A Arte de Ver e Ouvir em Tempos de Ruído




Autor Paulo Roberto Savaris
Assunto EspiritualidadeAtualizado em 8/29/2025 5:37:12 PM
Vivemos tempos em que enxergar com clareza se tornou uma habilidade rara e ouvir com sutileza um exercício ainda mais difícil. Num mundo de polarizações e verdades individuais, onde cada um defende sua própria versão da realidade, corremos o risco de perder aquilo que mais nos humaniza: a capacidade de escutar o outro com o coração aberto.
A visão mercantil da vida nos cerca: muitos se aproximam apenas para negociar interesses, medir ganhos ou manter aparências. Nesse cenário, a escuta muitas vezes se torna seletiva - ouve-se apenas o que convém, filtra-se apenas o que confirma nossas próprias expectativas. E assim seguimos: olhos atentos às vantagens, ouvidos moucos para a verdade profunda que pede passagem.
Mas será que podemos realmente compreender alguém sem exercitar essa escuta sutil? Dificilmente conheceremos o todo de cada ser humano - somos complexos demais para sermos reduzidos a rótulos ou opiniões. Porém, há momentos em que um olhar desconfiado nos protege de ilusões, evitando que compremos "gato por lebre". Do mesmo modo, fingir surdez diante de certas brutalidades do mundo pode ser uma estratégia de sobrevivência, uma forma de não se deixar arrastar pelo precipício das incertezas.
As antigas fábulas já nos alertavam. Basta lembrar de La Fontaine, que, ao contar sobre a Andorinha e os Passarinhos, mostrou como a cegueira diante dos sinais pode levar a consequências irreversíveis. Muitas vezes, só acreditamos no mal quando ele já bateu à porta. Até lá, fingimos que não vimos, que não ouvimos, que não nos diz respeito.
No entanto, viver de forma desperta exige outro caminho. Não podemos ser tudo para todos em todos os lugares. Isso seria uma exaustão sem sentido. O que realmente importa é ser alguém íntegro no lugar onde estamos, presente e verdadeiro, ainda que imperfeito. A vida pede menos de nós uma perfeição universal e mais uma presença autêntica em nosso próprio espaço de atuação.
Como cultivar essa arte no cotidiano?
Ver e ouvir com discernimento não é dom, mas prática diária. Eis alguns caminhos simples e possíveis:
- Pausar antes de reagir - Nem toda palavra exige resposta imediata. Às vezes, respirar fundo já nos permite enxergar o que está por trás do que ouvimos.
- Ouvir além das palavras - Muitas vezes, o que alguém diz é apenas a superfície. Escutar o tom, o silêncio e até o não dito pode revelar mais que o discurso.
- Olhar sem julgar de imediato - Observar gestos, intenções e coerências no tempo ajuda a perceber se há verdade ou apenas interesse por trás de um olhar.
- Escolher os silêncios - Não precisamos absorver todos os ruídos. Saber quando "ser surdo" às agressões e manipulações é também sabedoria.
- Nutrir a presença - Estar inteiro em cada encontro, mesmo que breve, é a chave para que olhos e ouvidos se tornem instrumentos de conexão e não apenas de defesa.
E talvez, no fim, a verdadeira sabedoria esteja em aprender a ser olhos que iluminam e ouvidos que acolhem, sem se deixar corromper pelos jogos de poder e pelas máscaras de conveniência.
Um Sonhador, Caminhando com Francisco: Paulo Roberto Savaris é autor dos eBooks: Caminho de Francisco, Entre o Céu e o Silêncio e o Segredo da Simplicidade Franciscana na Amazon Série Descubra Caminhando com Francisco e do Blog Caminhando com Francisco, dedicado à educação, à escrita inspirada na espiritualidade e nos valores de simplicidade e amor ao próximo.
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