Francisco Não Pregava Sobre a Natureza: Ele Caminhava com Ela
Autor Paulo Roberto Savaris
Assunto EspiritualidadeAtualizado em 1/21/2026 6:34:28 PM
Francisco de Assis não subia em púlpitos para falar da criação.
Ele não escrevia tratados ecológicos, não fazia discursos inflamados, não tentava convencer ninguém pela força das palavras. Francisco simplesmente caminhava. E, ao caminhar, ensinava.
Em um tempo em que a fé começava a se confundir com poder, prestígio e disputa de verdades, Francisco escolheu outro caminho: o da proximidade. Aproximou-se da terra com os pés descalços, dos animais com respeito, das pessoas com ternura. Não via a natureza como cenário, mas como relação. Não como objeto, mas como irmã.
Hoje falamos muito sobre a natureza.
Falamos em preservação, sustentabilidade, meio ambiente, crise climática. E tudo isso é necessário. Mas há algo que se perde quando falamos demais e caminhamos de menos. A distância cresce. O discurso aumenta. O cuidado diminui.
Francisco nos lembra que a verdadeira conversão ecológica não começa na linguagem, mas na postura.
Ele caminhava com a natureza porque se sabia parte dela. Não havia separação. O mesmo chão que sustentava seus passos sustentava os insetos, as plantas, os animais. O mesmo sol que aquecia sua pele amadurecia os frutos e guiava os ciclos da vida. Nada estava fora. Nada era inferior. Nada precisava ser dominado.
Enquanto isso, nós aprendemos a explicar tudo - e a sentir quase nada.
Transformamos a criação em recurso. A floresta em dado. O rio em estatística. O animal em produto. A terra em mercadoria. Falamos de cuidado, mas seguimos pisando com pressa. Falamos de amor, mas seguimos explorando. Falamos de futuro, mas ferimos o presente.
Francisco não pregava porque sabia:
há verdades que não sobrevivem quando viram discurso.
Elas só permanecem quando viram gesto.
Ao chamar a terra de "mãe", Francisco não fazia poesia romântica. Ele reconhecia uma dependência real. A mãe sustenta, alimenta, acolhe - e também sofre quando ferida. A mãe não disputa espaço com o filho. Mas pode adoecer quando o filho esquece que pertence.
Talvez seja isso que esteja acontecendo conosco.
A crise ecológica não é apenas ambiental. É espiritual. É relacional. Perdemos a capacidade de caminhar juntos. Caminhar com a terra. Caminhar com o outro. Caminhar com nós mesmos. Preferimos correr, produzir, competir. E, nesse ritmo, deixamos de perceber o que se quebra sob nossos pés.
Os animais ainda caminham com a natureza.
As árvores ainda caminham com o tempo.
Os rios ainda caminham em direção ao mar.
Só nós insistimos em caminhar contra tudo.
Francisco escolheu desacelerar. Escolheu a simplicidade não como pobreza forçada, mas como liberdade. Quanto menos possuía, menos precisava defender. Quanto menos acumulava, menos destruía. Seu modo de vida era, por si só, uma crítica silenciosa a um mundo que começava a confundir valor com domínio.
Hoje, quando o planeta pede socorro, talvez não precise de mais discursos - precise de mais caminhantes. Pessoas dispostas a rever hábitos, ritmos, desejos. Pessoas que compreendam que não se protege aquilo que se mantém distante, mas aquilo com o qual se cria vínculo.
Caminhar com a natureza exige humildade.
Exige aceitar que não somos centro.
Exige reconhecer limites.
Exige aprender de novo.
Francisco aprendeu com o vento, com o lobo, com a terra seca, com o canto dos pássaros. Aprendeu que viver bem não é ocupar mais espaço, mas habitar melhor o espaço que se tem. Aprendeu que o cuidado nasce da convivência, não da imposição.
Talvez hoje o maior testemunho cristão não seja falar mais alto, mas caminhar mais fundo. Reaprender a pisar com leveza. Reaprender a olhar sem pressa. Reaprender a existir sem ferir.
Francisco não pregava sobre a natureza.
Ele caminhava com ela.
E, nesse gesto simples, revelou um caminho de salvação que ainda espera por nós.
E você? Tem caminhado sobre a terra. ou com ela?
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