então normal e espontaneamente o grau espiritual que é designado por esse nome, e que fica mais além da distinção das quatro castas atuais.


Segundo o que acabamos de dizer, o Graal representa ao mesmo tempo duas coisas que são estreitamente solidárias uma a outra: aquela que possui integralmente a “tradição primordial”, que chegou ao grau de conhecimento efetivo que implica essencialmente essa possessão e está, na verdade, por isso mesmo, reintegrada na plenitude do “estado primordial”. A essas duas coisas, “estado primordial” e “tradição primordial”, se refere ao duplo sentido que é inerente à palavra Graal em si, já que por uma dessas assimilações verbais que desempenham frequentemente no simbolismo um papel não desdenhável, e que tem por outras razões muito mais profundas que as que se imaginaria à primeira vista, o Graal é às vezes um cálice (grasale) e um livro (gradale ou graduale); e esse último aspecto designa manifestamente a tradição, enquanto que o outro se atém mais diretamente ao estado em si(12).

(12) Em algumas versões da lenda do Santo Graal, os dois sentidos se encontram estreitamente unidos, já que o livro vem a ser então uma inscrição desenhada por Cristo ou por um Anjo sobre o próprio cálice. Teria nisso aproximações fáceis de fazer com o “Livro da Vida! E com alguns elementos do simbolismo apocalíptico.

Não temos a intenção de entrar aqui nos detalhes secundários da lenda do Santo Graal, embora todos tenham também um valor simbólico, nem de continuar a história dos Cavaleiros da “Távola Redonda” e de suas façanhas; mencionaremos só que a “Távola Redonda”, construida pelo Rei Arthur (13) com base nos planos de Merlin, estava destinada a receber o Graal quando algum de seus cavaleiros tivesse chegado a conquistá-lo e o tivesse levado da Grã-Bretanha para a Armórica. Essa távola é também um símbolo verdadeiramente muito antigo, um daqueles que foram sempre associados à idéia dos centros espirituais, conservadores da tradição; quanto aos demais, a forma circular da távola está ligada formalmente ao ciclo zodiacal pela presença ao redor dela de doze personagens principais (14), particularidade que, como dizíamos anteriormente, se encontra na constituição de todos os centros de que se trata.

(13) O nome de Arthur tem um sentido muito destacável que se vincula ao simbolismo “polar” e que talvez explicaremos em outra ocasião.
(14)Os Cavaleiros da Távola Redonda são às vezes em número de cinquenta (que era, nos hebreus, o número do jubileu, e que se refere também ao “reino do Espírito Santo”); porém, havia sempre doze que desempenhavam um papel preponderante. Lembremos também, a propósito disso, os doze pares de Carlo Magno em outros relatos lendários da Idade Média.


Há também um símbolo que se vincula a outro aspecto da lenda do Graal e que merece uma atenção especial: é o de Montsalvat (literalmente “Monte da Salvação”), o pico situado “nos limites longíquos a que nenhum mortal se aproxima”, representado como erigido no meio do mar, numa região inacessível, atrás do qual se eleva o Sol. É às vezes a “ilha sagrada” e a “montanha polar”, dois símbolos equivalentes dos que teremos que falar na sequência deste estudo: é a “Terra da imortalidade”, que se identifica naturalmente com o Paraíso terrestre(15).

(15) A semelhança de Montsalvat com o Meru nos foi assinalada por Hindus, e foi isso que nos conduziu a examinar mais de perto o significado ocidental do Graal.

Para voltar ao Graal propriamente dito, é fácil se dar conta de que seu significado primeiro é no fundo o mesmo que o que tem o cálice sagrado em todas as partes onde se encontra, e que tem concretamente, no Oriente, o cálice sacrificial que contém originariamente, como já indicamos anteriormente, o Soma védico ou o Haoma mazdeísta, quer dizer, a “beberagem da imortalidade” que confere ou restitui àqueles que o recebem com as condições requeridas, o “sentido da eternidade”. Não poderíamos, sem sairmos de nosso tema, nos estender mais sobre o simbolismo do cálice e do que contém; para desenvolve-lo convenientemente, seria necessário consagrar-lhe todo um estudo especial; mas a observação que acabamos de fazer vai nos conduzir a outras considerações que são da maior importância para o que nos propomos no presente.

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Texto revisado por Cris

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