Não dá para caminhar na vida, quando estamos amarrados ao olhar do pai e da mãe.

Não dá para caminhar na vida, quando estamos amarrados ao olhar do pai e da mãe.
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Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 2/11/2026 8:26:26 PM


Não dá para caminhar na vida quando seguimos amarrados a algo, sobretudo quando esse algo é o olhar da mãe e do pai. Em Freud, esse olhar não é apenas o olhar real, concreto, dos pais de carne e osso, mas aquilo que deles se internaliza: uma instância que passa a nos habitar, a nos julgar, a nos medir. O sujeito cresce, mas continua se movendo como se ainda estivesse sob vigilância, como se cada passo precisasse de autorização.

É assim que se constitui o supereu: não apenas como uma bússola moral, mas muitas vezes como uma voz severa, exigente, que cobra fidelidade aos ideais parentais. Quando esse laço não se afrouxa, a vida adulta vira uma tentativa incessante de corresponder, ser bom o bastante, correto o bastante, digno do amor que um dia foi condição de sobrevivência. O problema é que, nesse ponto, já não se trata mais de amor, mas de submissão psíquica.

Freud nos mostra que crescer implica perder algo: perder o lugar de objeto privilegiado dos pais, perder a fantasia de completude, perder a certeza de que há alguém que sabe o que é melhor para nós.

Quando essa perda não se realiza, o sujeito permanece preso a um destino que não é propriamente o seu. Caminha, mas não avança. Decide, mas sempre olhando para trás, perguntando-se se decepcionou, se agradou, se foi suficiente.

Desatar-se do olhar dos pais não significa rejeitá-los, nem apagar sua importância. Significa aceitar que a vida só começa de fato quando o sujeito pode sustentar seus próprios desejos, inclusive quando eles não coincidem com as expectativas herdadas. É nesse ponto que o caminhar deixa de ser repetição e passa a ser invenção. Onde antes havia amarra, pode surgir escolha. Onde havia obediência, pode surgir responsabilidade. E é só aí que o sujeito, finalmente, começa a andar com os próprios pés.

Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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