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Quando o virtual ocupa o espaço do real


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Você se levanta animada, toma café depressa, executa rapidamente suas tarefas matinais e, antes das sete da manhã, já liga o computador e todas as suas mídias para não perder o “bom dia” que você está esperando desde que foi dormir.

O chat chama, faz aquele barulhinho que você está ansiosa pra ouvir. Sim, é ele! Você ri feito besta, mas depois de um tempo isso se torna trivial e você já não espera mais com a mesma graça. Do outro lado da tela, ele também vai perdendo o interesse. As conversas passam a ser mais curtas, menos frequentes e menos interessantes.

Vocês marcam finalmente um encontro, mas os sonhos começam a ruir no instante em que se encontram. Onde estão as promessas que se fizeram? Onde está aquele alguém da sua tela? A realidade parece dura demais para ambos.

Depois do encontro, vocês passam alguns dias sem trocarem mensagem alguma, estão embriagados, cada um com seus planos, cada um com seus sonhos, cada um com suas decepções. É um tempo de silêncio, mas esse silêncio castiga, faz as cabeças rodarem rapidamente. O que será que houve? O que devo fazer? Devo puxar conversa no chat? Essas dúvidas ficam pairando por longo e torturante tempo. Até que um dos dois toma a iniciativa e dá o primeiro passo. “Oi”. O que fazer senão responder? E você diz “Oi”, mas a próxima linha não aparece e, se aparece, é curta, fria e rápida e não tem gancho para uma resposta, uma opinião. A conversa parece não querer se desenvolver. Falar do encontro ninguém propõe, mas os dois querem a mesma coisa: um feedback, só que ele simplesmente não vem e ninguém pergunta, ninguém quer de verdade, saber a verdade.

Uma discussão virtual acaba acontecendo. Você não fez nada de errado e ele também não. Vocês são duas vítimas da tecnologia, de um ambiente quase inexistente. E isso é ridículo! Se não é ridículo, então é quase isso. As palavras escritas em chats não carregam muita emoção, não se fazem acompanhadas da expressão de seu emissor, são levadas no impulso, digitadas na pressa de se responder com rapidez à frase recebida no segundo anterior, com a frieza das teclas e da tela em que são jogadas. Ofender ou pedir desculpas são ações que perdem o sentido. A palavra beijo, geralmente abreviada para bjo ou bj não alcança o outro como um beijo...

O que vai sobrar do beijo? O beijo, até onde eu sei, é uma troca real, de duas bocas que se encontram, que entregam o melhor de si e recebem o melhor do outro. O beijo acende a paixão, a vontade e o desejo pelo próximo beijo. Conduz duas pessoas bem reais a um nível mais elevado de entorpecimento, aquece o coração. O momento do beijo é tão único que os olhos se fecham espontaneamente para o que acontece à volta, não querem enxergar, pois veem a alma do outro. As línguas se procuram e se encontrando, dançam e se acariciam. Isso é um beijo de verdade e não um bjo ou um bj.

Tá, vai, quando há uma relação de verdade, quando há beijos de verdade, daqueles que tiram o nosso fôlego, há espaço para o virtual e ele se torna um encurtador de distâncias. É a hora de se ser “gato de almofada”, como costumo dizer, e ler o que o outro nos escreve com carinho, isso é tão real como uma carta, só que chega mais rápido... nem dá tempo de se arrepender se falar besteira. Então sim, bjo passa a ter gosto de beijo e faz a gente sentir saudades também, mas a saudade não é aquela coisa desesperada de novela e sim uma saudade que nos faz dormir com o sorriso nos lábios e os olhos calmos, uma saudade que nos faz querer encontrar de novo e beijar de novo.

Renato Russo compôs uma música: sexo verbal. Acho que nos anos 80 e 90, ele já sabia do “futuro”, desse virtual que hoje vai tomando o espaço do real. Logo em seus primeiros versos ele dizia: “sexo verbal não faz meu estilo. Palavras são erros e os erros são seus. Não quero lembrar, eu erro também” e a música fez grande sucesso entre os jovens à época. Por quê?!

Particularmente, concordo com ele, mas elasteço um pouco a sua canção e caio no virtual. Sou um pouco (muito) resistente a essa nova realidade. Óbvio que ela é boa, mas também tem suas armadilhas. As conversas íntimas não têm intimidade nenhuma, os abraços e os beijos não são dados e, portanto, também não são sentidos, parecem mais o preenchimento de burocráticos protocolos. Eu gosto do real, gosto de sentir cheiro, de ouvir a voz de quem fala comigo, gosto de tocar e ser tocada. Gosto de dar um abraço e me sentir abraçada. Gosto de chorar e ter quem realmente enxugue minha lágrima. Gosto de rir e ouvir a risada de quem ri comigo. Gosto de me desculpar e de me explicar, em tempo, uma palavra que soou estranha, que ficou presa na garganta de quem a ouviu.

