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Os Dois Adeptos

por Eduardo Paes Ferreira Netto

Publicado dia 9/3/2008 em Autoconhecimento

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A platéia aplaudia entusiasticamente o orador e este, humildemente, as mãos justapostas diante do rosto reverenciava e agradecia os aplausos, retirando-se em seguida do palco, dando por encerrada aquela conferência. Quinze minutos depois deixou o teatro pela porta dos fundos após os cumprimentos das autoridades e pessoas do âmbito da organização a que pertencia.

- Kaoru!
- Niro, Niro! Niro, é você mesmo? - perguntou surpreso o conferencista, reconhecendo pela voz o velho amigo de faculdade.

Reverenciaram-se mutuamente e depois se abraçaram, manifestando alegria por aquele reencontro. Após alguns instantes de manifestação daquele contentamento mútuo passaram a caminhar pela calçada, conversando animadamente.

- Por onde tem andado, Niro? Há tanto tempo não o vejo! O que tem feito da vida?
- Tenho estudado e meditado bastante sobre os mistérios da vida e da morte, sobre o carma e as leis que regem toda esta natureza.
- Mas, para estudar tudo isso precisaria ter desaparecido do convívio dos amigos?
- Ah, meu irmão, com certeza! Como é que podemos nos dedicar ao estudo, à meditação e principalmente às práticas ascéticas que nos levam à conscientização do Ser Superior no meio do bulício e das tentações do mundo fenomênico?
- Realmente, Niro, aqui fora é muito difícil a realização das práticas ascéticas, mas eu não tenho queixa. Parece que consegui algum resultado vivendo aqui mesmo neste mundo cheio de ilusões e, realizando um trabalho profissional, procuro servir ao maior número possível de pessoas.
- Assisti sua conferência e fiquei encantado com os elevados conhecimentos que demonstrou. Fiquei também bastante impressionado com sua aura que envolvia toda a platéia embevecida. Realmente você está com uma aura que só os seres muito iluminados possuem. Eu optei pelo caminho mais fácil. Retirei-me deste mundo e me embrenhei, sob a orientação do meu mestre, para o meio de uma floresta, onde vivi numa cabana durante sete longos anos submetendo-me à mais rígida disciplina e atingindo por fim a conscientização do meu Ser Real.
- Vejo realmente que você alcançou uma grande realização.
- E como é que você conseguiu esse extraordinário resultado, vivendo no meio de tanto barulho? - inquiriu Niro.
- Meu irmão, eu não preciso lhe dizer que tudo está em nossa mente. Você bem sabe disso. Se ao invés de fugir das paixões procurar mantê-las sob controle, poderá manifestar naturalmente a Luz e a Verdade e alcançar a suprema realização do Ser, sem necessidade de se afastar deste mundo.
- Deve ter sido muito difícil ter conseguido esse admirável estado em que você se encontra, Kaoru.
- Nem mais difícil, nem mais fácil. Todo caminho tem suas facilidades e suas dificuldades, aliás, mais dificuldades do que facilidades. Abster-se das ilusões deste mundo requer realmente uma grande dose de conscientização e muita coragem para enfrentar seus desafios e tentações. Mas mesmo você lá na sua caverna quanta dificuldade deve ter tido para se manter firme num estado meditativo quando uma ave vinha cantar perto, ou se distraía com o trabalho de um inseto, deixando de lado os temas de sua meditação?
- É verdade! Nós julgamos que nos isolamos na floresta, mas ela está realmente cheia de atividade, cheia de vida, em constante movimento e às vezes nos distraímos observando essa vida. Mas pelo menos estamos livres das tentações mundanas.

Conversa vai, conversa vem, os dois amigos chegaram à casa de Kaoru que não ficava muito longe do local da conferência.

- Oh, chegamos em casa... vamos entrar.
- Não, eu já devo estar atrasado para a entrada no mosteiro. Eu volto noutro dia.
- Que nada! Eu telefono para seu mosteiro avisando que você vai ficar uns dias aqui comigo, assim poderemos trocar nossas experiências de vida. Com certeza haveremos de lucrar bastante com isto.
- Eu vou lhe dar um bocado de incômodo, Kaoru.
- Que nada! Minha esposa vai ficar muito feliz. Você se lembra de Sumirê, aquela menina magrinha que estudava em nossa classe?
- Aquela que nós chamávamos de Agulha Fina?
- Ela mesma!
- Você casou com ela?
- Sim, e estou muito feliz!
- É espantoso que você mesmo casado tenha conseguido esse estado de iluminação que eu acredito ser bem maior que o meu. Como pode ser?
- Oh, Niro, não me deixe constrangido, pedindo-me explicações que você não precisa. Você bem sabe que nossos carmas criam oportunidades e circunstâncias e que por caminhos diversos nos levam a atingir nossas metas. Você foi para a floresta, eu fiquei na cidade, constituí família, mas vivi minha vida, fazendo deste mundo um grande mosteiro. Minha vida seguia toda a rotina de vida dos monges de qualquer templo. Acordava cedo, dedicava-me até certa hora à meditação e práticas ascéticas; em seguida, ao invés dos trabalhos do templo, dedicava-me aos afazeres profissionais, realizando-os honestamente, sem qualquer tipo de apego e sem usar das "espertezas" tão comuns ao povo em geral. Não tenho apegos. Sigo vivendo o ensinamento dos grandes mestres do Zen: "possuir sem possuir", "ter sem ter". Como vê, é fácil. À noite, quando volto do trabalho dedico-me mais uma vez aos estudos e meditações; às vezes vou fazer palestras para novos adeptos da organização a que pertenço. Assim, vivo neste mundo, uma vida dedicada ao trabalho de Deus e a buscar uma realização cada vez maior, pois bem sabes que o progredir é infinito. Não há, por assim dizer, um limite para o desenvolvimento da alma humana. Assim, vou conseguindo esse estado que você diz ser tão elevado.

Enquanto assim dissertava sobre sua vida, Kaoru tocou a campanhia da porta avisando de sua chegada. Abriu-a e convidou o amigo a entrar. Sumirê veio ao encontro do marido a quem abraçou e beijou efusivamente.

- Mirê, você se lembra do Niro?
- Niro, que prazer revê-lo! Por onde andou? Como você está diferente! Se o visse na rua, não o reconheceria.

Realmente seria difícil reconhecer naquela figura esquálida, de longas e desgrenhadas barbas, vestindo uma túnica amarela surrada e sandálias de há muito pedindo substituição.

-Sumirê, como vai? Diz Niro reverenciando a ex-colega de escola. Sumirê afastou-se um pouco do monge e correspondeu à sua reverência.

- Gente, vamos entrar, vamos entrar!
- Mirê, convidei o Niro para passar uns dias com a gente. Ele está num mosteiro, mas vou ligar para lá e avisar que ficará conosco até indicarem a localidade onde se dedicará à pregação da Grande Verdade.
- Que bom, Kao! - respondeu a esposa alegremente. Ele deve ter muita coisa interessante para nos contar, não é mesmo?

Niro estava meio espantado com o que estava vendo. A casa era bastante luxuosa demonstrando a prosperidade do seu proprietário. Kaoru vendo o embaraço do amigo disse para a esposa:

- Querida, Niro fez votos de pobreza. Com certeza deve estar estranhando o que temos. Peça a Alice para arrumar o quarto de hóspedes.

Enquanto Kaoru levava o hóspede para a sala de visitas, Sumirê tocou uma sineta e uma jovem veio atender o chamado.

Continua

Texto revisado por Cris

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