A gente pode tentar ser muito perfeito. Ainda assim, o outro pode ir embora.

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Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 3/4/2026 6:58:55 PM


Há um momento da vida em que o narcisismo sofre uma pequena rachadura e por essa fresta entra o real.

A gente cresce acreditando, em alguma medida, que se fizer tudo certo, será amado. Que existe uma equação secreta entre esforço e permanência. Como se o amor fosse uma recompensa por bom comportamento. Como se o desejo do outro obedecesse à nossa planilha emocional.

Mas não obedece.

É um furo no narcisismo descobrir que o amor não é um contrato de desempenho. Que o outro não nos ama porque fomos suficientes, nem nos deixa porque fomos insuficientes. O desejo não funciona como boletim escolar. Ele não responde a currículo, dedicação ou excelência afetiva.

Freud já apontava que o amor toca o nosso ponto mais infantil: a fantasia de sermos insubstituíveis. Sigmund Freud nos ensinou que amar é sempre colocar o próprio narcisismo em risco. Amar é expor-se à possibilidade de não ser escolhido. E isso dói porque desmonta a ilusão de controle.

A gente pode tentar ser muito perfeito. Pode antecipar necessidades, calar conflitos, moldar o próprio desejo para caber no desejo do outro. Pode virar especialista em agradar. Ainda assim, o outro pode ir embora.

E quando vai, não é só a pessoa que se perde, perde-se também a fantasia de que bastava fazer direito.

Descobrir que o amor do outro não depende apenas de nós é experimentar um certo desamparo. Mas é também uma chance de sair da lógica da performance. Porque, se o amor não se garante pelo esforço, talvez possamos começar a amar sem essa cobrança silenciosa de merecimento.

Não é sobre desistir do cuidado. É sobre reconhecer que o desejo é estrangeiro. Ele não é domesticável. Ele não é fiel à nossa dedicação.

Talvez o convite seja aprender a sustentar essa verdade sem transformar o abandono em prova de falha pessoal.
O outro pode ir embora não porque faltou algo em você, mas porque o desejo dele caminha por trilhas que não nos pertencem.

E isso fere.



Mas também nos devolve algo precioso: a possibilidade de existir para além da tentativa incessante de ser escolhido.


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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