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Pedra Negra



Eram justamente três horas da madrugada quando subitamente acordei, com uma forte vontade de meditar. Levantei-me, tomei banho e logo em seguida fui sentar no lugar que tenho preparado para o mergulho interior, o mergulho no pleno vazio.

Nos primeiros momentos minha mente estava muito agitada com pensamentos mundanos. A mente é em si o resultado de todas as nossas experiências nesta nossa vida atual, podendo ser chamada de ser cultural. Ela existe como reflexo da cultura para dirigir o corpo na sua vida de sobrevivência. Deixei que a mente pulasse de um a outro pensamento, característica de sua própria constituição, filha do mundo agitado em que vive. Depois de um bom espaço de tempo a mente foi ficando cansada e, em decorrência, seus estímulos foram se acalmando. Na proporção em que os impulsos da mente diminuíam o vazio ampliava envolvendo-me em um manto de paz, é o momento da consciência. A consciência possui infinitas possibilidades e a mente é somente uma construção cultural.

Depois que a mente acalmou-se completamente, onde nenhum som era captado, existindo um silêncio absoluto, avistei um ancião sentado em uma árvore que tinha caído devido a uma tempestade. Os galhos e folhas ainda estavam vivos, demonstrando que a queda tinha acontecido há pouco tempo devido a uma tempestade. A paisagem em que o velho senhor estava inserido era uma mata não muito fechada e bem próximo tinha um rio de água rasa, e a porção do terreno onde corria o rio era formada por pedras de todos os tamanhos. Avistei também, entre as árvores, uma pequena cabana construída com troncos de arbusto e parecia ser de um só cômodo. Somente muito tempo depois é que vim a saber que o velho se chamava Nakoeri e era um antigo Xamã daquelas paragens.

Ao chegar perto do Xamã fui convidado a sentar ao seu lado. Depois de um bom tempo em silêncio, onde parecia que o tempo tinha parado e o vento se afastado para bem longe, Nakoeri disse-me para não interrompê-lo com perguntas e o escutasse com toda atenção. Disse que no mundo em que estamos existem duas grandes forças: a energia branca e a energia negra. Essas duas energias penetram todos os lugares. Estão no interior do nosso pulmão, dentro do sangue, nas mais profundas cavernas, nos abismos dos mares, nos grotões dos rios, no firmamento, entre os planetas, dentro do que nos alimentamos e no ar que respiramos. Em si, uma energia é da cor do cristal e a outra é negra como o ferro.

Ambas energias estão querendo manifestar-se em um corpo, sendo que estas manifestações ocorrem por intermédio da mente ou da consciência. Quando a mente está em atividade o corpo físico respira o ar negro e quando a consciência se manifesta, o corpo físico respira o ar branco. A consciência sabe que seu corpo físico é apenas uma das possibilidades de se manifestar. É importante sabermos que o hálito das trevas pode estar dentro da pessoa que mais amamos, pode estar dentro de nossa casa e se revela quando a mente é soberana, focada somente na mutabilidade do efêmero. O vapor da força negativa provoca inquietação, agitação, desarmonia, desavença, desalinho, desestruturação, indisciplina, sujeira, ausência da capacidade de concentrar e finalmente a incapacidade de pensar no novo, vivendo em torno do prazer corporal. O hálito branco se reflete na calma e no silêncio. O hálito negro leva o ser humano a viver baseado nos seus sentidos, no espaço, no tempo, na realidade mundana. A consciência é representada pela água do rio e a mente pela pedra negra. O filho do hálito negro está sempre com sua roupagem negra mesmo que visivelmente esteja usando vestimentas claras. O filho da consciência está sempre de vestes alvas, mesmo que esteja usando manto preto.

O velho parou um pouco de falar e, logo em seguida, colocando suas pesadas mãos nos meus ombros ressaltou que eu tinha passado por esta experiência, onde as forças do mundo subterrâneo tinham envolvido todo meu corpo, fazendo com que eu vagasse sem rumo e sem nenhum parâmetro referencial, afastando-me das emanações do ar branco. Devido a inúmeras variáveis, as forças do mal foram embora, me largaram, permitindo que eu visse o quanto é doloroso o se deixar envolver pela negra nuvem. Outra característica do ar negro é fazer a pessoa pensar que vai recuperar tudo aquilo que estragou e também o tempo perdido, que nunca mais voltará. No momento em que a mente abandona o corpo pela morte, sendo ela um mensageiro da nuvem negra será levada para o interior da mais escura caverna existente no universo.

O objetivo do homem na terra é eliminar sua mente e viver os infinitos caminhos da consciência voando para os infinitos mundos. Nakoeri, olhando-me no fundo dos olhos, disse para que eu voltasse ao meu mundo e não esquecesse que o ar negro é real, verdadeiro e nos coloca prisioneiros em um espaço e tempo específico. Salientou também que me chamou àquela região mágica porque eu estava acreditando que só a luz existia, sendo uma concepção totalmente enganadora. O velho Xamã fez soar o seu chocalho e o som do chocalho me conduziu ao meu corpo em meditação.

Texto revisado por Cris
Publicado dia 8/8/2007

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