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Uma dor na alma

por Milton Menezes

Publicado dia 10/7/2008 em Espiritualidade

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P.C. era um homem com presença marcante onde quer que chegasse. Olhos vivos, fala fluente e envolvente. Professor universitário,destacara-se no desenvolvimento de projetos de pesquisa na área de engenharia de produção, que o colocaram, durante algum tempo, em evidência nacional e internacional. Hoje, com 42 anos, tinha uma carreira sólida, mas sua história de sucesso profissional sempre foi acompanhada de uma dor, silenciosa e tenaz.

Desde que seus primeiros trabalhos de pesquisa vieram à discussão acadêmica, começou a desenvolver uma forte dor nas costas, na altura da coluna cervical. Todos os esforços em solucionar o problema resultaram em fracasso. Acreditava tratar-se de algum desvio de coluna, talvez causado pelas horas excessivas diante do computador, talvez uma posição inadequada de sentar. O fato é que tinha que conviver com longos períodos de dor e desconforto. A acupuntura trouxera um pouco de alívio, apesar das necessárias aplicações freqüentes para manter a dor sob controle.

P.C. queria saber se essa dor poderia ter algum componente inconsciente que estivesse associado a algum trauma do passado. Ele tinha uma vasta leitura e cultura geral; tinha se debruçado, durante algum tempo, na leitura de livros que falavam da terapia de vida passada como forma de desbloqueio de traumas de outras vidas. Quando apresentamos nossa forma de trabalho, coloquei uma pergunta que, depois, veio a me confessar, ficara em sua mente:
“Mas porque você estaria identificado a esse trauma causador da dor e não a outro qualquer?”

Começamos o tratamento e, quando começamos a colocá-lo em regressão, P.C. demonstrou ser um indivíduo com grandes facilidades de entrar em estados ampliados de consciência. Tinha o que chamamos de regressão vívida, ou seja, revivia com intensidade emocional e física os eventos que recordava de seu passado.

Na primeira sessão de regressão, P.C. se reconhece como um líder de pequeno povoado à beira de um rio caudaloso, fonte das principais necessidades de sobrevivência. P.C. se vê como um homem muito cheio de si, apesar de trabalhador e honesto. Chegara à liderança do povoado por sua grande capacidade de mobilização e por suas idéias fortemente defendidas e colocadas em prática. Era um destemido. E se orgulhava disso. Chegava, muitas vezes, à beira da presunção de ser o mais inteligente e capaz dentre todas as pessoas que conhecia. Isso lhe trazia a autoconfiança necessária a um líder, mas, também, a cegueira em relação aos limites do nosso conhecimento.
Em determinada época, repetiram-se períodos de enchentes que ameaçavam a segurança do povoado. Era preciso tomar uma providência. Reuniu-se o conselho da cidade que participava das decisões que afetavam a administração do povoado. A maioria era favorável à mobilização dos homens para a construção de uma espécie de barragem que protegesse o povoado de uma possível nova enchente. Mas isso comprometia a produção de gêneros, já que a mobilização dos homens reduziria a força produtiva. O personagem de P.C. assume uma posição isolada, contrária à construção da barragem. Achava que era um exagero essa mobilização toda, algo desnecessário. Depois de longa discussão, o líder pressiona e assume os riscos de sua decisão: não vão construir barragem alguma e os homens continuam na produção para garantir o sustento da comunidade.

Dias depois, acontece o inevitável. Uma tempestade eleva de tal forma o nível das águas que inunda o povoado. A correnteza leva de roldão casas, parte da plantação preparada para o futuro e, principalmente, muitas pessoas. Ao perceber a gravidade do que está acontecendo, o nosso líder comunitário se junta aos demais na tentativa de salvar o que for possível, sem muito sucesso.
Passado o temporal e a enchente, P.C. tem que enfrentar a situação. Reconhece intimamente a sua decisão equivocada diante da maioria que queria segurança, mesmo que com restrições de comida. Entretanto, diante das pessoas do povoado, manteve sua postura defendendo a decisão como sendo a mais adequada. Sofre as acusações das pessoas insatisfeitas com o desfecho da situação. Perde o cargo de líder e se refugia em lugar próximo ao povoado. Corroído pela culpa, mas sem se dar conta de seu extremo orgulho, decide se matar, diante da vergonha. Atira-se de uma pedreira, morrendo em função da queda. Ao vivenciar a morte percebe a queda com intensidade física, sofrendo os efeitos da quebra de vários ossos. A principal dor está nas costas, no mesmo ponto onde se localiza a dor da vida atual. Tínhamos encontrado a origem da dor, o trauma gerador que repercutia até hoje no seu corpo físico. A culpa e a queda ficaram como que condensadas no seu psiquismo.
Ao terminar a sessão, já fora do estado ampliado de consciência, perguntei a P.C. o que mais tinha lhe chamado a atenção na vivência.
Ele relata a experiência de ver as pessoas sendo levadas e ele tomando a decisão de não fazer a barragem. Falamos sobre culpa, perdão e autoperdão. Ele saiu mais reconfortado e sem dores.

Quinze dias depois, ao retornar para sua nova sessão, abordou-me de imediato sobre algo que não saía de sua cabeça. Continuava com a dor nas costas, apesar de bem mais leve, é verdade. Ao fazer a tarefa de casa que eu passara sobre a vivência, relata que voltava a pensar insistentemente na pergunta que eu lhe fizera sessões atrás: “Mas por que esse trauma? Por que essa dor hoje?”

Fizemos um novo trabalho retornando à mesma vivência, revivendo o personagem. Desta vez facilitamos para que ele percebesse o que era semelhante ainda hoje na sua forma de ser e de agir. P.C. tomou um verdadeiro choque. Não era só uma questão de culpa. Percebeu como ainda hoje era presunçoso e, às vezes, arrogante com seu conhecimento e sua posição na Universidade. Repetia uma posição de vaidade em relação a isso. Pôde reconhecer que sua morte naquela existência foi decorrência desse orgulho, ferido em sua estrutura de superioridade. Matara-se por não conseguir enfrentar a necessária humildade de reconhecer que estivera equivocado, de se desculpar com aquelas pessoas, de procurar reparar as conseqüências de sua decisão de uma forma mais madura.

As lembranças desse passado e a própria dor o colocavam diante de uma consciência que nunca cogitara: era preciso transformar essa forma de ver a vida e a si mesmo. Poderia crescer com os outros, mantendo o respeito às pessoas que não sabiam tanto quanto ele. E também ser capaz de ouvir e aceitar quando suas idéias fossem questionadas. Somente quando se deu conta do esforço que precisava empreender para mudar esse traço de caráter e começou, efetivamente, a mudá-lo em seu dia-a-dia, P.C. se libertou das dores. Na verdade, se libertava desse passado presente e transformava-se para seu futuro.

Texto revisado por: Cris

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Sobre o Autor: Milton Menezes   
Milton Menezes - Presidente do Instituto Vita Continua. www.vitacontinua.com.br Presidente do 3º Congresso Mundial de Terapia Regressiva no Brasil.
E-mail: [email protected]
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