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SuaveMente

por Isabela Bisconcini
SuaveMente

Publicado dia 10/9/2009 em Espiritualidade

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A energia espiritual tem a qualidade da bênção. Conseguir gerar a qualidade da bênção em nós é a nossa tarefa... E eu diria que tarefa diária, até. Estar na presença de Lama Gangchen nos leva automaticamente a um estado que sentimos como leveza, alegria, relaxamento... Como se tudo que antes fosse um problema, de repente, deixasse de sê-lo... Você simplesmente diz: "ah...tudo bem...não importa!" e fica com essa carga extra de energia que, na realidade, não se traduz em hiperatividade ou excitação, mas é como estar alimentado por dentro e, assim, relaxa e começa a lidar com a vida com uma suavidade há muito esquecida. Os sons ficam mais gentis, a visão fica naturalmente positiva e as palavras ficam também mais doces e consistentes. Essa é a energia abençoada.

Uma vez, recebia ensinamentos de Lama Michel e estava comigo uma amiga e sua filha de uns seis anos, que ficou umas quatro horas e meia sentada, ouvindo os ensinamentos... Quando saímos de lá quase a 01:00h da manhã eu perguntei-lhe: "Camilla, você está com sono?" Ela disse: "Não!", "Você está com fome?" Ela disse: "Não!", "Você está com sede?", "Não!" As perguntas viraram uma brincadeira e eu segui: "Você está cansada", "Não", "Está com calor?", "Não", "Está com frio?", "Não", "Você quer fazer xixi?" , "Não!"... Todas as necessidades que eu lhe perguntava, ela dizia não precisar. Não havia incômodo nenhum. Isso não é um momento mágico de perfeição? Essa é a qualidade do elemento espaço e é ela que temos que redescobrir enquanto respiramos.

Você já deve ter recebido por email aquela mensagem que diz (mais ou menos assim): "um copo de água bem salgada é muito difícil de se engolir e nos fará mal engoli-la, mas ao jogá-lo, por exemplo, num lago, todo o teor do sal simplesmente se dissolve naquela imensa quantidade de água"... É assim que temos que lidar com nossas emoções negativas: ampliando o nosso espaço para recebê-las, até dissolvê-las no nosso infinito espaço interno.

Como desenvolver o nosso espaço interno? O principal e mais complicado conceito com que nos deparamos no Budismo é o da Vacuidade, que, bem a grosso modo, quer dizer que as coisas aparecem de um jeito, nós juramos que elas são daquele jeito, mas elas não são (intrinsecamente) daquele jeito, porque senão todos sentiríamos a mesma coisa em relação a qualquer evento, e isso não acontece. As coisas não são como nos aparecem, na verdade elas não são de jeito nenhum, elas, em si mesmas, são vazias, mas estão aparecendo de uma maneira, como uma ilusão, exatamente como no filme Matrix, em que vivemos uma realidade, mas isso é um conjunto de dados, que interpretados de determinada maneira, produzem um efeito (e não estou dizendo que temos controle inicialmente sobre como enxergamos fisicamente algo, pois as coisas realmente nos aparecem naquele aspecto). Mas, em si, aquilo não é nada; é um conjunto de dados que dependem de uma interpretação para ganhar forma: a aparência, o aspecto que têm para nós.

Mas e daí?... Daí que a sensação quando estamos perto de Rinpoche fica tão boa porque ele emana esta energia de espaço, por estar vivo, respirando, consciente, e desperto o tempo todo na qualidade do Vazio. Tudo se transforma no infinito espaço da Vacuidade. E na Vacuidade tudo fica automaticamente puro. A sensação não é de excitamento, mas tem uma qualidade de conforto e relaxamento que todos passam a experimentar quando estão na presença dele. Pela dissolução dos fenômenos no espaço, a natureza pura aparece e passamos a sentir a suavidade e a gentileza.

Uma vez conversando com Rinpoche (eu estava muito mal, na verdade, por um fato ocorrido), ele me disse: "phenomenons you can not trust! It is all like illusion"... Algo mais ou menos como: "não dá para confiar nos fenômenos... é tudo como ilusão". Eu fiquei perplexa, me senti completamente sem chão... E ele falou sem rodeios; não contemporizou. Tirou meu tapete quando implicitamente disse: "o que você está esperando, está indo buscar no lugar errado..." "Os fenômenos não podem te dar isso"...

Ele não disse nada a respeito de desistir da vida... Falava da expectativa em relação aos fenômenos. Ele não estava sendo frio, mas tampouco tentou minimizar a minha dor... Não era algo como "esquece o que te aconteceu", porque não tinha a ver com aquele acontecimento específico, simplesmente porque qualquer acontecimento, ou fenômeno, não pode nos fornecer as garantias que buscamos, que esperamos e que desejamos.

Os fenômenos são mais ou menos como o clima: um conjunto de causas e condições faz com que hoje chova, e amanhã faça sol. Pode haver duração e ciclo, mas você não pode se apoiar nisso porque é certo que mudará. De fato, Rinpoche diz: "não devemos confiar em algo, e sim no estado de confiança". Confiar em algo equivale a apoiar-se nos fenômenos. Às vezes conseguimos sentir confiança, mas sem depositar nossa expectativa em alguma coisa específica. É isso que quer dizer "o estado de confiança", que preserva a abertura do Vazio.

Nada do que é manifesto no mundo aparente pode nos dar o que esperamos, porque os fenômenos não têm esta propriedade. Como esperar substância de uma miragem? Ao invés disso, Lama Gangchen dança no Vazio... E ele não deixa de saborear a experiência, ele dança e brinca SuaveMente na impermanência dos fenômenos. ContinuaMente por enquanto...

Eu não espero que você entenda intelectualmente o que foi dito. Espero apenas que não se endureça... Que não rejeite e que, simplesmente, fique com isso, sem fazer nada com isso. Essa é a qualidade do espaço que tanto buscamos e que precisamos desenvolver.

Nesta qualidade do espaço está a suavidade que sentimos quando estamos com Rinpoche. Ele não muda nada... E ele não precisa ser mudado por nada. E tudo passa a fluir sem ter feito nada. Pelo poder do Vazio. Pela benção do Vazio. É por isso que situações tão difíceis podem mudar.

E essa é a nova suavidade possível.

Como se diz numa oração budista tibetana:

"Gentil Lama, Senhor que emana e reabsorve um oceano de infinitos mandalas, aos seus pés eu peço". A mente de cristal, livre das próprias adições e não contaminada, surge do vazio e, como numa respiração, cria um oceano de infinitos mandalas e os reabsorve. A realidade se constrói e se desconstrói, de momento a momento, gerando e reabsorvendo estes infinitos mandalas.

Texto revisado


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Sobre o Autor: Isabela Bisconcini   
Isabela Bisconcini é Psicóloga Clínica e Consteladora Sistêmica. Terapeuta EMDR. Terapeuta Floral, Reiki II, NgalSo Chagwang Reiki, AURA-SOMA. Deeksha Giver. Dedicou-se por 25 anos ao estudo da psicologia budista e prática do Budismo Tibetano. Participou do Centro de Dharma da Paz desde 1988, quando Lama Gangchen Rinpoche o fundou.
E-mail: [email protected]
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