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Segundos e terceiros casamentos


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- Eu escolhi ele para casar! Não os filhos dele!

A pessoa me encarava com um tom desafiador. Aceitei o desafio: - O seu casamento não dará certo. Pode separar agora!

Ela ficou muda. Seu noivo mudou de posição na cadeira. No fundo, ele sabia que estava se envolvendo num grande enrosco e não fazia nada para sair disso.

Esses são os sistemas familiares que empurram as pessoas de lá para cá, buscando-se uma harmonização que poucos percebem como fazer. O sistema familiar não permite impunemente exclusões. E seus filhos estavam excluídos por ele que, com má vontade, obedecia as ordens da mulher que controlava cada passo que ele dava. E estavam excluídos por ela que, embora não aceitasse, também estaria casando com os filhos e inclusive com a ex-mulher dele.

- Eu aceito que ele vá ver os filhos dele! disse-me ela, com raiva.

- Você consegue falar isso pra ele? Fale com respeito e calma, já que você está dando a autorização.

Ela mal conseguiu balbuciar as palavras. Mais parecia uma criança mimada, flagrada com um doce furtado nas mãos. E essa criança não queria ter a atenção dividida com as outras crianças. Não havia um relacionamento de casal, mas sim infantil, e isso com adultos de mais de 30 anos de idade.

Para que esse tipo de relação dê certo, é necessário olhar para essa criança: o que ela quer? O que está faltando? Por que um adulto está apegado à idade infantil? Ele está ligado ainda ao pai? Ou à mãe? Talvez a um irmãozinho que morreu cedo. Ou um filho abortado pela mãe. Às vezes, até antepassados mais distantes. Isso a constelação demonstrará...

Não existe nenhuma separação entre um ser humano e outro. Segundos e terceiros casamentos consagram uma união de todas as pessoas que participaram dessas relações, embora os vínculos vão ficando cada vez mais fracos conforme outras uniões vão surgindo. Sistemicamente os filhos de um primeiro relacionamento devem ser vistos e aceitos por todos do segundo casamento. A ex-mulher e o ex-marido também devem ser vistos. Não estou dizendo trazê-los pra casa e colocá-los na mesa de jantar. Isso não! Quando acabou uma relação, isso deve ficar bem claro para todas as partes. Neste caso que estou narrando, os filhos sempre serão filhos do pai e não podem e nem devem ser abandonados. A ex-esposa sempre terá o papel de ex-esposa, mãe dos filhos, e terá eternamente o seu lugar no coração do marido.

Experimente esquecer alguém que lhe marcou profundamente, como um amor do passado... É impossível, não é mesmo? Isso são os sistemas: eles não são criações moralistas ou regras de convivência. Ao contrário, são mapas que se apresentam dentro dos relacionamentos e uma das coisas básicas é a certeza de que pessoas excluídas numa relação permanecem influenciando futuras relações.

- Você me disse que esta terapia não tem certo nem errado! Eu vim aqui acertar o meu relacionamento e não ouvir essas idéias de que tenho que ver o outro! Imagine! E ainda ver a ex-mulher dele? Aquela jararaca?

- Jararaca... era assim que você a definia, enquanto mantinha o relacionamento extra-conjugal durante tantos anos, até finalmente haver a separação dele? Bem, mas esse não é o caso. Os sistemas se demonstram através das emoções que você sente. Como você demonstra muito rancor contra os filhos dele e ex-mulher, não estou dizendo que você está errada. Você está deixando se influenciar por um sistema que existe em você e também faz parte dele. Pouco me importa julgá-la certa ou errada. O meu papel é perceber onde está desconfortável e ajudá-los a fazer os ajustes necessários para que fique confortável. Ajustar significa incluir, não excluir. Não posso fazer nada se você não aceita isso.

O marido, no canto, balançava a cabeça e seu movimento corporal estava dizendo: sim. Ele concordava comigo. Mas assumia um papel de vítima, querendo que alguém resolvesse a situação por ele. Ele também traíra a mulher e abandonara os filhos. Ele também provocou a separação da sua noiva com o ex-marido. Ele também deixou que ela dominasse sua própria vida. Os ajustes também passavam por ele que teria que incluir em sua vida o que a sua constelação mostrasse. Com certeza havia pessoas, antepassados nas duas famílias, que foram excluídos e provavelmente com violência.

Como posso saber disso? A energia que os dois dispensavam no relacionamento era mais de confronto do que de entendimento. Estavam juntos visivelmente unidos para brigar um com o outro, para desestabilizar e não para construir. É possível reverter este quadro de confronto desde que um deles, pelo menos, esteja realmente a fim de olhar o significado dessas emoções que impedia uma união harmônica. E não é à toa: para solidificar essa relação, os dois destruíram outros relacionamentos. Todos os seres humanos estão interligados, são dedos da mesma mão. Ao destruir um relacionamento e virar as costas para isso, a mão sofre; automaticamente, todos enfrentarão problemas. Essa é a idéia sistêmica.

Estar em harmonia com os outros, de outros relacionamentos, não tem nada a ver com ser bonzinho e caridoso ou dar a cara para bater. É bom não misturarmos religião nessa história. É uma atitude madura e altamente curativa: olhar nos olhos do outro, aquele com o qual estamos magoados ou feridos, ou até com sentimento de culpa, e saber que ele faz parte de você. Se estamos olhando um filho magoado, é saber que o respeitamos, o vemos e o acolhemos, mas sempre como um filho: o filho é sempre o pequeno, e o pai, sempre o grande. Se é uma ex-esposa, é olhá-la como igual, acolher o amor que houve durante o relacionamento e respeitar os frutos desse amor. Se é um marido ou esposa de uma relação cuja separação você tenha causado, é olhar com respeito para ele ou ela e assumir seus próprios atos, sabendo que suas atitudes causaram dor em outros – em você também.

São atitudes simples, mas difíceis de serem tomadas, porque temos no nosso inconsciente a idéia de que somos pecadores, e o pecado merece punição. O que não vemos é que a punição é automática, através do nosso sofrimento interior. Não é necessário o dia do juízo final ou a outra vida. Mas o mais belo é saber que com essas atitudes simples, mas corajosas, é possível aliviar - e muito - essa dor interior e estabilizar e harmonizar relacionamentos conflituosos. Principalmente com as pistas e insights dados através da constelação familiar sistêmica.

Theresa Spyra
Alemã, terapeuta com especialização em constelação familiar, empresarial e profissional sistêmica
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Texto revisado por Cris

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Conteúdo desenvolvido por: Theresa Spyra   
Theresa Spyra é alemã, trainer e terapeuta com especialização em constelação sistêmica familiar, organizacional e estrutural. Estudou com a também alemã Mimansa Erika Farny, pioneira na introdução do método sistêmico de Bert Hellinger no Brasil, e aprofundou-se nos sistemas estruturais e organizacionais, com estudos no Brasil, Alemanha e Suíça
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