Qual o sentido da vida?

Qual o sentido da vida?

Autor Alexei Bueno

Assunto Autoconhecimento
Atualizado em 8/27/2026 4:45:41 PM



Lembro-me do programa Provocações, apresentado por Antônio Abujamra na TV Cultura. Ao final de suas entrevistas, Abujamra tinha o hábito de fazer aos convidados uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente filosófica: “O que é a vida?”. Essa indagação nos conduz inevitavelmente a outra questão: qual é o sentido da vida? Existiria um propósito previamente estabelecido, talvez determinado por uma divindade ou por algum princípio transcendente, de modo que caberia ao ser humano apenas descobri-lo? Ou, ao contrário, a existência não possuiria um sentido dado de antemão, sendo cada indivíduo responsável por construir e atribuir significado à própria vida? Entre essas duas possibilidades encontra-se uma das questões mais antigas e profundas da filosofia: o sentido da vida é algo que descobrimos ou algo que criamos?

Nos meus estudos filosóficos, em determinado momento, deparei-me com o pensamento de Jean-Paul Sartre, filósofo que desenvolveu reflexões profundas sobre a existência humana, a liberdade e o sentido da vida. Para Sartre, a vida não possui um sentido pronto, previamente planejado ou determinado por uma realidade metafísica ou por uma divindade. O ser humano simplesmente existe e, a partir de suas escolhas, ações e experiências, constrói aquilo que dará significado à sua própria existência. Essa perspectiva está no centro do existencialismo, corrente filosófica que se dedica a questões como liberdade, responsabilidade, angústia, escolhas e sentido da existência. São questões que, de uma forma ou de outra, provavelmente surgem para muitas pessoas ao longo da vida, sobretudo em períodos de dúvida, transformação ou crise, quando somos levados a refletir mais profundamente sobre quem somos, como estamos vivendo e que sentido desejamos atribuir à nossa existência.

A frase mais conhecida de Sartre é “A existência precede a essência”, e ela sintetiza muito bem um dos pontos centrais de seu pensamento. Para explicar essa ideia, podemos pensar em um objeto qualquer, como uma mesa. Antes mesmo de ser fabricada, a mesa já existe como projeto na mente de quem a concebeu e possui uma finalidade previamente determinada: servir de apoio para objetos, como os pratos de uma deliciosa refeição. Nesse caso, poderíamos dizer que sua essência — aquilo que ela é e para que serve — precede sua existência concreta.

Para Jean-Paul Sartre, porém, com o ser humano ocorre justamente o contrário. Não nascemos trazendo conosco uma essência pronta que determine antecipadamente quem somos, qual deve ser nossa finalidade ou que caminho devemos seguir. Primeiro existimos: nascemos, crescemos, somos educados, estabelecemos relações, enfrentamos circunstâncias e nos inserimos na sociedade. Ao longo desse processo, por meio de nossas escolhas, atitudes e projetos, vamos construindo aquilo que somos e atribuindo significado à nossa própria existência. É nesse sentido que, para Sartre, não recebemos uma essência pronta: nós a construímos enquanto vivemos.

Embora algumas tradições espiritualistas possam discordar dessa perspectiva, para Sartre ninguém nasce com uma missão ou propósito previamente determinados. Em outras palavras, não haveria algo semelhante ao que algumas correntes espiritualistas (como Espiritismo ou de certa maneira a Projeciologia) descrevem como um planejamento pré-encarnatório, no qual determinados objetivos ou experiências seriam estabelecidos antes do nascimento. Segundo a perspectiva existencialista de Sartre, somos lançados na existência sem um roteiro previamente definido e, a partir daí, são nossas escolhas, relações, experiências e ações que gradualmente constroem nossa identidade. Dessa maneira, não apenas nos tornamos aquilo que somos ao longo da vida, como também somos responsáveis por construir nossa própria razão de ser e atribuir sentido à nossa existência.

Por outro lado, como mencionei, existem tradições filosóficas e espiritualistas que compreendem a existência de maneira diferente. Segundo essas perspectivas, ninguém vem a este mundo sem ter algo a aprender, por mais simples que seja esse aprendizado, ou sem algum propósito que contribua para o desenvolvimento e a transformação do próprio ser. Nessa visão — com a qual particularmente me identifico —, a existência pode ser comparada a uma grande escola: a vida seria uma etapa do aprendizado, o corpo, nosso uniforme, e a encarnação, a matrícula em um processo de formação e aperfeiçoamento. Assim, diferentemente da perspectiva existencialista de Sartre, a existência não seria inteiramente desprovida de um propósito anterior às nossas escolhas, mas possuiria algum sentido intrínseco, ainda que coubesse a cada indivíduo descobri-lo, interpretá-lo e realizá-lo ao longo de sua trajetória.

