O culto ao EU e a miséria do laço social
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 2/11/2026 8:22:23 PM
Vivemos tempos estranhos: "ame-se!", "conheça-se!", "seja sua melhor versão!".
O imperativo do autoconhecimento tornou-se a nova moral da época, uma espécie de superego que ordena: goze de si mesmo.
O EU é, em grande medida, uma ilusão narcísica. Quanto mais nos voltamos para dentro, mais nos fechamos ao Outro.
O excesso de autorreferência produz não a libertação prometida, mas um encarceramento sutil na própria imagem.
O sujeito se constitui justamente no laço com o Outro, na linguagem que nos precede e excede. Não há "eu" sem o social, sem a alteridade que nos funda.
O problema do "ame-se primeiro" é que ele nega a estrutura mesma do desejo, que é sempre desejo do Outro. Produz sujeitos ensimesmados, incapazes de sustentar vínculos, investindo toda libido em uma autoimagem que nunca satisfaz.
Resultado? Solidão epidêmica, relações líquidas, empobrecimento simbólico. Muito EU, nenhum NÓS. Muito espelho, pouco encontro.
O verdadeiro autoconhecimento, ironicamente, passa por reconhecer nossa incompletude constitutiva, nossa dependência radical do laço social. É no Outro que nos perdemos para, quem sabe, nos encontrarmos.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |
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