Deus além de Deus

Deus além de Deus

Autor Alexei Bueno

Assunto Espiritualidade
Atualizado em 8/19/2026 11:09:56 AM



Sempre tive uma visão monista da existência. Desde jovem, intuía que, por trás da diversidade de tudo o que existe, haveria uma unidade fundamental, uma realidade comum e essencialmente divina. Com o passar do tempo e o amadurecimento de minhas reflexões sobre Deus, essa concepção foi se tornando mais ampla. Hoje, compreendo o Divino simultaneamente como imanente, por estar presente e participar da realidade fundamental que permeia toda a existência, e como transcendente, por não se limitar ao universo que conhecemos, ultrapassando os limites de nossa experiência e de nossa própria capacidade de compreensão.

Quando iniciei meus estudos filosóficos, deparei-me com o pensamento de Baruch Spinoza (1632-1677), que rejeita a concepção de Deus como um ser pessoal e separado do Universo. Em sua filosofia, Deus é imanente à realidade, uma concepção que se aproxima justamente destas minhas próprias reflexões. Para Spinoza, Deus não estaria "fora" da criação, como um agente externo que a produz e governa, mas seria a própria realidade infinita e fundamental, da qual todas as coisas são modos ou expressões. Esta perspectiva está também de acordo com outra tradição filosófica, desta vez oriental, que venho estudando: o Shivaísmo da Caxemira, no qual a multiplicidade do Universo é compreendida como manifestação de uma única substância ou Consciência absoluta - Shiva.

Na realidade, muito antes de Spinoza, Xenófanes de Cólofon (c. 570-475 a.C.), filósofo grego pré-socrático, já apresentava ideias bastante avançadas nesse sentido. Ele formulou uma das críticas mais antigas ao antropomorfismo religioso, isto é, à tendência humana de conceber os deuses à nossa própria imagem, atribuindo-lhes formas, sentimentos e comportamentos tipicamente humanos, como amor, ira, ciúme ou desejo. Para ilustrar essa ideia, Xenófanes argumentava que, se bois, cavalos e leões tivessem mãos e fossem capazes de pintar, provavelmente representariam seus deuses com formas semelhantes às suas próprias. Assim, os cavalos imaginariam deuses semelhantes a cavalos e os bois, semelhantes a bois. Com essa reflexão, Xenófanes chamava a atenção para a possibilidade de que muitas das características atribuídas ao Divino sejam, na verdade, projeções da própria natureza humana.

Para Spinoza, existe uma única substância, infinita e eterna: Deus, ou a Natureza (Deus sive Natura). Assim, tudo aquilo que existe - seres humanos, estrelas, plantas, corpos e pensamentos - não constitui substâncias independentes, como encontramos no dualismo de Descartes, que distingue mente e matéria, mas são modos ou expressões dessa única realidade. Tudo existe em Deus, e nada pode existir fora dessa realidade infinita. Nesse sentido, Deus não é uma espécie de "pessoa cósmica" dotada de emoções e vontades semelhantes às humanas. Essa concepção trouxe sérias consequências à vida de Spinoza e contribuiu para que seu pensamento fosse considerado herege ou que fosse ateu. Para ele, Deus não fica satisfeito ou irritado, não muda de opinião, não pune alguém por vingança nem intervém arbitrariamente no funcionamento da natureza. As próprias leis da natureza são expressões necessárias da natureza divina; portanto, compreender a Natureza é, em certo sentido, compreender a maneira pela qual a realidade divina se expressa.

Provavelmente, se essas ideias fossem levadas às suas últimas consequências, muitas das formas tradicionais de religião institucionalizada precisassem ser profundamente reformuladas, sobretudo aquelas fundamentadas na concepção de um Deus pessoal que concede favores, atende pedidos, recompensa determinadas condutas ou necessita de orações e rituais. Isso representaria uma verdadeira mudança de paradigma espiritual, transformando profundamente a maneira como o ser humano compreende sua relação com o Divino e com a própria realidade. Não significaria necessariamente o abandono da espiritualidade ou o rompimento dessa relação, mas sua reconstrução sobre novas bases, nas quais Deus deixaria de ser concebido predominantemente como uma entidade pessoal e exterior ao mundo para ser compreendido de maneira mais abstrata, imanente e, ao mesmo tempo, transcendente.

Por mais surpreendente que possa parecer, podemos encontrar na própria Bíblia passagens que, quando interpretadas simbolicamente, parecem apontar justamente para uma concepção de Deus mais profunda e menos antropomórfica. É importante lembrar, contudo, que a Bíblia não constitui uma obra escrita por um único autor ou em um único período histórico, mas uma coleção de dezenas de livros produzidos ao longo de diferentes épocas, por diversos autores e comunidades, inseridos em contextos históricos, culturais, religiosos e simbólicos distintos. Essa diversidade ajuda a compreender por que encontramos em seus textos diferentes maneiras de representar e conceber o Divino.

No que diz respeito à maneira como compreendemos a Divindade, algo que muito me marcou foi a abordagem adotada pela Ordem Rosacruz AMORC. Nesta perspectiva, cada pessoa desenvolve uma compreensão particular do Divino, de acordo com sua própria experiência, sensibilidade e capacidade de entendimento. Assim, quando alguém busca estabelecer uma relação interior com a Divindade, dirige-se àquela concepção que consegue reconhecer e vivenciar. Essa ideia é sintetizada na expressão "Deus da minha compreensão, Deus do meu coração". O coração, nesse contexto, pode ser entendido simbolicamente como referência à dimensão mais íntima e profunda do ser humano, sugerindo que a busca pelo Divino não precisa ocorrer apenas em direção a uma realidade exterior, mas também por meio de um movimento de interiorização e reconhecimento daquilo que há de mais essencial em nós.

De fato, a filosofia de Spinoza, especialmente no que diz respeito à sua concepção da Divindade, parece-me surpreendentemente avançada para sua época e semelhante à filosofia oriental. Sua maneira de compreender Deus para além de uma entidade pessoal e separada do Universo exerceu influência sobre importantes pensadores, cientistas e intelectuais ao longo dos séculos. Entre eles encontra-se Albert Einstein, que manifestou sua afinidade com essa concepção ao afirmar que acreditava no "Deus de Spinoza", isto é, em uma divindade que se revela na ordem, na harmonia e nas leis da natureza, e não em um Deus pessoal que intervém diretamente nos acontecimentos e destinos humanos.

Alexei Bueno
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