Não estamos apenas discutindo o voto feminino. Estamos discutindo quem merece ter direitos.

Não estamos apenas discutindo o voto feminino. Estamos discutindo quem merece ter direitos.

Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 7/28/2026 3:37:02 PM



Durante muito tempo, isso pareceria um exagero. Hoje, já não parece. Os retrocessos costumam seguir um roteiro conhecido: primeiro soam absurdos, depois viram opinião e, por fim, passam a disputar espaço como proposta política.

A história nunca caminhou em linha reta. Direitos não permanecem garantidos apenas porque um dia foram conquistados. O voto feminino não foi uma concessão. Foi fruto de décadas de enfrentamento contra uma ordem que insistia que mulheres não eram aptas a participar da vida pública.

O problema nunca foi o voto. Nunca foi a autonomia. O que ameaça é uma mulher que decide por si, que sustenta o próprio desejo e já não aceita existir apenas para responder ao desejo do Outro. Controlar o comportamento nunca bastou. Sempre foi preciso controlar também o desejo.

Talvez seja por isso que esse debate volte a aparecer justamente agora. Não porque mulheres tenham conquistado direitos demais, mas porque toda transformação nas relações de poder produz angústia. O feminismo não retira direitos dos homens. O que ele retira é a fantasia de que a masculinidade dependa da subordinação das mulheres. Quando um privilégio deixa de parecer natural, ele frequentemente passa a ser vivido como perda. E, diante da perda, muitos discursos prometem restaurar uma ordem em que cada um voltaria a ocupar o lugar que lhe foi destinado.

Também não surpreende que algumas mulheres defendam propostas como essa. Nenhuma forma de dominação sobrevive apenas pela força. Ela precisa ser desejada. Precisa produzir identificação. Precisa convencer que obedecer é virtude, que liberdade é excesso e que a segurança depende de cada um permanecer no lugar que lhe foi reservado. É quando a violência deixa de parecer violência e passa a ser defendida por aqueles que também sofrem seus efeitos.

Enquanto isso, feminicídio, violência sexual, desigualdade salarial, a sobrecarga do trabalho de cuidado e as barreiras ao acesso ao aborto legal continuam despertando menos indignação do que deveriam. Vale perguntar por quê. Talvez porque enfrentar esses temas exija reconhecer que a violência contra as mulheres não é um desvio da nossa cultura, mas uma de suas formas de organização. O feminicídio não é apenas o assassinato de uma mulher. É a expressão extrema da recusa em aceitar uma mulher que já não se submete, que decide romper, desejar, partir ou existir fora do lugar que lhe foi imposto. Quando o desejo feminino deixa de ser controlável, a violência aparece, muitas vezes, como uma tentativa desesperada de restaurar um poder que já perdeu sua legitimidade.





Os retrocessos não começam perguntando quem deve perder direitos. Começam tentando restaurar uma ordem em que o desejo de alguns volte a valer mais do que o desejo de outros. E, quando nos damos conta, já não estamos discutindo apenas o voto das mulheres. Estamos discutindo quem tem permissão para existir como sujeito de direitos.


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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