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Enquanto isso: o trem, a janela, o ovo e a colher (estranho assim mesmo)


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Às vezes temos lampejos de lucidez e ganhamos perspectiva.

Muitos anos atrás, estava fazendo uma viagem pela Toscana. Algo que eu tinha desejado muito. Era verão, estava sol, eu tinha tempo para desfrutar em dias soltos. Viajava de trem, curtindo o barulho e o balanço nos trilhos, e ia de lá para cá, por toda parte, comigo, com outros e feliz. Mas bem, algo aconteceu, mobilizando uma antiga expectativa amorosa, que, no fim, não se concretizou. Lembro-me de como fiquei presa no fato, dias e dias, e, ao pegar o trem, já não conseguia ver a paisagem se desenrolar à minha frente, só ouvia o meu interior em disco riscado e sentia a dor da “não realização do desejo”. Foi então que veio o momento de lucidez aguda: eu estava realizando um sonho, mas conseguia “me deixar insatisfazer”, “me deixar frustrar” por querer mais ainda e, enquanto isso, perdia o que, de fato, estava acontecendo à minha frente. A vida está passando o tempo todo à sua frente como a paisagem da janela, com cenas novas e que você nunca viu, plenas e ensolaradas, ou nubladas e chuvosas, mas você, pensando insistentemente no que quer que esteja dentro de você, simplesmente não vê a paisagem passar. Eu sei que, dito assim, parece ridículo, mas a experiência tem uma força libertadora: a dor se dissolveu e a percepção do movimento (com sua graça) voltou.

Numa outra vez, fazia um exercício num curso, e nele devíamos caminhar e prestar muita atenção ao passo. Num dado momento o professor disse: “O que é um passo? Você consegue dizer o que é um passo? Experimente andar muito devagar. Quanto mais devagar, maior é o desequilíbrio. Sinta a enorme instabilidade que existe em um passo. Tire um pé do chão e aguente ficar com ele suspenso o máximo de tempo possível, até recolocá-lo no chão.” Nesse simples movimento, você se desestrutura inteiro e quase cai até por o outro pé no chão. E aí está o segredo. É o movimento que dá o equilíbrio. O equilíbrio de algo que, no fim das contas, não existe, pois uma “coisa”, por si só, não é nada: você e o mundo inteiro se desconstroem, até que surjam novamente, no segundo seguinte, no passo seguinte. Onde está o “um segundo” atrás? O que você “tem”? “Coisificar” o passo é impossível, pois o passo é (des)equilíbrio e é movimento (porque com os dois pés no chão você está estável, mas está parado – isso não é um passo). Mas é isso que fazemos o tempo todo com a vida. Fazemos foto do filme. Coisificamos a vida, quando ela é movimento por excelência. Um movimento que, se dissecado, é tecido no (des)equilíbrio. Mas se parar, não existe. Não é uma “coisa”. É música. Uma nota não é a música; o conjunto das notas não é a música. A música é o movimento das notas. (E mesmo sabendo que ela vai acabar nem por isso a ouvimos melhor enquanto está tocando.)

Por outro lado, a paisagem com que nos deparamos na vida é tanto externa quanto interna. Somos porta e janela. Passagem. Enquanto isso, as cenas mudam dentro e fora. E se prestar atenção dentro é perder fora, prestar atenção fora é também perder dentro. E algo se dá no compasso da respiração que percebe o dentro e o fora, o eco, as ondas que se interpenetram em consonância e depois refluem, a co-incidência, e percebendo a ambos está dentro e fora. E "dentro" e "fora" não mais existem, existe o movimento de perceber. É como andar e equilibrar o ovo na colher. É como fazer malabarismos com 5 bolas. Mas se parar, não há nada.

O que há é o movimento. Um infinito gerúndio de paisagens interiores e exteriores. Foi assim que entendi (ou acreditei ter entendido) o que quer dizer a frase “No princípio era o Verbo”.
E esse Verbo é no gerúndio.

Os nomes... Bem, mesmo os nomes (e as coisas) são um estado.

O que há é o movimento. Um infinito gerúndio de paisagens interiores e exteriores. Foi assim que entendi (ou acreditei ter entendido) o que quer dizer a frase “No princípio era o Verbo”.
E esse Verbo é no gerúndio.

Os nomes... Bem, mesmo os nomes (e as coisas) são um estado.

Por enquanto o texto está assim. Mas pode mudar.

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Conteúdo desenvolvido por: Isabela Bisconcini   
Isabela Bisconcini é Psicóloga Clínica e Consteladora Sistêmica. Terapeuta EMDR. Terapeuta Floral, Reiki II, NgalSo Chagwang Reiki, AURA-SOMA. Deeksha Giver. Dedicou-se por 25 anos ao estudo da psicologia budista e prática do Budismo Tibetano. Participou do Centro de Dharma da Paz desde 1988, quando Lama Gangchen Rinpoche o fundou.
E-mail: isabela.bisconcini@gmail.com | Mais artigos.

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