Quando a espiritualidade começa a pesar
Autor Adriana Garibaldi
Assunto EspiritualidadeAtualizado em 3/21/2026 5:29:53 PM
Houve um tempo em que eu acreditava que servir, no terreno da mediunidade, era se entregar sem limites.
Que sentir muito. era sinal de evolução.
Que suportar. era parte do caminho.
Mas chega uma hora em que o corpo começa a falar.
Não com palavras,
mas com apertos.
com cansaço, com dor.
com uma inquietação difícil de explicar.
E se você, como eu, é aquele médium que sempre escutou o invisível.
talvez agora seja o momento de aprender a escutar o que sempre esteve visível em você.
Nem toda presença é um chamado.
Nem toda intensidade vem da luz.
A mediunidade precisa estar alinhada com a sua própria essência.
Mas em que consiste esse alinhamento?
Em algumas casas espiritualistas, utiliza-se o termo "cavalo" para se referir aos médiuns que se entregam ao processo mediúnico, permitindo a manifestação de consciências espirituais por meio da incorporação ou da psicofonia.
Durante muito tempo, esse termo não me pareceu desrespeitoso.
Eu compreendia como parte natural do processo - uma entrega necessária para que algo maior pudesse se manifestar.
Mas, com o tempo, comecei a sentir que existiam outras formas de compreender essa dinâmica.
Formas mais sutis. mais conscientes. mais integradas ao próprio ser.
A mediunidade engloba uma ampla gama de expressões.
E muitas delas, cada vez mais, caminham para a sutileza - algo que tende a se intensificar ainda mais com a evolução da consciência humana.
No entanto, em algumas experiências, esse processo ainda pode se mover em um campo de pouca autonomia.
Em que o médium atende a um chamado. mas, por vezes, sem perceber os próprios limites.
E é aí que pode residir um grande equívoco.
Quando esse dom do espírito deixa de estar em harmonia com o corpo e com a consciência, ele pode gerar desgaste - físico, emocional ou energético.
Isso pode acontecer quando não há escuta interna suficiente, quando o próprio corpo não é respeitado em seus sinais.
Muitos de nós desejamos servir.
E esse desejo é sincero.
Mas, em algumas linhas de pensamento, a mediunidade é compreendida como um caminho de resgate - como se o médium carregasse uma dívida espiritual a ser quitada por meio da entrega e do trabalho.
E, assim, pouco a pouco, vamos nos condicionando a essa ideia.
De estar sempre disponíveis.
De sermos úteis a qualquer custo.
Mas. onde fica, nesse processo, o cuidado consigo mesmo?
Com o próprio corpo.
com a própria essência.
com aquilo que, em nós, também precisa ser acolhido?
Sim, a mediunidade pode ser uma bênção, quando vivida em alinhamento com aquilo que somos,
em conexão com uma consciência mais elevada que não nos fragmenta, mas nos integra.
Ela deixa de ser um espaço de esforço e passa a ser um campo de verdade.
O processo mediúnico pode, então, se tornar mais fluido.
Menos denso.
Mais próximo de uma sintonia fina -
uma inspiração que nutre, que organiza, que sustenta.
Sem agressão.
Sem sobrecarga.
Talvez estejamos caminhando para uma forma de mediunidade mais consciente -
menos baseada na intensidade dos fenômenos
e mais na qualidade da presença.
Uma mediunidade que não nos afasta de nós mesmos,
mas que nos ancora ainda mais profundamente em quem somos.
Porque, quando acreditamos que precisamos ultrapassar constantemente os nossos limites,
o corpo começa a responder.
O coração acelera.
o peito aperta.
a respiração encurta.
E, ainda assim, muitas vezes aprendemos a normalizar isso.
A seguir.
a suportar.
a silenciar o desconforto.
Em alguns contextos, pode não ser fácil expressar esse tipo de experiência.
Pode haver receio de ser mal compreendido.
ou de parecer que falta fé, preparo ou entrega.
E assim, seguimos.
até que o corpo pede pausa.
Até que algo em nós já não consegue continuar da mesma forma.
A espiritualidade que hoje reconheço como verdadeira.
não invade,
não pressiona,
não exige que eu me perca de mim.
Ela me devolve a mim mesma.
Com suavidade.
Sem cobrança.
Espiritualidade não é performance.
É alinhamento com a verdade.
Não é intensidade que nos desorganiza -
é presença que nos integra.
Por isso, talvez seja necessário aprender a discernir.
Separar o que apenas parece profundo
daquilo que realmente transforma.
O que nos aproxima da vida
do que apenas nos envolve em uma sensação passageira.
E há um ponto essencial nesse caminho.
os sinais: O corpo costuma perceber antes da mente.
A pergunta é simples, ainda que profunda:
Isso me deixa mais inteira.
ou mais fragmentada?
Me acalma.
ou me angustia?
Experiências alinhadas tendem a trazer clareza.
A simplificar.
A retirar excessos.
Não nos deixam exaustos -
nos organizam por dentro.
Porque espiritualidade não é apenas profundidade.
é também direção.
É caminho que sustenta,
não apenas emoção que impressiona.
E, ao final.
transforma.
Hoje eu entendo:
há momentos em que o caminho não é se abrir.
é se recolher.
Não por medo.
Mas por verdade.
Porque a luz que é real.
também sabe esperar.
E respeita o tempo, o corpo
e a consciência de quem a acolhe.
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