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Os Dois Adeptos - Parte 2

por Eduardo Paes Ferreira Netto

Publicado dia 9/3/2008 em Autoconhecimento

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- Alice, dê uma boa arrumada no quarto de hóspedes. Leve roupa de cama e roupa também para o hóspede. Não vá se espantar com ele. É um velho amigo de infância que dedicou-se voluntariamente a uma vida de pobreza; vai passar alguns dias conosco.

Niro estava admirado com o luxo da casa do amigo. Quadros de pintores célebres nas paredes, estátuas gregas, tapetes persas, móveis da melhor qualidade. De vez em quando balançava a cabeça de um lado para o outro como que reprovando toda aquela ostentação.

Após algum tempo Alice veio avisar que o quarto estava pronto para ser ocupado.

Kaoru levou o hóspede seguido pela jovem.

- Kaoru, para que tanta ostentação? Diz Niro num tom de reprovação.
- Niro, meu irmão, você alcançou realmente um elevado estado de conscientização, mas ainda não se libertou totalmente da matéria. Tudo isso que você está vendo é matéria, é ilusão, não existe. Possuir ou não possuir estas coisas, dá no mesmo. Elas não têm existência real. É não se apegar.

Alice entrou também no quarto para ver se o hóspede necessitava de mais alguma coisa. Era uma jovem morena com cerca de dezoito anos, cabelos negros, longos e brilhantes, os olhos também negros, profundos; os lábios bem delineados deixavam entrever um sorriso cheio de encanto; de regular estatura, tinha os quadris bem acentuados e por trás da blusa deixava entrever seios maravilhosamente torneados.

Kaoru notou a perturbação do amigo diante da jovem que vestia uma bermuda colante, mostrando toda a beleza do seu corpo moreno. Niro, visivelmente perturbado foi para a janela, pois queria tirar de suas vistas aquela extraordinária imagem de mulher. Na floresta não havia disso.

Kaoru aproximou-se do amigo.

- Ó, Niro, o que foi que aconteceu com a sua aura?
- Não me fale, meu irmão, eu estou perturbado. Todo o meu ser está totalmente agitado. Perdoe-me, eu não posso ficar aqui.
- Bobagem, meu irmão! Logo você se acostumará com essas coisas. Toda essa beleza é fenômeno, não tem existência real! Você não aprendeu isso?
- Sim, aprendi, mas está muito palpável, está muito próximo.
- Eu sei, meu irmão, eu sei. Lá na floresta densa não tinha essas tentações e por isto era tudo muito fácil. Mas um dia você teria que vir para a cidade e enfrentar todas essas tentações. Aqui aprendemos a conviver com o pecado sem pecar.
- Ah, meu irmão, você é mais forte do que eu!
- Nada, Niro, isso foi apenas o primeiro impacto. Você logo voltará ao normal e verá que não é nenhum bicho de sete cabeças, verá tudo com naturalidade.
- Ah, meu irmão, eu não sei! Estou me sentindo muito esquisito. Não sei se terei forças para resistir à tentação daquele corpo moreno.

Enquanto os dois estavam na janela conversando baixinho, Alice notou também a aura avermelhada do hóspede e compreendeu sua situação. Despediu-se e rapidamente desapareceu da vista dos dois. Era uma jovem de boa família, discípula do mestre Kaoru. Estava em sua casa fazendo estágio.

Após a saída da jovem Kaoru indicou o amigo:

- Olhe, ali ao lado tem um banheiro. No armário tem roupas novas para você vestir. Ponha fora esses trapos velhos que está usando. Tome um bom banho e vista o que achar melhor. Se quiser escutar um pouco de música, há um aparelho de som ali ao lado. Quando estiver pronto, desça para o jantar. Até já.

Kaoru saiu, fechando a porta atrás de si, deixando sozinho o amigo eremita com seus pensamentos, seus cuidados e sua aura manchada de tons avermelhados; a velha natureza adâmica rugia em seu interior.

Eram dezenove horas. O casal estava na sala assistindo um programa de TV, aguardando o amigo para o jantar. Comentavam jocosamente os problemas do velho amigo de juventude. Por fim Niro surgiu no alto da escadaria. Vestia uma túnica branca de linho e calçava umas pantufas da mesma cor. Estava com uma melhor aparência, a aura já havia voltado ao normal, mostrava-se brilhante e bastante ampla. Aproximou-se dos amigos.

- Que tal estou? Perguntou alegremente.
- Ah, está ótimo, muito bem!
- Só não concordo é com esse luxo todo. Aprendi que isso é incompatível com a espiritualidade.
- É? Perguntou Kaoru ironicamente. Meu irmão, isso tudo é ilusão, não existe. Todo o problema está em sua mente. Ser bom ou ser mal, ser puro ou impuro, são conceitos de sua mente. Se você considera impuro, é impuro, se considera mal, é mal; mas se você olhar para a essência de cada coisa verá que não há nem bem, nem mal. Tudo É. Não se apegue ao fenômeno. Lembre-se do aforismo: "possuir sem possuir". Isto é o que vivemos na vida prática. Temos todas essas coisas, mas não estamos apegados a elas.
- Isso está muito difícil para mim.
- Logo você entenderá.

Após o jantar os três amigos saíram para assistir a uma ópera no teatro da cidade. Niro ficou encantado com a apresentação, mas sempre dizendo que aquilo impedia o crescimento espiritual e Kaoru retrucando que tudo era matéria, tudo era ilusão e orientando a amigo para ver a essência por trás de todo o fenômeno. Terminada a ópera voltaram para casa.

A rua estava em polvorosa. Havia policiais e bombeiros por todos os lados. Alice e outros serviçais estavam na calçada muito agitados. A casa havia sido invadida por ladrões. Trancaram os empregados no banheiro e levaram tudo. Os quadros célebres, as estátuas, a tapeçaria, as baixelas de prata, tudo, enfim. O casal desceu do carro seguido por Niro que estava em completo estado de agitação.

- O que foi, o que aconteceu?

Um policial aproximou-se.

- O senhor é o proprietário?
- Não, não, é este senhor, disse apontando para Kaoru que estava completamente calmo. O policial voltou-se para Kaoru e a esposa.

- Senhor, sua casa foi assaltada. Carregaram tudo. A casa está totalmente vazia.
- Puxa vida! Já pegaram os ladrões?
- Não, nem sinal deles!
- Bem, o que fazer?
- E a minha roupa, e a minha roupa? gritou Niro, quase histérico. Eu só tinha aquela, como é que vou ficar agora?
- Não se apoquente, meu irmão, tudo é matéria, tudo é ilusão. Kaoru sorria, vendo o desespero do amigo por causa de uns trapos velhos. Já mandamos fechar as estradas para evitar que os ladrões saiam da cidade. Vamos dar buscas em toda parte afim de localizá-los. Tão logo tenhamos alguma novidade, lhes comunicaremos. Dito isto o chefe de policia afastou-se levando consigo todos seus auxiliares.

- Está bem, capitão. Kaoru despediu-se do policial e foi ver os empregados que estavam desconsolados e ainda chocados com o desagradável incidente. Niro continuava totalmente transtornado. Kaoru e Sumirê não demonstravam qualquer tipo de emoção. Estavam calmos e consolando os demais.

Kaoru reuniu todos e decidiu que devido ao adiantado da hora iriam todos para um hotel. No dia seguinte providenciaria a reposição de tudo o que levaram. Ninguém sairia perdendo coisa alguma.

- E eu, o que faço? Perguntou Niro, choroso.
- Você continua como nosso hóspede. Amanhã lhe providenciaremos roupas novas; aliás, meu a

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