Por outro lado, essa concepção não deveria ser interpretada como justificativa para uma postura determinista, expressa em afirmações como “sou assim porque nasci assim”, como se nossa condição inicial determinasse definitivamente aquilo que podemos ser. Nesse aspecto, identifico-me com muitas escolas filosóficas e espiritualistas que compreendem a existência como uma oportunidade de aprendizado, transformação e aperfeiçoamento. Como certa vez ouvi de Waldo Vieira, ninguém estaria aqui simplesmente para “fazer turismo”. Se estamos neste mundo, dotados de consciência, capacidade de escolha e possibilidade de agir e transformar a nós mesmos, enquanto atravessamos uma existência que constantemente nos apresenta desafios, parece-me razoável considerar que possa haver algum propósito nesse processo. Sob essa perspectiva, tenho dificuldade em conceber a vida como algo inteiramente vazio de significado ou reduzido a um niilismo absoluto, no qual nenhum sentido ou valor pudesse ser encontrado na existência.

Também não considero que Sartre esteja inteiramente equivocado, sobretudo se partirmos da questão segundo a qual a maioria de nós não se recorda de eventuais escolhas ou planejamentos anteriores à encarnação. Nessa concepção, o próprio esquecimento teria uma razão de ser, e talvez uma de suas funções fosse justamente preservar nossa liberdade para fazer escolhas e construir, durante a existência, parte do sentido de nossa própria vida. Desse modo, a ideia de um propósito anterior à existência não precisaria necessariamente excluir a liberdade defendida pelo existencialismo.

Sartre, por sua vez, desenvolveu sua filosofia a partir de uma perspectiva ateia e materialista. Por isso, sua reflexão não pressupõe um propósito transcendente ou metafísico anterior à existência. Do meu ponto de vista, isso faz com que sua filosofia contemple apenas um dos “lados da moeda”: ela analisa com grande profundidade o ser humano enquanto existência concreta, livre e responsável por suas escolhas, mas deixa de considerar a possibilidade de uma dimensão transcendente que, caso exista, também poderia participar da construção do sentido da vida.

Mesmo a perspectiva ateia e existencialista de Sartre não significa, necessariamente, afirmar que a vida seja desprovida de sentido. Pelo contrário, ela coloca sobre nós a liberdade — e também a responsabilidade — de construir esse sentido, em vez de simplesmente recebê-lo pronto de uma instituição religiosa, de uma tradição ou de qualquer outra autoridade externa. Cabe a cada indivíduo, por meio de suas escolhas, atitudes, relações e projetos, atribuir significado à própria existência. E talvez esteja justamente aí um dos aspectos mais fascinantes do pensamento sartreano: a liberdade do ser humano. A essa perspectiva acrescento minha própria concepção espiritualista: talvez nossas escolhas e intuições mais profundas não surjam apenas das experiências desta existência, mas possam também carregar resquícios de vivências anteriores ou de dimensões da realidade que transcendem nossa experiência consciente imediata.

Daí a importância de refletirmos sobre a vida e sobre o sentido que atribuímos à nossa existência. É justamente nos momentos de maior recolhimento e reflexão, quando nos afastamos temporariamente das preocupações imediatas e da agitação da vida cotidiana, que podemos criar um espaço interior mais propício à percepção de insights e lampejos intuitivos. Nesses intervalos de silêncio e interiorização, talvez possamos perceber aspectos de nós mesmos que normalmente permanecem encobertos pelo fluxo constante de pensamentos, compromissos e estímulos externos. A reflexão, portanto, não nos oferece necessariamente uma resposta definitiva para a pergunta “qual é o sentido da vida?”, mas pode abrir caminhos para que cada um se aproxime de uma compreensão mais profunda dessa questão fundamental.

Estamos condenados a ser livres”, afirma Sartre. Com essa expressão provocativa, o filósofo procura mostrar que não podemos escapar da responsabilidade de escolher. Mesmo quando decidimos não tomar uma decisão, essa própria recusa já constitui, de alguma maneira, uma escolha. Somos, portanto, responsáveis pela forma como conduzimos nossa existência e pelos caminhos que construímos a partir de nossas decisões. Essa liberdade, entretanto, não é necessariamente confortável: ela traz consigo o peso da responsabilidade e pode produzir aquilo que Sartre associa à angústia existencial. Tal angústia surge toda vez que fazemos a pergunta: afinal, qual é o sentido da vida?

Alexei Bueno
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Texto Revisado










 

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