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"Quando nos concentramos em esclarecer o que está sendo observado, sentido, é necessário, ao invés julgar, descobrirmos a profundidade de nossa própria compaixão.”
Marshall B. Rosenberg


Parece bobagem, mas até os menores comentários que fazemos muitas vezes são recheados de julgamentos, sejam eles provisórios ou preconceituosos. A diferença entre o primeiro e o segundo está no fato de que o provisório (o nome já diz) muda conforme vão acontecendo os embates com a realidade; já o preconceituoso está enraizado na pessoa e por mais que se prove o contrário é muito difícil de ser alterado. São aqueles indivíduos para quem a gente prova que água não é pedra, mas continuam jurando de pés juntos que se trata da mesma coisa.

Tenho uma conhecida que é só ouvir notícias sobre favelados já pronuncia seu veredito: “São malandros e ladrões. Nunca fique perto deles”. Ouço-a dizer isso faz tanto tempo que certamente de provisório tal julgamento não tem é nada. Levando-se em conta o fato de que ela sequer conversou com tais pessoas, tampouco conheceu seu estilo de vida, concluo facilmente que é preconceito declarado e quase imutável, construído através dos tempos. Digo ‘quase’ porque mesmo este tipo de julgamento cristalizado um dia ainda pode se alterar.

Minha experiência, assim como meus estudos indicam que as pessoas só mudam seu olhar diante de certos fenômenos (sejam eles de qualquer natureza) quando são “tocadas”, quando mudam o sentido daquilo para elas.

Vai soar estranho, mas a palavra sentido aqui empregada tem um duplo sentido. Um é o sentido da razão: aqueles valores que atribuímos a coisas ou pessoas usando nossa inteligência, nossa cognição, nosso conhecimento. O outro sentido é de sentir com o coração, sensibilizar-se com aquele tema. Precisamos sentir diferente para mudarmos conceitos.

Rita, minha professora de Psicologia Educacional, certa vez contou uma experiência aos alunos muito interessante. Era a história do “menino marrom”. Menino marrom porque chegava à escola de trator, junto com mais algumas crianças. Vinham todos pela roça. Seu uniforme era marrom, sua pele, seu tênis gasto, tudo.

Conta a mestre que, num dia de rotina normal em que ela visitava a pequena escola de um vilarejo próximo à cidade de Assis, foi chamada às pressas, pois um pequeno menino, que na época devia ter uns oito anos, chorava há mais de uma hora e ninguém conseguia faze-lo parar. A professora daquela sala precisou se ausentar depois de receber as crianças e corrigir os cadernos com as lições de casa, pois sua filha estava em casa, febril.

Aproximou-se do menino que soluçava, inconsolável.
- Você está muito triste. Vou ficar aqui do seu lado até você parar de chorar. Daí, se quiser me contar porque está chorando, talvez eu possa ajudá-lo.

Passaram-se alguns minutos e ele tomou coragem:
- Minha professora falou que eu não gosto de estudar e que sou relaxado.

O menino tinha dificuldade para falar. Soluçava entre as sílabas.
- Por que ela disse isso?
- Porque ela acha que eu não cuido bem do meu caderno.

E, pegando o pequeno caderno, totalmente orelhudo, entregou nas mãos de Rita.

Quando ela olhou percebeu o que estava ocorrendo e fez um esforço grande para não emitir julgamentos. De fato aquele caderno marrom, com enormes orelhas e manchado de água suja parecia pertencer a um menino bastante relaxado. Mas ela segurou qualquer comentário e apenas perguntou:
- Por que você está chorando tanto? Você gosta de seu caderno?
- Sim! Eu gosto tanto do meu caderno que levo ele comigo para todo lugar aonde vou! Se tenho de ir levar almoço para meus pais na roça, ele vai comigo; se vou brincar na mangueira, também! Nunca largo dele. Só largo à noite, para dormir. Daí penduro o caderno no varal.
- No varal?
- É. No meu quarto tem um varal, pois é o único lugar onde o rato não pega. Em casa eu durmo de sapatos, tia, pois os ratos mordem meus dedos.


Rita compreendera o que estava acontecendo ali. Precisou segurar o seu próprio choro, desta vez. Era uma violência simbólica - a professora, ao ver o caderno sujo e com orelhas julgou o menino, dizendo que ele não gostava de estudar e era relaxado, quando na verdade era exatamente o contrário: por excesso de cuidados é que aquele caderno estava daquela forma.

Então ela ajudou o pequeno a encapar o caderno, deu-lhe um beijo e perguntou se ele queria que ela conversasse com a professora sobre aquele acontecido. O menino respondeu afirmativamente. Rita explicou à professora todos os detalhes e, com lágrimas nos olhos, pediu que ela compreendesse a verdade.

Contou-nos, em aula, que a professora não apenas sensibilizou-se com a história do menino, como decidiu ajudá-lo em sua casa, pedindo para alguns vereadores que intercedessem e ajudassem aquela família, que depois de um tempo foi retirada do pequeno barraco, sem água encanada e nem esgoto, para outra casinha, em melhores condições.

Imagino, caro leitor, que existam dias em que você se sente como aquele pequeno menino marrom, ferido em suas fibras mais íntimas. São aquelas situações em que você está tentando fazer o melhor possível, mas lhe julgam inapropriadamente.

Sei que é difícil, mas respire fundo e siga em frente. Paciência. Muitas pessoas cometem este tipo de erro.

Fica à nós o alerta para que tomemos cuidado com os julgamentos. Mesmo os provisórios podem causar muitos estragos nas pessoas. Imagine os preconceituosos...

Texto revisado por Cris
Publicado dia 2/11/2007

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Autor: Claudia Gelernter   
Tanatóloga e Oradora Espírita, professora e coordenadora doutrinária
E-mail: claudiagelernter@uol.com.br | Mais artigos.

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