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Quem é Quando



Antes, o sol se mostrava cedo e luzia raios brandos e saudáveis de calor. Bem longe, no mais distante, ao fim da vista e na linha do horizonte marcada pela floresta, refletiam sobre as águas escuras dos rios e lagos da Amazônia, proporcionando-me extremo prazer ao serem suavemente capturados pela retina em meu olhar contemplativo da manhã.

Agora, o sol luta arduamente contra os arranha-céus da metrópole em meio à neblina urbana para alcançar-me somente quando já está alto no céu, emanando forte radiação em meu rosto e despertando-me para a rotina.

Sons, cheiros, cores, paisagens e, conseqüentemente, sensações. Claro, estranhas sensações! Tudo mudara abruptamente e os dias, antes marcados pelas inconstâncias e incertezas boas da vida viajante, agora parecem querer ditar-me uma nova forma de manejo no qual minha mente é, diariamente, testada. Não imaginara quão intensa seria a mudança à qual eu deveria acostumar-me, e por que não amá-la?!

Sim, o dia ainda clareia, mas já não é mais acompanhado pelos sons místicos da floresta como o sussurro das aves, os zunidos dos insetos diversos, as vozes doces das crianças ribeirinhas a brincar sobre as árvores, o dedilhar nas cordas secas da viola velha do caboclo e sua música regional, e até algo mais mecânico como o barulho noturno dos geradores que se esbravejam em meio ao silêncio da mata.

Para onde foram os suaves arranjos musicais da natureza? Foram todos substituídos pelas invenções da sociedade moderna com seus fabulosos instrumentos de comunicação e gerenciamento de uma vida dita prática e considerada confortável. Mera sinfonia desarmônica dos toques de telefones, dos ruídos do fax a cuspir folhas sem cessar, das estridentes máquinas registradoras, do bater de portas e gavetas, do moer da cafeteira e de tantos outros barulhentos utensílios de um escritório qualquer.

Movida à energia elétrica, tal composição lírica fazia o fundo musical, em sintonia frenética, aos monólogos quase sempre em tom de queixa dos habitantes egocêntricos da cidade. Crônica de um novo meio ambiente recheada de histórias cotidianas de cidadãos inconscientes em busca daquilo que já não conseguem mais consumir; e antes de fazê-lo, o recém adquirido produto já é lixo. Mas não martelemos mais sobre este assunto. Deixa para lá, pois o ‘não-ao-lixo’ já é prolixo, assunto banal, notícia repetida na televisão, rádio ou jornal.

No meio urbano o trabalho começa cedo e tal sinfonia vai crescendo gradativamente ao longo do dia. E vou acostumando-me com tudo. A capacidade de adaptação é, sem dúvida, a mais triste e essencial característica que garante a sobrevivência do ser. Devemos estar sempre abertos para qualquer nova experiência. E pensando assim, procuro incorporar uma simples e genial reflexão de um poeta goiano:

"Finjo ser,
aquilo que sou.
Nessa discrepância,
sou exatamente,
aquilo que finjo ser."


Já me vi fingindo ser uma infinidade de personagens amadores e profissionais da vida real que nem mais me lembro de todas as peripécias e empreitadas - ora bem sucedidas, ora completamente desastrosas - nas quais me enfiei. E assim ‘fingindo’, por necessidade ou conveniência, incorporei tais personagens cujas qualidades pude absorver, qualidades essas que, posteriormente, foram e estão sendo aproveitadas para cada nova fase de encenação. A vida é um palco mesmo!

Só me lembro que nunca houve preparação, treino ou simulação da vida real, a não ser uma constante dedicação aos estudos formais dos quais nunca abri mão. No entanto, teoria não é prática e a vida se faz valer mesmo quando a imaginação e o sonho tomam forma em sua realização no caminhar da estrada, no respirar do ar ‘não-condicionado’ e no navegar das águas onde o trajeto é tão incerto quanto as garantias de felicidade dessa vida.

A felicidade só existe no curto instante de seu próprio sentimento. Nunca deve ser esperada, projetada, mas apenas sentida, vivida e valorizada no momento de seu acontecimento.

Sim. De fato, quem é quando. E cá estou a deparar-me com mais uma nova situação e mesmo ciente de minhas escolhas, a sensação é a de que a vida é justa e, bruscamente, nos sacode e arremessa a cada momento para um posto o qual achamos que escolhemos. Acreditamos que podemos controlar a nós mesmos e controlar a ordem dos fatos, mas a verdade é que somos movidos pelo amor que nos induz à irracionalidade, à impulsividade e não há nada mais belo do que isso.

E sou tão cheio de planos e metas, sempre tão seguro sobre meus objetivos e tão assertivo em relação à minha carreira profissional que, às vezes, um simples desvio de curso que transgrida o caminho por mim pré-estabelecido torna-se um tormento enorme, um obstáculo que poderia ser, na verdade, um estímulo, uma luz, uma nova oportunidade de vida! Afinal, não importa para onde vou, mas por onde passo. Devaneios de momentos de transição. Saudações nostálgicas carregadas de esperança. Das úmidas florestas amazônicas para as planilhas herméticas do Excel. Bem-vindo ao mundo dos negócios. Viva a flexibilidade do ser!

Rafael Castanheira
Fotógrafo

Texto revisado por Cris
Publicado dia 10/10/2007

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