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Travesseiro de Seda

Atualizado dia 2/25/2021 10:03:31 PM em Autoconhecimento
por Lisandro


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Quando Hafid, um pobre músico das redondezas, conseguiu a fama e o sucesso, deixou para trás o passado pobre de luta e sofrimento. Hafid nasceu ao norte do pequeno vilarejo. Sua mãe havia morrido cedo e seu pai o criou, trabalhando duro no campo para ganhar umas poucas moedas. Hafid levou anos para conseguir chamar a atenção de alguns estrangeiros que, às vezes, passavam pelo local. Mas, finalmente, a fama e o sucesso que tanto desejou, chegaram. Um rico viajante gostou do seu trabalho, financiou sua carreira e as contratações não cessaram depois disso.

Após ficar rico parou de andar com os amigos do passado, tornou-se mais exigente com as roupas que vestia, o alimento que trazia para casa e desdenhava praticamente tudo, fazendo sempre um comparativo com a vida medíocre que levara. Deixou seu pai morando na mesma casa de outrora, enquanto morava numa mansão no alto da montanha, onde recebia poucas visitas. Uma dessas poucas visitas era um amigo, também músico, de muita fama e sucesso. Porém, diferente dele, havia tido uma família rica desde a infância, mas que assim como Hafid não sabia dar valor às pequenas coisas que possuía.

Certo dia, o pai de Hafid, muito doente, pediu que o filho o visitasse. O rapaz recusou inicialmente, pedindo que seu pai fosse até sua casa, pois não gostava de andar por aquela parte pobre do vilarejo. Mas foi informado de que o estado de seu pai era realmente grave e não teve outra opção. Chegando ao vilarejo, virava o rosto para os pobres e mendigos, fazendo uma expressão de repulsa para tudo e todos. Quando entrou no casebre onde vivera outrora, viu seu pai deitado no leito. Foi até ele.

- Tenho pouco tempo. Logo deverei realizar algumas apresentações no palácio do rei. Por favor, seja breve.

- Por muitas vezes, meu filho, tentei abrir seus olhos para a ganância e cobiça que brotaram em seu coração. Mas, é claro, isso foi em vão. Muita gente pobre, por sorte ou destino, consegue um dia adquirir grande riqueza, e a maioria delas nunca ergue a cabeça em direção ao sol, pois sabe que isso irá cegá-las; é um claro sinal de humildade, de saber valorizar a riqueza adquirida, pelo passado difícil que tiveram. Geralmente as pessoas que não sabem dar esse valor ao que possuem já nasceram afortunadas desde criança, como é o caso do seu amigo. Ele nunca passou dificuldade na vida, nunca soube o que é a dor de sustentar um filho com o pouco ganho no dia-a-dia no campo. Ele só saberá dar valor ao que possui se um dia perder tudo isso - o que não desejo a ele e a ninguém, com toda certeza.
"Mas você, meu filho, que veio de baixo, de uma vida humilde, deveria saber que você não é feito do dinheiro e da fama que possui. Que isso um dia poderá passar e trazer-lhe muita dor. Deve lembrar que um dia foi igual a todos os habitantes desta vila. Veja que esse desprezo que traz por eles, agora que é um homem rico, é o mesmo desprezo que outras pessoas em sua posição traziam por nós, por você. E você sabe: isso não é nada agradável. Quantas vezes você não desejou que ao invés desse desprezo eles nos trouxessem um pouco de sua compaixão e ajuda? E agora, meu filho, você age feito um deles. Não aprendeu, apesar de eu sempre haver lhe falado que era necessário adquirir primeiro a riqueza espiritual, para saber o que fazer com a riqueza material. Pois quem não sabe disso muitas vezes compra um travesseiro de seda para apenas chorar sobre ele mais tarde."

O pai de Hafid estendeu a mão, pedindo que o filho a segurasse. O rapaz ficou um pouco desconfortável, mas permitiu que o contato permanecesse, enquanto seu pai tornava a falar.

- Minha vida está chegando ao fim. Neste momento eu meditei muito sobre tudo o que aconteceu comigo até aqui. Eu também lutei muito por riqueza, trabalhei noites sem fim e quase não dei atenção a você e à sua mãe e me arrependo muito disso. Percebi que a vida não é feita somente de trabalho, de dinheiro, de aparências e ilusões. A vida é feita pura e simplesmente de amor e de pessoas. Agora, na hora de minha morte, a única coisa que me vem à mente são as pessoas que amo, pois isso, percebo, são as coisas mais importantes do mundo. Eu não me importo mais com os sonhos que não realizei, nem com o dinheiro que deixei de ganhar, nem com a humilhação que sofri durante esse tempo. A única coisa que me importa são as pessoas que me são queridas e a dor de saber quão pouco tempo eu passei junto delas.
"Preste atenção em minhas palavras, meu filho. Um dia a velhice irá chegar até você. Um dia você não terá mais os amigos com quem caminhou, não terá sua esposa, e talvez até mesmo seus filhos estejam longe de você. E no fim de tudo, quando se der conta disso, poderá ver que já é tarde demais, e que o tempo não voltará para que possa reviver os preciosos momentos que nunca teve com as pessoas que ama. É isso, e não o dinheiro ou a carreira que venera, que realmente importa. Guarde isso em seu coração. É o pedido de seu velho pai antes de partir."

Hafid chorou amargamente. Ouvira certa vez que somente um acontecimento muito intenso poderia mudar a vida de uma pessoa e agora acreditava nisso. Naquele mesmo dia, enquanto retornava para casa, passou a reparar nas pessoas do vilarejo. Pessoas iguais a ele, com sonhos parecidos com o dele: ter uma vida confortável, tranqüila, "ser alguém na vida". E sentiu-se grato por tudo o que possuía, por não ter mais que sacrificar suas horas como músico pelo trabalho no campo; suas fartas e refinadas refeições pelo pão seco que era obrigado a comer na infância; as belas e finas roupas que vestia pelos trapos que o deixavam passar frio no inverno... Sentiu pena, ou melhor, compaixão, como seu pai dizia ser o termo adequado, das pessoas dali. E decidiu que iria ajudá-las de alguma forma - quem sabe chamando a atenção de seus nobres contratantes, que muitas vezes viajavam pela região. Promoveria apresentações na praça da cidade e arrecadaria fundos para a população, trazendo riqueza para a cidade. Mas uma de suas primeiras atitudes, foi trazer seu pai para morar com ele e lhe dar mais atenção e cuidado naquela hora tão difícil.

O pai de Hafid morreu duas semanas mais tarde - as duas semanas mais intensas que o rapaz havia vivido com ele. Conversaram sobre tudo o que não haviam conversado durante toda a vida. Onde as máscaras não imperavam, onde só a verdade e o amor de duas pessoas que descobrem ser esse o verdadeiro sentido da vida, existiam.

Anos mais tarde, quando Hafid estava velho e cheio de dias, pegou-se pensando em seu pai e naquelas duas semanas tão felizes que haviam vivido. Pensou também em sua esposa e filhos, nos amigos que freqüentemente visitavam sua casa e no povo do vilarejo, que havia conquistado uma vida um pouco mais digna, ainda pobre, mas ao menos livre da miséria. E a lembrança de todas essas pessoas fez escorrer de seus olhos algumas lágrimas.

"Lágrimas de Amor e de alegria, não de tristeza", pensou Hafid, aconchegando o rosto em seu fino travesseiro de seda.

Lisandro 21/06/2008

www.lisandros.com

Texto revisado por Cris


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