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Somos originais ou cópias adulteradas?



Quando escrevo textos, procuro me libertar das amarras coletivas dos pensamentos e fórmulas pré-concebidas, na pretensão de despertar a minha capacidade intuitiva e gerar novas inspirações.

Apesar deste esforço de "libertação de correntes", não acredito na separação integral do eu individual do eu coletivo, porque não podemos criar um mundo independente ou individualizado (um universo particular).

Em regra, sozinho nada se pode criar, pois sempre teríamos de partir de algo existente ou de um princípio anterior.

Contudo, se inserimos na gramática a conjugação deste verbo em todos os tempos, modos e pessoa do singular e do plural, obviamente, foi por acreditar na paternidade divina, condição que nos possibilita criar e recriar mesmo sem o auxílio do nosso criador.

Se um filósofo dissesse: "Começamos a morrer quando nascemos" e outro: "A vida é uma doença terminal", um terceiro poderia dizer: "O destino do ser vivo está selado com a morte, pois a vida é uma peça teatral, onde todos morrem ao final do último ato", todos estariam dizendo a mesma coisa, mas criando formas diversificadas de expressão, colocando o tema vida sob enfoques diferentes.

A própria personalidade do indivíduo o torna um ser diferenciado.

A maneira de falar, de escrever, a imagem representativa exercida no grupo social é que poderão influir no nosso emocional e aguçar a nossa mente na captação e aceitação ou não de novas idéias, oportunizando climas criativos e diversificados.

Ao final de uma palestra, geralmente, existe um espaço para perguntas ou até para rebater as teses levantadas. É a oportunidade que o palestrante tem de avaliar o seu trabalho.

Se os ouvintes não se manifestarem, o palestrante poderá ficar inseguro e concluir que a unanimidade é burra, que não soube motivar a platéia ou, ainda, que muito pouco conseguiu criar.

Dizer que o homem é um criador por excelência, não seria uma falsa afirmação. As aves criam os seus ninhos na mesma engenharia milenar que nenhum ser humano poderá reproduzir, tal é a perfeição. Mas elas como outros animais nunca poderão se comparar ao homem, quanto à capacidade de inventar e renovar.

Sobre a vida, acho que devíamos encará-la como um agora, que nem o depois nos pode tirar. Acreditar no hoje como um clarão na eternidade, que por si só permanece, não necessitando da visão do ontem e nem tão pouco da esperança do amanhã - apenas um permanecer para todo o sempre e para a glória do Pai Celeste.

Às vezes, fico na dúvida quanto à originalidade dos meus textos. Estaria plagiando através de resíduos da memória, ou recebendo mensagens espirituais sem me dar conta, em razão da velocidade que as idéias nascem?

Considero esta preocupação como universal, dentro dos princípios éticos e do bom senso que norteiam toda a atividade humana.

Fui buscar uma explicação em Sigmund Freud, tendo encontrado uma versão sobre essa sensação de dúvida e admiração sobre o que criamos. Diz ele que se deixarmos uma porta entreaberta entre o nosso consciente e o inconsciente, poderemos receber informações que foram armazenadas nos porões do subconsciente. Através de um estado meditativo profundo, nos liberaríamos das amarras da consciência.

Por dedução, podemos imaginar que o inconsciente nos libera uma imensidão de dados que seriam selecionados pelo consciente. Como que colhe muitas frutas e as joga em uma mesa, cabendo a nós a escolha das melhores.

O pai da psicanálise, Freud, dizia que médium eram pessoas que tinham a capacidade de vasculhar ou entrar em contato com o seu subconsciente, sem a interferência do consciente fiscalizador. Não acreditava, portanto, nos chamados médiuns espíritas, isto é, na comunicação com espíritos. Já Young, seu contemporâneo, não apenas acreditava na possibilidade de comunicação com os mortos, como fazia experiências comprovando a existência da mediunidade.

