O mito do amor perfeito também pode ser uma forma de apagamento.

O mito do amor perfeito também pode ser uma forma de apagamento.

Autor Raphael Mello

Assunto Psicologia
Atualizado em 8/24/2026 7:04:34 PM



Porque a gente diz que quer encontrar alguém que combine, que fale a mesma língua, queira coisas parecidas, saiba amar do jeito que precisamos e, até aí, tudo bem.

A gente fantasia muito antes de conhecer alguém por inteiro, aliás, nem sei se um dia conhece. Vai preenchendo o que não sabe, imaginando intenções, criando expectativas, dando ao outro um lugar na nossa vida que ele nem sabe que recebeu. Isso também faz parte de se apaixonar, não vejo problema na fantasia em si. O problema é quando o outro só consegue continuar sendo amado enquanto não estraga demais a personagem que inventamos para ele, e uma hora ele estraga.

Não porque tenha nos enganado, mas porque existe. Tem desejos que não passam por nós, faltas que nosso amor não resolve, uma história que começou antes da nossa chegada e um jeito de estar no mundo que não foi feito para combinar perfeitamente com o nosso.

Acho interessante pensar na violência que pode existir aí porque ela não parece violência. Às vezes ninguém está proibindo o outro de falar, mas só conseguimos escutá-lo enquanto aquilo que ele diz confirma a pessoa que gostaríamos que ele fosse. Quando aparece alguma diferença que realmente nos desloca, rapidamente ela ganha outro nome: problema, incompatibilidade, defeito, algo que precisa mudar.

Isso também encosta numa questão política. A história está cheia de projetos que decidiram qual língua deveria ser falada, quais corpos eram aceitáveis, quais maneiras de amar, viver e desejar poderiam existir. Não estou dizendo que uma relação amorosa seja equivalente à violência colonial, seria uma comparação irresponsável, mas existe algo dessa lógica de assimilação que vale reconhecer quando amar alguém começa a significar aproximá-lo cada vez mais da nossa própria medida.

E não acho que a saída seja parar de idealizar. A gente idealiza, fantasia, projeta, se apaixona também pelo que inventa. Freud e Lacan não nos deram exatamente boas razões para acreditar que algum dia encontraremos o outro sem passar pela nossa própria fantasia.

A coisa fica mais séria quando a pessoa real começa a aparecer por baixo dela.

Porque desidealizar não é finalmente enxergar todos os defeitos do outro, como se agora estivéssemos vendo a "verdade". É suportar que existe ali alguém que nunca vai coincidir completamente com aquilo que desejamos que ele seja.

A gente gosta muito de dizer que ama alguém pelo que ele é.





Só não sei se estamos igualmente preparados para quando aquilo que ele é não tem nada a ver conosco.

Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello


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Autor Raphael Mello   
Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades.
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