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O Preconceito

por Marcos Spagnuolo Souza

Publicado dia 6/4/2008 em Autoconhecimento

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Jean-Paul Sartre no livro “A questão judaica” trata especificamente do anti-semitismo, no entanto, o discurso de Sartre esclarece a questão dos preconceitos em seu sentido global, assim sendo, discutiremos o preconceito tendo por base as colocações de Sartre ao tratar da marginalização dos judeus. Substituímos a palavra “anti-semitismo” inserida no discurso de Sartre pela palavra “o outro” ou então pela palavra “preconceito” englobando todo tipo de negação do outro no aspecto biológico ou negação das idéias do outro.

Não é do corpo que nasce a repulsa ou preconceito; ela chega ao corpo pela mente; é um estímulo do ego, mas tão profundo e total que chega ao plano fisiológico. Esse estímulo não é provocado pela experiência. O preconceito é uma escolha livre e total de si mesmo, uma atitude global que alguém adota sendo uma visão de mundo.

O preconceito é uma visão de mundo que adota a impermeabilidade. O homem racional busca angustiosamente a verdade, está ciente de que seus raciocínios são apenas prováveis, de que outras considerações vão colocá-los em dúvida; nunca sabe muito bem para onde está indo; é aberto, pode até ser tomado por hesitante. Mas há pessoas que são atraídas pela constância das pedras. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar – pois aonde a mudança as levaria? Trata-se de um medo primordial de si mesmas e um medo da verdade. E o que as assusta não é o teor da verdade, do qual, aliás, nem desconfiam, mas sim a forma do verdadeiro, esse objeto de contornos indefinidos. É como se a própria existência dessas pessoas estivesse permanentemente em suspenso. O preconceituoso quer existir aqui e agora. Não quer outras opiniões, ele tem medo de raciocinar, desejam um modo de vida no qual o raciocínio e a indagação tenham papel apenas subalterno, no qual só se busque o que já se descobriu, o que nunca se transforma. O preconceituoso escolheu o ódio porque o ódio é uma fé; antes de tudo, preferiu desvalorizar todo tipo de permeabilidade.

A exterioridade o dispensa de procurar sua personalidade dentro de si mesmo; prefere estar todo no exterior, nunca se volta para si mesmo, é apenas o medo que o provoca, ele foge à consciência íntima de si mesmo.

O preconceituoso foge à responsabilidade como foge a sua própria consciência; e ao escolher para sua pessoa a constância mineral, escolhe para sua moral uma escala de valores petrificados. Nesse sentido, o preconceituoso é uma forma dissimulada daquilo que se denomina a luta do cidadão contra o poder. Ele somente quer um poder forte que o poupe da esmagadora responsabilidade de pensar por si mesmo, sendo um fascista. O poder fraco permite que o outro tenha opinião divergente. Diz que o poder fraco leva a indisciplina por amor à desobediência.

Assim, todo preconceito é originado primordialmente de um maniqueísmo; explica o curso do mundo mediante a luta do princípio do Bem contra o princípio do Mal. Entre esses dois, não há acordo possível: é preciso que um deles triunfe e que o outro seja aniquilado. O preconceituoso não recorre ao maniqueísmo como a um princípio secundário de explicação – é a opção original pelo maniqueísmo que explica e condiciona o preconceituoso.

Para o maniqueísta preconceituoso a ênfase está na destruição. Não se trata de um conflito de interesses, mas dos danos que um poder maligno causa à sociedade. Portanto, o Bem consiste antes de qualquer coisa em destruir o Mal. Sob o azedume do preconceito, se oculta essa crença otimista de que, tão logo o Mal seja rechaçado, a harmonia irá restabelecer-se por si mesma. Assim, a tarefa do preconceituoso é exclusivamente negativa: não se trata de construir uma sociedade, mas apenas de purificar a já existente tendo por base o Bem.

Paladino do Bem, o preconceito é uma luta sagrada. Dessa forma, a luta se trava no plano religioso, e o final do combate só pode ser uma destruição sagrada. O preconceituoso é incapaz de elaborar um plano construtivo; sua ação não pode situar-se no nível da técnica e permanece no terreno da paixão. Ele prefere uma explosão de raiva a um empreendimento que demande tempo e fôlego. O preconceituoso canaliza os seus impulsos para a destruição do outro; uma turba de preconceituosos se dará por satisfeita quando tiver massacrado o outro.

Trata-se apenas de suprimir o Mal, pois o Bem já está dado. Não há nenhuma necessidade de procurá-lo angustiosamente, de inventá-lo, de questioná-lo pacientemente, de comprová-lo pela ação, de verificar suas conseqüências e de assumir enfim as responsabilidades da escolha ética que fizemos. Não é por acaso que as grandes fúrias preconceituosas encobrem um otimismo: o preconceituoso decidiu-se a respeito do Mal para não precisar decidir-se a respeito do Bem. Quanto mais absorvido no combate ao Mal, menos fico tentando a questionar o Bem. Quando o preconceituoso tiver cumprido sua missão de destruidor sagrado, o Paraíso Perdido vai reconstituir-se sozinho. Por ora, o preconceituoso tem tanto trabalho que não lhe sobra tempo para ficar refletindo: está sempre combatendo na linha de frente, e cada uma de suas indignações é um pretexto que o demove de buscar angustiosamente o Bem.

O preconceituoso não possui capacidade de escolher seu Bem e, por medo de ser diferente, deixou que lhe impusessem o Bem de todo mundo, sua ética nunca se baseia na intuição dos valores ou no que Platão denomina Amor; ele se manifesta apenas pelos tabus imperativos mais rigorosos e mais gratuitos.

Lembramos que o preconceito é uma concepção de mundo maniqueísta e primitiva, na qual o ódio ao outro se instala como grande mito explicativo. Já vimos que não se trata de opinião isolada, e sim de uma escolha global que um homem em situação faz de si mesmo e do significado do universo.

Isso significa que o preconceito é uma representação mítica entre a luta do Bem e do Mal e não pode existir em pessoas que transcenderam a concepção dualística. O preconceito evidencia a separação e o isolamento dos homens na comunidade, o conflito de interesses, o fracionamento de paixões; só poderia existir nas coletividades em que existe uma solidariedade bastante franca; é um fenômeno do pluralismo social. Numa sociedade cujos membros são todos solidários porque estão todos engajados na mesma empreitada não haveria lugar para o preconceito. Nenhum ser humano será livre enquanto predominar o preconceito.



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