Particularmente, acho difícil refutarmos as teses de Freud ou de Young, como sabemos bastante divergentes, pois em razão dos fenômenos que continuam a desafiar a nossa inteligência, existe um vasto campo a ser percorrido e investigado, até chegarmos a conclusões mais completas e quem sabe definitivas.

O que caracteriza o filósofo é a mobilidade mental, pois está constantemente criando e recriando, formulando e reformulando ou até contestando as próprias teorias, à medida que possui como característica uma efervescente inteligência.

Ao escrever "O mar e as paixões" devo ter ficado entre as teorias de Freud e de Young, isto é, entre as lembranças e as mensagens espirituais. Vejamos como ela surgiu:

Constantemente, ao visitar a cidade de Torres, dotada da mais bela praia do litoral gaúcho, fazia passeios à beira-mar. Nessas ocasiões, a beleza do mar sempre me cativava. Enquanto caminhava pela orla marítima, lembrava-me dos nossos velhos poetas, preocupados em exaltar a natureza.

Palavras não são sentimentos e nem significados. Se fossem, não precisaríamos delas e tudo seria mais fácil. Eu não precisaria escrever para transmitir as emoções da minha alma captadas pelos sentidos como a visão, a audição e o olfato e quem sabe outros, durante essas prazerosas caminhadas.

Não restando outra forma de comunicação, passei a desejar ardentemente formalizar os meus sentimentos através das letras. Parecia-me um desejo irrealizável, mas não perdia a esperança.

Na época, costumava deixar papel e caneta ao lado da cama, para anotar sonhos ou mensagens. Quando não anotamos na hora, sabemos, podemos esquecer.

Passaram-se os meses, até que numa manhã quando me preparava para levantar, em estado ainda de sonolência, recebi uma mensagem telepática. Incontinente, tomei da caneta e do papel e fui escrevendo rapidamente: "Vagalhões intermitentes se agitam...". Parei somente quando terminou, depois fui passar a limpo.

Após a emoção inicial, comecei a me questionar. Devo ter lido em algum momento da minha vida o que escrevi? Mesmo assim, como poderia lembrar-me de tanta coisa e da maneira como surgiu?

Resta, agora, perguntar novamente: "Somos seres originais ou cópias adulteradas"?

Ficaram atrás do presente, muitos pensamentos poéticos ou filosóficos, não sei quanto deles jogados no esquecimento do meu subconsciente desarticulado. Essa teimosia em não formalizá-los me sufoca de tal maneira que ao finalizar os meus textos tenho a sensação de esvaziar plenamente os pulmões e inspirar novos ares. Mas este prazer não dura muito, pois logo volto a sufocar.

Todo escritor, artista, filósofo, poeta ou médium, quando se comunica através de mensagens ou da arte, libera para o mundo a sua paz interior.

Imaginem uma pomba branca (símbolo da paz) com suas asas presas nas mãos de um poeta.
Ela está ali, imóvel. Quem sabe há quanto tempo?

De repente, o seu carcereiro resolve soltá-la. Ao sentir-se livre, sem perder um segundo sequer, projeta-se nos ares.

Comungando da felicidade da ave em seu vôo alucinante, o poeta joga para os céus as mãos que a prendia, imitando asas e grita a todos os pulmões:

Vá, pomba bendita, ao mais alto e longe que puderes. Comemora a minha paz e a tua liberdade!

Observação: texto escrito em junho de 2007 por Mário Gomes, 75 anos, meu tio.

Flávio Bastos
Psicanalista Clínico e Interdimensional
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Publicado dia 21/9/2007
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Autor: Flávio Bastos   
Flavio Bastos é criador intuitivo da Psicoterapia Interdimensional (PI) e psicanalista clínico. Outros cursos: Terapia Regressiva Evolutiva, Psicoterapia Reencarnacionista, Terapia Floral, Psicoterapia Holística, Parapsicologia, Capacitação em Dependência Química, Hipnose e Auto-hipnose e Dimensão Espiritual na Psicologia e Psicoterapia.
E-mail: flavio01bastos@gmail.com | Mais artigos.

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