A autoestima (delirante) do homem hetero, cis, branco!
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 2/18/2026 7:03:35 PM
Muito se fala em "querer a autoestima de um homem hétero cis branco".
Como se ali houvesse uma confiança exemplar, um amor-próprio invejável, uma saúde psíquica a ser alcançada.
Mas talvez seja preciso nomear melhor as coisas.
Isso não é autoestima.
É privilégio naturalizado.
O homem hétero cis branco, em nossa organização social, cresce sustentado por um discurso que o coloca no centro: sua palavra vale mais, seu desejo é tomado como medida, sua presença raramente é interrogada. Ele não precisa se perguntar se tem direito de ocupar espaço, o espaço já lhe foi dado. Isso não produz um Eu elaborado; produz uma imunidade simbólica à dúvida.
Do ponto de vista psicanalítico, o que se vê com frequência não é força narcísica, mas um narcisismo frágil e ruidoso, que não suportou a queda do trono infantil. Aquele momento estrutural em que o sujeito deveria elaborar que não é tudo para o Outro, que não é o centro do desejo, que o mundo não gira ao seu redor.
Muitos desses homens permanecem fixados numa masculinidade presa à fantasia infantil de onipotência: exigem reconhecimento incondicional, não toleram frustração, entram em colapso diante do limite. Quando contrariados, não elaboram, atacam. Quando perdem privilégios, falam em injustiça. Quando deixam de ser o centro, acusam o mundo de exagero, vitimismo ou decadência.
Essa "autoestima" se sustenta, então, numa fantasia delirante de centralidade. E é justamente aí que ela se mostra frágil: basta a crítica, a recusa, o não e tudo desmorona.
O que aparece não é segurança psíquica, mas incapacidade de lidar com a castração.
Esse fracasso na elaboração da castração aparece também na relação desses homens com a própria sexualidade.
Trata-se, muitas vezes, de uma sexualidade pouco simbolizada, vivida mais como prova de potência do que como experiência de encontro.
O sexo deixa de ser lugar de alteridade e passa a funcionar como confirmação narcísica: performar, conquistar, dominar, corresponder a um ideal viril.
Por isso, qualquer deslocamento, desejo que falha, excitação que não vem, parceiro(a) que não responde é vivido como ameaça identitária. O homem não se pergunta sobre seu desejo; ele entra em pânico diante da possibilidade de não encarnar o ideal de masculinidade que lhe foi prometido. O resultado é um desencaixe radical entre corpo, desejo e palavra.
E nesse desencaixe, as redes sociais tornaram-se um terreno fértil: conselhos e "guias de relacionamento" que ditam com qual tipo de mulher se deve ou não se relacionar, como se soubessem qual é o desejo feminino, proliferam amplamente. Perfis e comunidades propagam noções como "não se relacione com mulheres com X característica" ou "tatuagens de borboleta significam Y perfil que você deve evitar", exemplos diretos da tentativa de controlar, rotular e reduzir a mulher a catálogo de escolhas, como se ela fosse um objeto a ser qualificado e descartado.
Esse tipo de discurso, muitas vezes associado à chamada machosfera ou "coach/terapeuta de relacionamentos", não só reforça estereótipos reificados sobre gênero, como se alimenta de uma lógica de superioridade masculina que tenta enquadrar o desejo e as escolhas femininas em categorias rígidas e prescritivas.
É a partir desse ponto que surgem, de forma quase lógica, os discursos redpill e suas variações.
Quando esse homem se depara com o real: mulheres que não o escolhem, sujeitos que não o reverenciam, um mundo que não o confirma, ele não elabora a perda.
Ele constrói um delírio organizado para não ter que atravessar o luto do trono perdido.
Os redpills, as teorias sobre "energia masculina e feminina", os manuais de dominação afetiva, as narrativas conspiratórias sobre feminismo, pessoas LGBT+ ou "degeneração moral" funcionam como defesas contra a castração. Não explicam o desejo; explicam a frustração. Não produzem laço; produzem inimigos.
Na clínica isso é evidente:
quando o sujeito não suporta não ser tudo para o Outro, ele precisa inventar um culpado.
Se não sou escolhido, é porque "elas são hipergâmicas".
Se não sou desejado, é porque "o sistema está corrompido".
Se não mando mais, é porque "o mundo enlouqueceu".
Esses discursos oferecem três promessas fundamentais:
um culpado externo, uma promessa narcísica ("você é especial, despertou") e um roteiro de controle para restaurar artificialmente o lugar perdido.
Por isso são tão violentos.
Eles não falam de masculinidade, falam de pânico diante da perda de poder.
Não falam de encontro, falam de posse.
Não falam de desejo, falam de domínio.
Quando a palavra falha e a elaboração simbólica não acontece, a pulsão encontra outros destinos: ódio, agressividade, fantasia persecutória e, em seus extremos, a violência e o assassinato. Não por acaso, muitos crimes de ódio e atos extremos têm raízes em narrativas online que reforçam essa lógica de auto-vitimização masculina associada à misoginia e culpa as mulheres por frustrações pessoais.
As falácias sobre "energia masculina e feminina" são apenas biologizações místicas do patriarcado: tentativas de naturalizar hierarquias para não lidar com o fato mais insuportável de todos, o desejo não garante nada, não obedece, não repara feridas narcísicas.
Talvez o que tantos invejem não seja autoestima, mas a tranquilidade de quem nunca precisou justificar sua existência, seu desejo ou seu lugar no mundo.
Mas isso não é saúde psíquica. É delírio sustentado socialmente. E nenhum delírio, por mais aplaudido que seja, dá conta do real da castração.
E isso, definitivamente, não é saúde psíquica.
É privilégio.
E privilégio não cura ninguém
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |
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