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O Sentido da Vida


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Nasceu em berço de ouro. Desfrutava de conforto e requinte. Luxo. Morou e estudou na Inglaterra, onde cursou a faculdade de Belas Artes. E foi lá também que engravidou, aos vinte e três anos. Quando Willian fez cinco anos, o pai mudou-se para Nova Zelândia e ela não pode mais contar com a presença dele para ajudá-la na criação do filho. Dois anos depois ele se casou e deixou de procurá-la. Laços desfeitos. Ela voltou para o Brasil. Criou o filho contando com o apoio dos pais e da irmã. E a vida seguiu em frente.

Continuava levando uma vida luxuosa, morando com o filho em um amplo apartamento no nobre paulistano Jardim Europa. Quando Willian completou dezoitos anos ela lhe deu um carro. Uma semana depois, Willian estava morto após uma fatídica colisão. Por quê? Por quê? Como? Nenhuma resposta. Silêncio. Escuridão. Dor. Qual é o sentido da vida? Como presenciar o enterro do único filho? Por que jovens morrem? Por que a vida me deu tanto luxo e inesperadamente tira o que me é mais valioso? O que é isso? O que é a vida? Ela olhava o filho no caixão e só podia imaginar que ele apenas dormia. Não, não é definitivo. Ele vai acordar. Acompanhou a reza, seguiu o féretro, assistiu ao enterro. E carregada pelos amigos, voltou para casa. Precisava ficar só, no quarto do filho.

Chorou copiosamente, até o dia amanhecer. Olhava todo aquele luxo a sua volta, e nada fazia sentido. Para que serve aquele lustre de cristal? E todos esses tapetes persas por toda casa? A louça de Limoges e o faqueiro de prata inglesa do período George V? Tudo o que sempre lhe foi natural, agora era pura estranheza. Nunca houvera parado para pensar sobre o sentido da vida. Católica por tradição familiar, jamais questionou o viver e o morrer. A perda do filho foi seu primeiro confronto com a morte. Tendo pais e avós ainda vivos, não sabia o que era esse confronto com o irreversível. Estava aturdida, devastada, sem chão.

Após a missa de um mês, levantou-se e saiu em busca de respostas, para perguntas que começaram a inquietar sua alma tão ferida. Viveu todos esses anos cercada de beleza, conforto, requinte. Formada em Belas Artes refinou ainda mais o gosto pelo luxo. No entanto, a morte de Willian levou-a para um lugar desconhecido, onde nenhuma obra de arte poderia minimizar sua dor. Até a corrente de ouro com o pingente de rubi que carrega no pescoço desde os dezessete anos a incomodava.

Por que o ouro tem tanto valor? Por que as pedras preciosas custam tão caro? Quem atribui valor às coisas? E por que as coisas mais essenciais à vida, como a água e o sal não têm valor como o diamante? Qual a utilidade de uma jóia? E de uma obra de arte? O belo é caro porque é belo, raro? E as flores que são belas e algumas espécies raras, por que não custam como uma pedra preciosa? Perguntas filosóficas inundavam sua mente, confundiam-na, mas não aplacavam sua dor. Ela tinha que descer mais.
Um amigo aconselhou-a a ler o bíblico Livro do Eclesíastes; certamente ali ela encontraria algumas respostas. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. (...) Que é que foi? É o mesmo que há de ser. Que é o que se fez? O mesmo que se há de fazer. Não há nada novo debaixo do sol”.

Então, é isso? Tudo é vaidade? O que move o mundo é a vaidade? E não há nada de novo debaixo do sol? A minha indescritível dor de perda é igual a tantas outras dores humanas, desde que o mundo é mundo. A busca mal começou. Ela se deu conta do quanto viveu alienada do sentido da vida. Se é que a vida tem algum sentido. Se tem, ela agora quer descobrir.

Havia estudado filosofia, mas não deu muito importância aos pensamentos dos filósofos sobre esses temas tão abstratos. Lembrou-se de Epicuro que dizia que o sentido da vida está na satisfação dos desejos e na erradicação do medo e da dor. Mas como erradicar ou evitar a dor? Essa dor inimaginável, que ela passou a carregar no peito.
Jamais se interessou por leituras que não fossem relativas à arte. Nada.

Achava que era perda de tempo ficar lendo sobre outros assuntos. Não tinha questionamentos. Vivia sua vida de modo bem prazeroso. Mas agora... toda essa revelação que a morte lhe trouxe: qual o sentido da vida? Ficou perplexa porque ao fazer tal questionamento as respostas foram chegando, de inúmeras formas, pelo fenômeno da sincronicidade, e ela podia escolher pelo menos uma, dentre tantas.

O sentido da vida consiste na aquisição da felicidade.
O sentido da vida consiste em servir ao outro.
O sentido da vida consiste em viver unido a Deus e continuar unido após a morte.
O sentido da vida consiste em amar.
O sentido da vida consiste em evoluir espiritualmente.
O sentido da vida consiste em realizar nossos sonhos.

E eram muitas as respostas. Ela se deu conta de que se trata de algo subjetivo.
Mas uma resposta calou fundo em sua alma; veio da poeta Cora Coralina, do seu poema "O Sentido da Vida" e passou a ser, desde então, seu propósito de vida:

"Não sei...
se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta. Silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja curta, nem longa demais. Mas que seja intensa, verdadeira, pura... enquanto durar".

Texto revisado
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Conteúdo desenvolvido por: Regina Ramos   
Professora de Português, Francês, História da Educação e Filosofia da Educação. Orientadora Educacional e Consultora Pedagógica. Palestrante. Taróloga.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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