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Encontros e desencontros do Caminho - Capítulo 12 - 3a. parte



Depois de fotografar, iniciei minhas orações. Estava só ou quase, já que meus amigos e meus protetores me acalentavam. Agradeci por superar os obstáculos, o imprevisível, o desconhecido, o inesperado e o que estava para acontecer. Os outros peregrinos seguiam a trilha nas montanhas. Eu havia entrado por um desvio para poder atingir o ponto mais alto. Rezei e me emocionei. Acima de mim, só o céu. Foi como falar com Deus. Inesquecível. Eu, que queria tanta privacidade e isolamento, afinal podia desfrutar, naquele momento, de tanta intimidade. Graças a Deus por tudo em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
Continuei o caminho e o verde foi ficando cada vez mais verde. De repente, passei por El Acebo, um cenário de um filme irresistível. Eu queria pegar, apalpar. Tudo era muito bonito: uma aldeia de 300, 400, 500 anos, super conservada, com suas casas genialmente construídas. Cachorros enormes, soltos brincavam, nem um pouco preocupados com os peregrinos. Alguns dormiam, outros circulavam. Mais trilhas e cheguei a Riego de Ambrós. Outra aldeia maravilhosa, não se via quase ninguém. Algumas casas fechadas para uso nas férias. No inverno deve ser uma delicia.
Continuei pelo caminho e logo após Ambrós, alcancei um bosque com riachos, árvores e pássaros. Parei em um descampado e, pela primeira vez no caminho, pude meditar solenemente. Relaxei, em pé, apoiado com as mãos e o queixo sobre o meu cajado. O ruído era dos galhos e folhas, água e pássaros. Exercitei a mente vazia e comecei a descobrir um outro caminho. A natureza e eu. Tudo o que eu queria desde quando comecei a pensar na viagem. Mochila no chão, peguei umas barras de cereais, água e suco e comi com a certeza de que não estava sozinho. Finalmente, eu tinha companhia. Presente, mas não visível. Talvez algum peregrino de ontem ou do futuro.
Fiquei imaginando como os peregrinos agiam a centenas de anos atrás, naquele mesmo lugar. Quantos milhões de pessoas passaram por aquele ponto onde eu estava? Quantos milhares jogaram suas coisas no chão para beberem água e apreciarem a natureza? Agora, eu tinha muitos acompanhantes. Saudei a todos em voz alta, agora que eu também fazia parte da história deles e eles, da minha. De repente, surgiram três jovens seguindo o caminho. Me cumprimentaram. Não sei o que viram, mas eu estava feliz. Mochila nas costas, tudo em cima, fui em frente.
Tempos depois, passei perto de árvores enormes em um pequeno bosque. Algumas tinham troncos com seis, sete, oito metros de diâmetro, todas centenárias. Acariciei algumas e dei graças a Deus por criar tão solenes e nobres símbolos da natureza. As árvores sempre me fascinaram. Quando estudei no jardim de infância do Clube Pinheiros, os espaços eram enormes. Poucas construções. A escolinha ficava em um casarão na parte superior. No térreo, um pequeno ginásio de halterofilismo. No lanche, uma deliciosa salada de frutas e bolachas Maria. As crianças corriam e brincavam em grandes gramados. Às vezes, chovia e foram grandes as oportunidades que eu tive de ser abrigado por frondosas árvores e desfrutar do cheiro delicioso da chuva escorrendo pela folhagem.
Conversei com as árvores. Agora, com certeza, eram muitos os assistentes: pássaros, insetos, peregrinos do passado, viajantes, soldados e todo um mundo que lá viveu momentos deliciosamente bons, como os que eu estava vivendo. No castelo de Castrojeriz, como no castelo de Burgos, tive a sensação de ter estado por lá séculos antes. No bosque, junto às árvores, senti o mesmo. Encostado em uma delas, sentei em um banco improvisado com duas tábuas pequenas de uma velha madeira. A mochila nas costas me servia como encosto. Outra vez, as mãos no cajado, os olhos fechados. O trânsito de pessoas e de cavalos, na minha imaginação, era enorme, mas consegui relaxar.
Um ronco de motos, ao longe, me dispersou. Ou havia alguma carretera próxima ou o eco ou a propagação do ruído tinham chegado a mim. Abri os olhos e me vi sozinho. Segui o caminho. Tive vontade de ir um pouco pela carretera, mas continuei na trilha. Erro meu. De tanto tirar e colocar a mochilla, um dos lados ficou menos ajustado de que o outro. O caminho tinha uma forte descida, havia muitas pedras, às vezes, ele era muito estreito. Os rins começaram a doer. A descida não acabava. Eu estava feliz porque há horas andava pelo caminho verdadeiro, na trilha original. Quando retornei à carretera, estava exausto. Cheguei a Molina Seca. Tirei a mochila, bebi água e fiz um pequeno alongamento. Senti que estava melhor. Fiquei sossegado. Não era problema de saúde. Tinha sido apenas um descuido meu no caminho.
Passei por Villafranca del Bierzo e cheguei a La Portela de Valcarce, onde fiquei em um hostal na beira da estrada, um dos mais baratos que conheci. Gente simples, mas alta tecnologia. Esplêndidas as acomodações e uma vista maravilhosa, com terraço e tudo. Bom para secar a roupa. Eu lavava roupas todos os dias. E tomava banho também. Neste lugar, tinha uma banheira enorme e até saquinhos de espuma. 1,2,3 e lá estava eu na banheira cuidando dos pés, pernas, costas e cabeça.
Estava faminto, precisava ir ao comedor. Desci pelo elevador e, quando a porta se abriu, ouvi muitas vozes. Da recepção, vi uma lanchonete e um restaurante lotados. Parecia que a Espanha toda estava ali. Eu de bermuda, camiseta e havaianas, com os pés cheios de curativos. E as pessoas todas bem vestidas. Não me lembrei que era sábado à noite.
Na Espanha, a hora de comer e de beber é sempre uma cerimônia. Encarei a situação e fui até o restaurante. Na televisão, o Exterminador do Futuro em espanhol. Era engraçadíssimo. Como para eles seria engraçado se estivessem no Brasil ouvindo a dublagem em português. Enquanto comia, notei três homens sentados em uma das mesas. Conversavam com gestos. Linguagem das mãos. Eram mudos. Um deles se irritou e foi abaixar o volume da televisão. Fiquei observando. Ninguém se incomodou. Voltei para o quarto, falei com meu filho, liguei a TV, passava o Big Brother espanhol. Se no Brasil já é o fim final, na Espanha então... Desliguei e dormi. Sonhei e acordei.
Saudades do caminho, das árvores, dos acompanhantes e dos pássaros. A parada era ir até O Cebreiro. Do ponto em que eu estava, eram 16 quilômetros de subida. Coisa brava, imaginei. Fiquei no hostal mais um dia para cuidar dos pés e da cabeça. Escrevi, fiz alongamentos tomei banho e desci. Já era início de noite, o tempo havia passado e eu não tinha me dado conta. Domingão na Espanha. Outra multidão. Todo mundo comendo e bebendo. Na TV, jogo entre Real Madrid e La Coruña, 0 x 0. De repente, gol do La Coruña, uma gritaria enorme entre a maioria das pessoas. Me dei conta que estava perto da Galicia, que muita gente estava a caminho de casa e, portanto, eram torcedores do La Coruña.

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Publicado dia 18/2/2006
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Autor: Fernando Tibiriçá   
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