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Não consigo abraçar meus filhos!

por Theresa Spyra

Publicado dia 10/6/2008 em Corpo e Mente

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Ela era negra. Aparentava uns 45 anos de idade. Estava tensa, triste, os ombros caídos e seus olhos pareciam faróis apagados. Sua fala era simples como eram simples seus gestos, seus movimentos. Parecia que ela não estava muito à vontade naquele trabalho de constelação familiar sistêmica, com mais de uma dezena de pessoas sentadas em roda, atentas aos detalhes da sua sofrida história.
- Qual é a sua questão? O que você quer trabalhar agora?
- Eu não consigo abraçar meus filhos. Eu gosto deles, eu os amo... mas... não quero que eles se aproximem. Queria poder pegar eles no colo, mas não consigo! Isso está me deixando muito triste...

Ela realmente parecia muito sofrida. Seu marido, um europeu de dois metros de altura, olhava-a com olhar de compaixão e também tristeza. Suas roupas simples e desleixadas, seus traços fortes e de certa forma rudes, sua pele branca um pouco judiada pelo sol, deixou-me adivinhar que ele era camponês na Europa, assim como tantos que conheci na Bavária, minha terra natal.

Hoje eles moravam na periferia. Sua mulher viera da periferia. Era filha de pais alcoólatras. Seu pai a espancava quase que diariamente. Quando dava uma folga, era a vez da mãe maltratá-la. A pobreza era grande, mas isso não era o maior problema. A cliente não tivera tempo nem de ser criança, pois arcou com o cuidar dos irmãos, que de certa forma não eram vistos pelos pais. Já adulta, casara-se, mas o relacionamento não foi bom. Não havia carinho, somente trabalho, rudeza e três filhos que vieram. Mas pelo menos o marido era trabalhador, e foi no trabalho que ele foi assassinado. Dois homens entraram para assaltar o pequeno comércio e, sem grandes explicações, atiraram no proprietário.

Subitamente, a cliente se viu entregue ao mundo, com três filhos para cuidar e ninguém para dividir a responsabilidade. Mas ela era da periferia e como tal, forte e calejada pelo sofrimento; por isso não se entregou. Conseguiu ir levando a vida e agora encontrara no seu enorme europeu um marido que ela tanto esperava. E tomou consciência do quanto a vida a tornara dura e insensível, principalmente com os filhos. Ela desejava ardentemente amá-los de todas as formas, tocá-los, agarrá-los, e se angustiava por não conseguir. Então, ela veio até mim.

Sua constelação foi mais ou menos típica das que faço aqui no Brasil. A história desse povo miscigenado, retirante, migrante, onde culturas se misturavam muitas vezes à força, e a miséria era muito comum, deixavam rastros de falta de afeto, de violência, de traições, de falta de maturidade para assumir famílias... E minha cliente viu desfilar diante dos seus olhos a constelação familiar, mostrando que seu pai e sua mãe também foram tragados pela dor e emoções carregadas pela exclusão. Todos excluíram e foram excluídos. A avó, branca, descendente de alemão, não se conformara que a filha (mãe da cliente) casara-se com um negro. Os netos negros, quando estavam na avó, eram colocados de lado como cachorros, enquanto as outras crianças brancas recebiam o afeto. A avó renegou a mãe e a mãe renegou a avó. Por não aceitar a própria mãe, era também uma mãe problemática, relapsa e violenta.

Porém, a constelação demonstra que não existem culpas. A avó também carregava uma mala pesada dos seus pais e avós. No meio disso tudo houve traições, abortos, medo, dor e abandono. Foi uma das constelações emocionalmente mais profundas que vi, mais pela dramaticidade das situações. E foi linda! Ao colocar a cliente em seu papel, que antes era representado por outra pessoa, vi um perdão e aceitação tão grandes e espontâneos, como nunca havia visto antes.

A cliente foi até a representante da sua mãe, a megera, e caindo rios de lágrimas dos olhos a abraçou terna e profundamente. Ela perdoara do fundo da alma toda a mágoa que carregara da mãe, ao sentir que ela não tinha agido por maldade e também sofria demais. E abraçou o pai com a mesma emoção. Depois, dirigiu-se para a avó e igualmente tomou-a em seus braços.

Em constelação, sempre o filho deve tomar os pais, nunca o contrário, porque os filhos são sempre os pequenos, e os pais, não importa o que fizeram, são os grandes. Por isso, muitas vezes essa aceitação profunda não acontece, porque os filhos se recusam a tomar os pais. E ela, sem eu falar ou induzir de nenhuma maneira, tomou a todos da sua família e os acolheu em seu seio. Os participantes não conseguiram se conter... todos choravam. Eu, como terapeuta, também tive que me conter para poder prosseguir no trabalho, mas fiquei profundamente emocionada. E a intuição me disse para colocar o marido atual dela, dentro da constelação. Ele veio, e no abraço se tornaram um só. Choraram as mesmas lágrimas, deixaram que a dor se dissolvesse nesse momento terno e mágico. Realmente foi mágico: o ar adquirira uma leveza e, poderia até dizer, um suave cheiro de flores. E algo em mim disse: coloque os três filhos. E eu coloquei representantes para os filhos, porque eles não estavam presentes. E... ela os abraçou a todos, e nesse instante, formou-se a família feliz e livre que ela tanto desejara. Nesse instante reparei, para minha surpresa, que a cliente era linda e não tinha mais que 30 anos. Sua pele negra parecia aveludada, seu corpo era muito bonito, seus traços se suavizaram e seus movimentos adquiriram fluência e graça.

Todas as famílias possuem, em sua essência, essa liberdade e felicidade. O que impede muitas vezes essa leveza de fluir, é o apego demasiado nas dores que carregamos de nós mesmos e de nosso passado, e a recusa em olhar para a dor corajosamente e resolvê-la através da aceitação profunda. Geralmente, a tendência é justificar que sofremos por isso ou por aquilo, mas isso não soluciona, apenas perpetua o sofrimento. A leveza é a aceitação incondicional e total.

Na mesma semana, o marido europeu entrou em contato e disse-me, com seu sotaque carregado: "Aqui em casa tudo está mudado. É incrível! Sem contarmos nada do que aconteceu para as crianças, quando chegamos do trabalho eles já estão deixando a mesa preparada, e cuidam de nós com muito carinho! Nos abraçamos a todos e estamos curtindo um momento especial. Não tenho palavras para agradecer... Ah... e marque o meu nome para a próxima constelação... também vou fazer a minha!"

Theresa Spyra
Alemã, facilitadora de constelação familiar, estrutural, profissional e empresarial sistêmica.
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Sobre o Autor: Theresa Spyra   
Theresa Spyra é alemã, trainer e terapeuta com especialização em constelação sistêmica familiar, organizacional e estrutural. Estudou com a também alemã Mimansa Erika Farny, pioneira na introdução do método sistêmico de Bert Hellinger no Brasil, e aprofundou-se nos sistemas estruturais e organizacionais, com estudos no Brasil, Alemanha e Suíça
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