A Criação Não Tem Pressa - Nós É Que Perdemos o Ritmo
Autor Paulo Roberto Savaris
Assunto EspiritualidadeAtualizado em 1/23/2026 4:27:39 PM
Nada na criação parece estar atrasado.
A semente germina quando é tempo.
A árvore floresce quando chega a estação.
O rio segue seu curso sem ansiedade.
O animal descansa sem culpa.
Só o ser humano vive com a sensação permanente de que está correndo contra algo - ou alguém.
Perdemos o ritmo.
A pressa se tornou virtude. A lentidão, defeito. A produtividade passou a medir o valor da vida. E, nesse movimento acelerado, desaprendemos a escutar os tempos da criação - e, com eles, os tempos do coração.
Francisco de Assis caminhava devagar. Não por romantismo, mas por reverência. Sabia que o chão não é apenas suporte, é morada. Que a terra não foi feita para ser vencida, mas habitada. Caminhar rápido demais é uma forma sutil de violência: não contra o tempo, mas contra a presença.
Hoje, vivemos como se tudo tivesse que acontecer agora. As respostas, os resultados, as mudanças, os posicionamentos. Até o amor se tornou apressado. Até a fé se tornou imediatista. Queremos transformação sem processo, cura sem espera, sentido sem silêncio.
A criação nos contradiz.
Ela ensina que o que amadurece depressa demais não sustenta peso. Que o que cresce sem raiz não resiste ao vento. Que a vida precisa de pausa para continuar sendo vida.
Jesus compreendia isso quando dizia que o Reino de Deus é como uma semente. Não como um relâmpago. Não como um espetáculo. Mas como algo pequeno, escondido, silencioso - que cresce enquanto ninguém está olhando.
Francisco aprendeu essa lição olhando o mundo com atenção. Percebeu que o excesso de pressa rompe relações: com a terra, com os outros, consigo mesmo. Quem corre demais pisa sem perceber. Quem acelera demais deixa de ver. Quem vive apressado não cuida - apenas passa.
A crise ecológica também é uma crise de ritmo.
Extraímos mais rápido do que a terra consegue regenerar. Produzimos mais lixo do que a natureza consegue absorver. Consumimos mais do que precisamos porque desaprendemos a esperar. A pressa nos tornou predatórios. Não por maldade consciente, mas por desconexão.
Os animais sabem quando parar.
As árvores sabem quando soltar as folhas.
O ser humano insiste em avançar - mesmo exausto.
Talvez por isso estejamos tão cansados.
A espiritualidade franciscana não propõe fuga do mundo, mas reconciliação com o tempo. Um tempo que não é o do relógio, mas o da vida. Um tempo que respeita limites, ciclos e silêncios. Um tempo em que existir não é competir, mas pertencer.
Em um mundo que grita "corra", a criação sussurra "permaneça".
Talvez o maior ato de resistência hoje seja desacelerar. Não por preguiça, mas por consciência. Não para fazer menos, mas para fazer com verdade. Não para negar o mundo, mas para habitá-lo com mais inteireza.
Francisco não tinha pressa porque sabia onde estava.
Quem sabe onde está não precisa correr para provar nada.
Reaprender o ritmo da criação é reaprender a viver. É aceitar que nem tudo se resolve agora. Que algumas respostas só vêm com o tempo. Que algumas curas exigem silêncio. Que algumas sementes precisam do escuro da terra antes de ver o sol.
A criação não tem pressa.
Nós é que perdemos o ritmo.
E talvez seja hora de reaprendê-lo, antes que o cansaço se torne definitivo.
E você? Onde a pressa tem te afastado da vida que poderia florescer em silêncio?
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