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KALA, uma ilusão necessária



É interessante notar como que as diferenças ideológicas e culturais entre alguns povos vão para além das aparências e são intrínsecas no modo de ver e se relacionar com a vida. A perspectiva materialista, por exemplo, se apresenta, entre muitas outras coisas, na forma de construção da linguagem, elaborada pela necessidade de se utilizar muitas palavras para poucas ideias levando a uma fragilidade na comunicação e enganos de interpretação, onde a pretensão da verdade gera conflitos.

Por outro lado, outras culturas, mais sintéticas, tendem a se utilizar de um número menor de palavras que dizem muito mais, talvez porque ninguém queira impor certezas mas apenas expressar sentimentos e compartilhar uma compreensão da vida.

Dentro desse contexto me foi apresentada a palavra do dicionário havaiano KALA que, entre alguns significados, traduz o pensamento de que “a separação é uma ilusão útil”. E, se a palavra Kala em si mesma já traz uma riqueza de possibilidades, neste significado em especial nos relança a uma infinidade de percepções, a começar pelas indagações: a separação é uma ilusão? E, neste caso, seria útil em qual sentido?

Claro que, para todos aqueles mais familiarizados com leituras sobre Física Quântica, Teoria Sistêmica, Ressonância Mórfica, a separação não existe já que estamos todos mergulhados e somos peças projetadas de um grande campo quântico ou de um sistema cósmico ou ainda de um campo mórfico universal, só para citar algumas nomenclaturas. Em um poema de rara oportunidade, Peter Tompson termina dizendo: “não poderás tocar uma flor sem que faças uma estrela tremer”. A ilusão da separação surge exatamente no momento em que transitamos do reino animal para o hominal, onde ganhamos “consciência de si mesmo”, passando à percepção de que existimos e existe um mundo alheio a nós. Aí a sensação da separação, bem ilustrada na figuração bíblica de Adão e Eva sendo expulsos do paraíso, o paraíso da interação plena com a natureza, onde ainda havia a sensação de pertencimento que se perde na aptidão para a racionalidade e o surgimento do EGOcentrismo.

Isso tudo acontece não como um erro da natureza mas para a consolidação de um plano maior da consignação do indivíduo. O orgulho, nascido nesse momento, vem como um instinto de preservação da nova vida que se instala na individualidade, que é a vida mental, racional, afetiva e psicológica.

Então, por isso a separação como uma ilusão necessária, porque faz com que nos percebamos individualidades conscientes. O curioso é que isso se mostra como um movimento do universo tentando, através de suas projeções, que somos nós mesmos, tornar-se consciente de si próprio. Porque isso é o que o ser humano tenta fazer ao longo de sua caminhada, curar seu sentimento de separação buscando entender ao universo que se expressa nele mesmo.

Nesse sentido em especial é que a prática da meditação se mostra tão benéfica ao bem estar geral, porque, no silêncio interior que se instala, consegue-se escutar e sentir nossa ancestralidade cósmica, estabelecendo contato e integração com o todo, gerando plenitude.

Por que o universo precisa disso? Difícil responder diante da insignificância de nossa perspectiva, mas talvez seja uma forma de se alimentar, como se cada consciência que se auto percebe, e inicia seu processo de expansão para uma sensação de consciência cósmica, fosse mais uma bateria a sustentar e expandir o movimento infinito e eterno da criação.

E o que é a vida humana, com seus sofrimentos, frustrações e amadurecimentos, senão a ação de sair de si mesmo, do orgulho egocentrado e iludido pela separação, para um sentido de pertencimento e plena identificação com o todo. Talvez o que se atribui a Jesus ter dito e se tornado: “Eu e o Pai somos um só”.

A princípio, essas reflexões podem parecer apenas um jogo de palavras, ensaios de uma filosofia sem sentido prático. Contudo, a imaturidade do apego e o exercício da separação se nos impõem de maneira inevitável ao longo de nossas vidas sucessivas trazendo sofrimento. Mas quando percebemos as implicações do que está por trás dessas experiências, quando conseguimos lhes atribuir sentido existencial para além da dor relacionada ao fato, ampliando sua contextualização para a esfera cósmica da complexidade da vida, talvez possamos ressignificar nossas dores, nos libertando do casulo restrito da percepção imediata e simplista, para nos sentirmos cidadãos do universo, partes dele projetadas, como células no corpo humano, no refluxo interminável do existir.

Texto Revisado

Publicado dia 26/6/2018
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Autor: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, autor do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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