A corrida pelo amanhã: estamos vivendo ou apenas tentando parecer felizes?

A corrida pelo amanhã: estamos vivendo ou apenas tentando parecer felizes?

Autor Paulo Roberto Savaris

Assunto Espiritualidade
Atualizado em 11/6/2026 7:00:13 PM





Vivemos em uma época em que parece nunca ser suficiente. Quando alcançamos uma conquista, logo surge outra meta. Quando adquirimos alguma coisa, começamos a desejar a próxima. Quando finalmente chegamos a um lugar, nossa atenção já está voltada para o destino seguinte. Estamos sempre correndo, planejando, acumulando e tentando garantir um amanhã que ainda não existe.

Mas, nessa corrida permanente, uma pergunta merece ser feita: estamos construindo uma vida ou apenas preparando condições para começar a viver algum dia?

Talvez tenhamos aprendido a medir o sucesso por aquilo que conseguimos mostrar aos outros, enquanto deixamos em segundo plano aquilo que verdadeiramente sentimos e somos. Acumulamos compromissos, bens, títulos e expectativas, mas nem sempre encontramos tempo para uma conversa tranquila, para contemplar a natureza ou simplesmente estar presentes na vida de quem amamos.

A ansiedade pelo amanhã e o esquecimento do presente

Jesus nos deixou um ensinamento que atravessa os séculos: não viver dominados pela preocupação com o dia de amanhã, pois a cada dia basta o seu próprio cuidado (Mateus 6,34).

Essa orientação não significa abandonar responsabilidades, deixar de planejar ou ignorar as necessidades materiais. Significa compreender que o futuro não pode consumir toda a nossa existência. Há uma diferença entre preparar o amanhã com responsabilidade e sacrificar o presente por medo de que ele não seja suficiente.

Na parábola do homem rico que decidiu construir celeiros maiores para guardar sua abundante colheita (Lucas 12,16-21), Jesus apresenta uma situação que continua muito atual. Aquele homem acreditava ter garantido muitos anos de tranquilidade. Seus planos, porém, estavam concentrados naquilo que possuía, sem considerar a fragilidade da própria vida.

A provocação não está em condenar os bens materiais. Eles podem proporcionar conforto, segurança e melhores condições de vida. O problema começa quando a acumulação deixa de ser um meio e se transforma na finalidade da existência. Quando tudo o que fazemos está voltado para possuir mais, corremos o risco de perder a capacidade de perceber o que já temos.

São Francisco de Assis e a liberdade de viver com simplicidade

São Francisco de Assis nos oferece uma perspectiva diferente. Sua relação com a vida não estava fundamentada na necessidade de acumular, competir ou demonstrar superioridade. Ao escolher a simplicidade, Francisco descobriu outra maneira de se relacionar com as pessoas, com a criação e com o próprio sentido da existência.

A simplicidade franciscana não deve ser confundida com falta de ambição, comodismo ou desprezo pelas necessidades humanas. Ela representa, antes, uma liberdade interior: não permitir que as posses, as aparências e o reconhecimento externo determinem nosso valor.

Francisco encontrou na natureza uma companhia e uma fonte de contemplação. O irmão sol, a irmã lua, a água, a terra e os animais não eram objetos a serem dominados, mas expressões de uma criação diante da qual cabiam respeito, gratidão e fraternidade.

Talvez esteja aí uma das grandes lições para o nosso tempo: aprender a reconhecer a riqueza que não precisa ser exibida. Uma mesa compartilhada, uma conversa sem pressa, o carinho de uma criança, o silêncio de uma manhã ou a alegria de observar a vida florescendo ao nosso redor também são formas de abundância.

Não precisamos romantizar as dificuldades materiais para compreender que a felicidade não pode ser reduzida ao poder de compra. Ter condições dignas de vida é importante. Mas nenhuma aquisição, por si só, garante serenidade, afeto ou sentido.

Quando a aparência ocupa o lugar da essência

A sociedade contemporânea valoriza intensamente a imagem. Somos estimulados a mostrar conquistas, experiências, viagens, reconhecimento e felicidade. As redes sociais ampliaram essa exposição e, muitas vezes, transformaram a vida em uma vitrine.

