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CANSEI: FOI POR MEDO DE AVIÃO (UM PAÍS EM QUEDA)

por GUIMARÃES ORTEGA

Publicado dia 5/3/2009 em Psicologia

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Já havia passado alguns dias do acidente aéreo e a cidade parecia recuperar suas feições cotidianas. O comércio, os ambulantes, os carros, os restaurantes, enfim, tudo acaba se normalizando e o turbilhão da grande cidade continua acontecendo naturalmente. Já não se comenta tanto sobre o acidente, como ocorreu nos primeiros dias. A vida começa voltar à sua normalidade e as pessoas seguem seu destino naturalmente.
Porém uma cena quebrou a suposta normalidade, pois aconteceu de forma inesperada diante de todos os transeuntes, mas principalmente dos passageiros que se encontravam dentro daquele ônibus, naquela manhã fria e cotidiana em uma avenida congestionada da capital.
Um homem vestido de verde e amarelo (calça verde e camiseta amarela com detalhes em azul e estrelas brancas) fazia macaquices no canteiro central da avenida. Além da roupa exótica e nacionalista, um detalhe curioso chamava bastante a atenção em sua indumentária: tinha sobre a cabeça um chapéu em forma de avião, onde estava escrito “CANSEI”, como marca ou logotipo de uma possível companhia aérea.
O trânsito encontrava-se caótico, totalmente engarrafado no sentido centro da cidade, e o ônibus parado parecia não querer atender à necessidade dos passageiros. Seres tensos, nervosos e revoltados, pois acabariam chegando atrasados ao trabalho. Algo que já era uma rotina, mesmo enfrentando a falta de compreensão do patrão.
Aquele homem com sua vestimenta estranha acabou aliviando a tensão dos passageiros que comentavam entre si, rindo, as estripulias do personagem que pulava, dançava, gesticulava, corria entre os carros parados no congestionamento e fazia caretas para todos. Em dado momento parava e gritava uma única palavra: “cansei!” Depois voltava para o canteiro central e retomava sua maratona de estripulias.
De repente resolveu mexer com os passageiros do ônibus, e passou correndo pela lateral batendo nas janelas, rindo e gritando “CANSEI!” Bateu desesperadamente na porta tentando entrar, mas o motorista não permitiu. Acabou subindo no pára-choque dianteiro do ônibus e abrindo os braços sobre o pára-brisa, mostrou a língua para o motorista. A gargalhada foi geral e a descontração instantânea, com o motorista dirigindo impropérios ao aviador maluco.
O tempo ia passando naquela manhã cinzenta e fria, o trânsito não fluía e o homem com seu avião não parava um segundo sequer. Gritava, corria e fazia gestos imitando um avião em pleno vôo. De repente, num impulso inesperado para as evoluções que apresentava, atravessou a avenida correndo e desapareceu no saguão de um prédio antigo. Era um edifício comercial com varandas abertas para a avenida que parecia apreciar cômoda e tranqüilamente o desenrolar da cena que se passava à sua frente, com o trânsito maluco e congestionado: o dia que começava com feições carrancudas e o homem que desapareceu em suas entranhas.
As pessoas pareciam curiosas, principalmente aquelas que se encontravam dentro do ônibus. Olhavam através da janela à procura do homem-avião, mas aparentemente não teriam uma resposta, pois o trânsito resolveu fluir lentamente, e o ônibus seguiu viagem metro a metro, parando e seguindo, seguindo e parando.
Todos voltaram os olhos para o prédio em busca do homem PAN-AIR (que nos tempos atuais acaba sendo homem TAM em virtude dos acontecimentos recentes). O homem e seu nacionalismo maluco, o homem e seu protesto, o homem e suas verdades mostradas na avenida, no trânsito, no ônibus e agora no prédio velho e aberto para o horizonte da cidade.
Quando o ônibus já se afastava alguns metros do prédio, eis que surge na varanda do terceiro andar um vulto verde e amarelo com os braços abertos em forma de asas, e se atira no espaço como se quisesse ou pudesse voar.
Não foi possível ver a queda em seu momento final, com o homem estatelado no asfalto negro, já que o ônibus seguia lentamente seu curso deixando os passageiros, o motorista e o cobrador boquiabertos e mudos de espanto.
Pista de pouso, de queda, de morte. Lugar propício para uma nave que encontrou uma forma de protestar contra algo que a incomodava. Mas a imagem que ficou é que existe um momento em que é necessário dar um basta e tomar uma atitude. Não necessariamente pular da sacada de um prédio, mas agir de alguma maneira contra situações ou atitudes que ferem os princípios do cidadão.
E foi o que o motorista do ônibus fez: parou repentinamente o veículo bem no meio de um cruzamento, abriu a porta dianteira, levantou-se e virando para os passageiros, gritou:
- Eu também cansei!
Em seguida desceu do ônibus e foi embora correndo entre os veículos à sua frente gritando “cansei”, deixando as pessoas totalmente abobalhadas, entreolhando-se, sem saber o que fazer. Nisso, o cobrador, em um ato repentino, também resolveu tomar uma atitude. Pulou a catraca, dirigiu-se para frente do ônibus e virando-se para os passageiros, gritou:
- Vamos, desçam todos! Eu também cansei!
Ninguém se mexeu. Todos pareciam grudados no chão, sem acreditar no que estava acontecendo.
- Vamos, já falei! Desçam logo!
Alguns iniciaram um tímido protesto, mas sem muita convicção.
- A viagem de vocês termina aqui. Agora, só voando. É o que vou fazer: voar para bem longe daqui! Um lugar onde eu possa gritar bem alto: CANSEI!
Não contente, começou a empurrar as pessoas em direção à porta. Que acabaram cedendo pois perceberam que ele estava alucinado, completamente fora de si. Lentamente foram descendo, um a um, até deixar o cobrador sozinho no ônibus vazio.
Os veículos em volta buzinavam sem parar, pois viam o ônibus parado no meio do cruzamento sem entender o que estava se passando, atrapalhando o trânsito que agora fluía continuamente, embora de maneira bastante lenta.
O cobrador, num ato repentino sentou no banco do motorista, engatou uma marcha e acelerou, colocando o veículo em movimento. De repente deu uma guinada para a esquerda, quase provocando um acidente com os veículos que se encontravam a seu lado. Sem prestar atenção nos demais, adentrou ao cruzamento e seguiu viagem, agora na pista contrária. Por sorte a pista no sentido bairro encontrava-se praticamente vazia, com poucos veículos que conseguiam desviar do ônibus, não sem algum protesto, com o acionamento contínuo das buzinas.
No princípio lentamente, aquele bólido foi ganhando velocidade e continuou seguindo na contramão, com o cobrador em busca de seu destino, provavelmente gritando “CANSEI”. Após uma freada brusca em que cantou os pneus e desviou de outro veículo que vinha em sua direção, deu uma pequena parada, centenas de metros adiante, para dar uma carona ao motorista, e ato contínuo seguiu em frente a toda velocidade...

Texto revisado por Cris

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Sobre o Autor: GUIMARÃES ORTEGA   
Escritor, jornalista, com nove obras escritas e cinco publicadas. Veja no item "produtos".
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