Não somos feitos para a autossuficiência.
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 7/28/2026 3:39:59 PM

A autossuficiência talvez seja uma das maiores promessas do capitalismo, sobretudo em sua versão neoliberal. Aprendemos cedo que depender é sinal de fraqueza, que pedir ajuda denuncia incompetência e que cada um é o único responsável pelo próprio destino. O sujeito ideal é aquele que resolve tudo sozinho.
Essa promessa cobra um preço alto.
Vivemos sob a exigência permanente de dar conta. Do trabalho. Do corpo. Das relações. Da felicidade. Como se houvesse uma forma correta de viver e bastasse empenho para alcançá-la. Só que existe uma parte da experiência humana que não se organiza pela força de vontade. Existe algo que sempre escapa.
É justamente aí que a lógica da autossuficiência começa a produzir sofrimento. Porque ela transforma a falta em defeito. Faz acreditar que precisar do outro é fracassar, quando, na verdade, é precisamente isso que nos constitui.
A depressão pode aparecer como o momento em que essa fantasia já não se sustenta. Não porque alguém tenha se tornado moralmente fraco, mas porque a imagem de quem deveria conseguir dar conta de tudo começa a desmoronar. O sujeito já não consegue ocupar esse lugar de potência ininterrupta e, junto com essa queda, perde também algo daquilo que imaginava ser.
Há perdas que não dizem respeito apenas às pessoas ou às circunstâncias. Às vezes, o que se perde é uma versão de si mesmo. A identidade construída em torno da produtividade, do reconhecimento, da eficiência ou da ideia de que seria possível viver sem precisar de ninguém. Quando esse ideal cai, não raro é o próprio eu que parece esvaziar.
Talvez um dos maiores equívocos da nossa época seja imaginar que desejar é o mesmo que controlar. O desejo nunca nasce da completude. Ele nasce justamente do que falta, do que escapa, do que nos coloca em movimento. Quem acredita que precisa ser inteiro para existir transforma qualquer tropeço numa ameaça à própria identidade.
Não somos feitos para a autossuficiência. Somos feitos de linguagem, de encontros, de dependências, de desencontros e de laços. Há algo profundamente adoecedor numa cultura que faz da independência absoluta um ideal. Porque ninguém se torna mais humano quando deixa de precisar dos outros. Apenas se torna mais sozinho.
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |









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