Não há problema em compartilhar alegrias ou celebrar conquistas. A questão aparece quando começamos a viver mais preocupados com a impressão que causamos do que com a verdade daquilo que experimentamos.

Podemos construir uma imagem de sucesso e, ao mesmo tempo, sentir um enorme vazio. Podemos frequentar espaços religiosos, conhecer discursos e repetir palavras de fé, mas continuar indiferentes à dor de quem está ao nosso lado.

É nesse ponto que a espiritualidade precisa deixar de ser apenas discurso e se tornar experiência concreta.

Talvez seja melhor um ateu que pratica o bem do que alguém que proclama sua fé, mas não consegue amar. Essa afirmação não pretende diminuir a fé de ninguém. É uma provocação dirigida à incoerência entre aquilo que professamos e a maneira como tratamos as pessoas.

A fé cristã encontra sua expressão mais verdadeira no amor. Não basta falar de misericórdia se cultivamos julgamentos; não basta defender a fraternidade se desprezamos quem pensa diferente; não basta procurar Deus em grandes manifestações religiosas se não conseguimos reconhecê-lo na dignidade de cada pessoa.

O verdadeiro sucesso talvez esteja nas coisas que não aparecem

Quando olhamos para a própria trajetória, percebemos que algumas das lembranças mais importantes não estão relacionadas a grandes conquistas. Muitas vezes, são momentos simples que permanecem: uma conversa em família, uma palavra de incentivo, uma brincadeira com os netos, o cuidado com os animais, o contato com a terra ou a presença de alguém em um momento difícil.

Essas experiências não costumam ocupar manchetes nem produzir reconhecimento público. Entretanto, deixam marcas profundas.

Talvez precisemos rever o significado de sucesso. Ser bem-sucedido não deveria significar apenas conquistar posições, acumular patrimônio ou receber aplausos. Também deveria significar construir relações verdadeiras, agir com responsabilidade, respeitar a vida e deixar algo de bom no caminho de outras pessoas.

O tempo passa, os bens mudam de mãos e muitas conquistas perdem sua importância. O modo como acolhemos, respeitamos e amamos, porém, pode permanecer na memória de quem caminhou conosco.

Menos aparência, mais presença

Como Sonhador Caminhando com Francisco, não escrevo estas reflexões como quem encontrou todas as respostas. Também me reconheço nas contradições de uma sociedade que cobra resultados, estimula comparações e nos convence de que sempre falta alguma coisa.

Aprender a viver com simplicidade é um exercício diário. É reconhecer quando estamos exagerando nas expectativas, quando deixamos de aproveitar o presente e quando permitimos que a opinião alheia determine nossas escolhas.

Talvez não seja necessário abandonar nossos sonhos, mas aprender a caminhar em direção a eles sem perder a beleza do percurso. Planejar o futuro, sim, mas sem esquecer quem está ao nosso lado hoje. Trabalhar e conquistar, sim, mas sem transformar a vida em uma competição interminável.

Afinal, de que adianta chegar muito longe se, durante o caminho, deixamos para trás aquilo que realmente dá sentido à existência?

Jesus nos convida a viver com confiança. Francisco nos inspira a descobrir a liberdade da simplicidade. Ambos nos ajudam a perceber que a vida não acontece somente no destino que desejamos alcançar. Ela está acontecendo agora, nos encontros, nas escolhas e nos pequenos gestos de cada dia.

Menos aparência, mais presença. Menos acumulação, mais partilha. Menos ansiedade pelo amanhã, mais responsabilidade e amor no hoje.

E fica uma pergunta para continuarmos caminhando: estamos construindo uma vida com significado ou apenas levantando celeiros cada vez maiores para guardar aquilo que talvez nunca tenhamos tempo de desfrutar?





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Autor Paulo Roberto Savaris   
Paulo Roberto Savaris - Professor Aposentado. Autor dos eBooks da Série Descubra Caminhando com Francisco (Amazon) e de obras publicadas também pela UICLAP. Escreve sobre espiritualidade, fé, natureza e simplicidade. Conheça mais em: https://www.caminhandocomfrancisco.com/
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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