A decepção não começa no outro.
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 2/18/2026 6:38:58 PM
A decepção não começa no outro.
Começa no ponto em que fizemos do outro resposta para o que faltava em nós.
Não nos apegamos apenas a alguém.
Nos apegamos à função que essa pessoa passa a ocupar na nossa economia psíquica. Ela vira promessa.
Vira garantia silenciosa de que algo em nós, enfim, se estabilizaria.
O problema é que ninguém sustenta para sempre o lugar de solução do outro.
Quando a decepção acontece, não é só o vínculo que se abala.
É a fantasia que organizava aquele vínculo que se rompe.
E com ela cai a ideia, muitas vezes inconsciente, de que havia ali uma completude possível.
Por isso dói tanto.
Não é apenas uma frustração.
É a perda de uma construção psíquica.
Na clínica, é comum perceber que a decepção toca algo mais antigo do sujeito: a esperança de que exista um encontro capaz de reparar uma falta estrutural.
Mas é importante lembrar que a falta não é um erro da história. Ela é condição do desejo.
É suportar que o outro não veio para tamponar nossa falta.
É aceitar que amar não é garantir permanência, muito menos assegurar reciprocidade absoluta. É deslocar o outro do lugar de solução, de peça faltante.
Isso nos torna mais responsáveis pela própria posição que ocupamos no laço.
Renunciar à fantasia de completude e, ainda assim, achar possibilidades para continuar desejando.
Percebam nenhuma teoria impede a decepção. Ela acontece.
O ponto não é evitá-la é interrogar o lugar que o outro ocupava para nós quando ela aconteceu.
Claro que há responsabilidade do outro. Relação é sempre entre, no mínimo, dois.
Mas o modo como cada um investe, idealiza e sustenta uma fantasia não é simétrico.
A perda é real.
O trabalho subjetivo é sobre o que fazemos com ela.
O chão é o que é.
O que muda
é o jeito que a gente pisa.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
|
Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |
Deixe seus comentários:










in memoriam