Por que existe algo em vez de nada?

Por que existe algo em vez de nada?

Autor Alexei Bueno

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 8/11/2026 9:48:44 PM





Certa vez, enquanto escutava um podcast durante minha caminhada matinal, no qual os entrevistados desenvolviam profundas reflexões filosóficas, foi levantada a seguinte questão: "Por que existe algo em vez de nada?". Em um debate puramente racional, essa pergunta parece, à primeira vista, não possuir uma resposta definitiva - ou, pelo menos, não uma resposta que possa ser alcançada apenas pelos caminhos da racionalidade lógica, tal como habitualmente a compreendemos.

Durante meus estudos atuais sobre o Shivaísmo da Caxemira, resolvi então investigar e aprofundar essa questão sob uma perspectiva diferente. Colocada em outros termos, ela poderia ser formulada da seguinte maneira: "Por que há existência em vez da ausência absoluta de tudo?".

Basicamente, cheguei a uma resposta simples e direta: "O nada absoluto jamais existiu." Não há uma ausência absoluta de ser, realidade ou consciência. Nesse sentido, o "não-ser" absoluto não possui realidade própria. Contudo, essa afirmação exige uma elaboração mais cuidadosa. É necessário distinguir o não-ser do Não-Manifesto, pois são conceitos diferentes. O Não-Manifesto não significa inexistência, mas aquilo que ainda não se apresenta como realidade diferenciada em sujeito e objeto, espaço e tempo, mente e matéria. Trata-se de uma condição na qual toda possibilidade de manifestação permanece indiferenciada na Consciência Absoluta, fundamento último da realidade.

Por meio dessas reflexões, descobri, no entanto, que podemos utilizar o conceito de "não-ser" em um sentido relativo. Explico: antes de uma árvore nascer, podemos dizer que "a árvore não existe". Isso, porém, não significa a existência de um Nada absoluto, mas apenas um não-ser relativo, pois determinada forma ainda não se encontra manifestada. Sua ausência enquanto forma particular não implica uma ausência absoluta de realidade, uma vez que a Consciência Absoluta jamais deixa de ser.

Nesse sentido, o Absoluto não deve ser compreendido como um dos polos da oposição entre Ser e Não-ser, pois precede e transcende essa própria dualidade. É justamente nesse ponto que a questão ultrapassa os limites de nossa lógica habitual, estruturada fundamentalmente por distinções e oposições.

Segundo a filosofia do Shivaísmo da Caxemira, a realidade fundamental é a Consciência Absoluta, infinita, livre e autoexistente. Assim, mesmo no estado Não-Manifesto, anterior a qualquer universo, objeto, corpo, mente, espaço ou tempo enquanto realidades diferenciadas, permanece a Consciência. Não se trata, portanto, de uma condição de inexistência ou de um Nada absoluto, mas de uma realidade ainda não manifestada na multiplicidade das formas. A questão passa então a ser outra: "Por que a Consciência Absoluta manifesta a multiplicidade da existência?"

Nesta filosofia hinduísta, encontramos o conceito de Svatantrya, a liberdade absoluta da Consciência. Isso significa que ela não depende de nenhuma causa exterior e tampouco é obrigada a criar ou manifestar o universo. A Consciência possui, porém, o poder inerente de manifestar, conhecer e experimentar a si mesma; esse poder é denominado Sakti. O universo, portanto, não é algo exterior à divindade. Não existe Deus de um lado e a existência do outro, como realidades separadas. Existe uma única Realidade fundamental, que pode ser compreendida como Consciência infinita em sua essência e como multiplicidade cósmica em sua manifestação, expressando-se nos seres, nas formas e em todas as experiências e percepções.

A partir dessa perspectiva, nada foi "fabricado" por uma divindade exterior à realidade, pois tudo é a própria Consciência Absoluta manifestando-se em diferentes graus de diferenciação e limitação, partindo dos níveis mais elevados da Consciência até chegar à individualidade, à mente, aos sentidos e, finalmente, aos elementos que constituem o mundo material.

O que seria, então, a manifestação ou a existência? Ela pode ser compreendida como uma expressão espontânea da liberdade absoluta da Consciência, uma espécie de "jogo" ou atividade divina denominada Lila, por meio da qual incontáveis formas e experiências se manifestam como possibilidades contidas na própria natureza do Absoluto. Shiva, entretanto, não "precisa" de Lila. Se necessitasse criar ou manifestar o Universo para suprir alguma carência ou completar alguma deficiência, não seria verdadeiramente Absoluto. A ideia do "jogo divino" procura justamente compreender a manifestação sem atribuir à divindade qualquer necessidade ou determinação externa: o Universo não surge para completar aquilo que estaria incompleto, mas como expressão da própria liberdade absoluta da Consciência - Svatantrya.

Uma analogia possível seria a do artista. Imagine um músico perfeitamente capaz de permanecer em silêncio. Ele não toca porque esteja incompleto sem a música, mas porque possui a capacidade e a liberdade de produzi-la. Há, contudo, uma diferença fundamental nessa analogia: Shiva não produz algo exterior a si mesmo, pois toda manifestação ocorre no interior da própria Consciência e como expressão dela.

Se afirmássemos que a Consciência infinita não pode manifestar-se sob formas limitadas ou experimentar a própria limitação, estaríamos estabelecendo algo que o Absoluto seria incapaz de realizar, o que entraria em contradição com sua liberdade absoluta, Svatantrya. Dessa maneira, podemos compreender a manifestação como um processo de "limitação" ou "contração" da Consciência, não imposto por alguma força exterior, mas realizado por seu próprio poder. É por meio dessa progressiva contração que se torna possível a experiência da realidade que conhecemos.

Alexei Bueno - https://www.udemy.com/course/filosofia-do-ocultismo/





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