A nossa tara pelo inacessível
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 9/3/2026 9:32:57 AM

Olhar para os relacionamentos hoje dá um cansaço danado, parece que está todo mundo com o pé atrás, olhando para a tela do celular como se estivesse escolhendo um produto num cardápio onde qualquer defeito é motivo para descartar e partir para o próximo.
A gente reclama que não tem ninguém disponível, que as pessoas sumiram, que ninguém quer nada com nada, mas desejar quem não pode ficar também é um jeito bem seguro de continuar desejando sem correr risco nenhum.
A gente reclama que não tem ninguém disponível, que as pessoas sumiram, que ninguém quer nada com nada, mas desejar quem não pode ficar também é um jeito bem seguro de continuar desejando sem correr risco nenhum.
Choramos a ausência do outro e lamenta a falta de sorte no amor, mas o indisponível funciona como um esconderijo perfeito. Apaixonar-se por alguém que mora longe, que é casado, que some por dias ou que deixa claro que não quer compromisso nos protege do perigo real de uma relação de verdade dar certo. É que o desejo se alimenta da falta, do mistério, e quando a gente escolhe o impossível, esse sentimento fica garantido para sempre, protegido em um pedestal onde nada desbota e ninguém machuca.
Quem não está por perto nunca vai nos decepcionar no cotidiano, nunca vai deixar a toalha molhada na cama e, o mais importante, nunca vai embora, porque afinal nunca esteve lá. A fantasia do amor idealizado no aplicativo é muito confortável, mas o amor real dá medo e exige que a gente tire a armadura, porque estar com alguém de verdade significa correr o risco de ser vista por inteiro, com todas as nossas imperfeições, chatices e fragilidades.
Essa nossa obsessão pelo impossível, bem na época em que tudo parece tão difícil, é uma sabotagem fantasiada de romantismo. É a garantia de que a gente nunca vai precisar lidar com o peso da realidade, porque é mais fácil passar a vida chorando por quem nunca vem do que bancar a coragem de abrir a porta para quem quer entrar. No fundo, a indisponibilidade do outro costuma ser o espelho da nossa própria indisponibilidade para o afeto. A gente se ocupa tanto tentando conquistar quem foge que não sobra espaço para se entregar a quem fica, e o luto mais difícil não é pelo fim da história com o outro, mas por perceber que o que a gente defendia como paixão era só o medo de viver.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |









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