Sinto muito pela geração do Facebook, do Twitter, das super Redes Sociais, que precisa tirar foto de cada prato que come, de cada fantasia que veste, de cada passeio que faz... e postar todas nos seus álbuns virtuais, sempre acompanhadas de uma frase de efeito esperando a reação dos seus contatos... e eles disputam entre si o comentário mais engraçadinho. Isso é muito triste! É uma felicidade virtual. É uma necessidade de pessoas solitárias e que em muitos casos, nem se dão conta dessa solidão avassaladora. Há aplicativos que enviam flores, outros que compartilham uma latinha de cerveja... há de tudo, mas a verdade é que as flores não chegam, a latinha não pode ser brindada... é vazio e é vazio porque as pessoas estão vazias!

Os consultórios de psiquiatras estão lotados. Marcar horário, só para daqui dois meses... estão medicando a tristeza e a solidão!

Mas as pessoas também viraram grandes detetives. Sherlock Holmes perdeu o sentido de existência. A dupla “Olho Vivo” e “Faro Fino” já pode se aposentar... não são mais necessários. Basta fuçar no “face” do outro, ver o que ele posta, o que fala de você com os amigos (contatos). Isso, veja todas as fotos dele, por onde andou naquele dia em que vocês não teclaram... se isso não te matar, a solidão vai completar o serviço. Mas fica tranquila, será uma morte com velório anunciado como “evento do face” e alguém terá a brilhante ideia de colocar uma tarja preta com os dizeres “coração (de lata) em luto” no lugar da foto de perfil e vai deixar lá uma semana inteira. Ao fim dos sete dias, essa póstuma homenagem será inescrupulosamente substituída por uma foto bem sorridente, tirada em lugar paradisíaco com a sua melhor amiga (ou melhor, com o “contato” com quem você mais tecla).

Quando você se senta com a página da sua rede social favorita, corre logo os olhos nas postagens dos seus contatos para ver o que estiveram fazendo. Uma tristeza aparece e some em instantes: fizeram de tudo e não te chamaram!

Então, você evita a verdade de que você não faz falta! Mas o seu comentário faz e se você não comentar logo, cairá no esquecimento. E o que você faz? O mesmo que todos: entra no mesmo estado de (in)consciência e trata de postar algo que chame a atenção para si e torce, deseja desesperadamente que alguém puxe os comentários. Aos primeiros você até responde com certo gracejo, faz alguém tremer de tanto rir, mas no fundo, você pensa, se você estivesse de verdade entre os seus amigos, numa mesa de boteco ou na porta de uma igreja, você poderia compartilhar muito mais que frases engraçadinhas, compartilharia sua gargalhada, sua alegria, seu toque, seu abraço, seu beijo. Sim, você compartilharia a melhor parte de você!

Lembre-se da velha máxima: papel aceita tudo. E a tela do computador não é muito diferente. Quando postamos um comentário qualquer, escrevemos o que queremos a nosso respeito (o lixo, varremos para debaixo do tapete pra ninguém ver) e assim, facilmente vendemos a imagem que queremos sobre nós mesmos (e o pior, acabamos por nos convencer de que ela é real). O outro faz o mesmo. Ambos se enganam, fazem ideia errada da realidade, mas a perda é grande, e é para todos.

Dizem que a internet diminui a distância entre as pessoas, mas deve haver um limite, caso contrário, ela também criará valas e corações poderão ser partidos, amizades perderão para “cutucadas” e “curtidas” no Face.

Sentir saudade é bom, ficar pensando como foi o encontro é ótimo e assim você vai dormir embalado por lembranças e desejos, mas quando as frases não são ditas ao pé do ouvido, apenas absorvida com os olhos, quando se tem a certeza de que no dia seguinte, embora haja a possibilidade de se falarem através do computador, então essa saudade não deveria ser saudade, pois creio não ser possível sentir saudade daquilo o que não existe.

Eu sinto saudade. Tenho saudade do tempo em que as crianças brincavam barulhentamente nas ruas. Tenho saudade do meu avô. Tenho saudade de escrever longas cartas de amor e esperar o melhor momento para entregá-la. Tenho saudade de ouvir o telefone tocar e ser alguém por quem espero há tempos. Tenho saudade de jogar baralho até o sol nascer. Tenho saudade de ver o sol nascer e se pôr acompanhada de pessoas que possam compreender o que sinto com isso. Tenho saudade de tomar chuva e rir disso depois. Tenho saudade de quando podíamos falar sem a polícia interna ficar nos vigiando. Tenho saudade dos tempos da escola. Tenho saudade de quando ir ao cinema era programa nobre. Tenho saudade de comer brigadeiro de colher. Tenho saudade de tomar sorvete na praça. Tenho saudade de gente de verdade, que tem vida de verdade. Tenho saudade das suas mãos, do som da sua voz, da sua imagem real. Tenho saudade do seu beijo, do seu abraço. Tenho saudade de ouvir música em long play. Tenho saudade de brincar de gato mia ou de pular corda. Tenho saudade de sentir saudade. Tenho saudade da vida de verdade!

Mas a verdade é que não podemos compartilhar essa saudade em nossos perfis do Facebook, seria pedir pela piada, cairíamos no vale de sombras, mesmo que todos concordassem, ninguém daria o braço a torcer!

Texto revisado
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Conteúdo desenvolvido por: Renata Kindle   
Psicóloga clínica e hospitalar (crianças, adolescentes, adultos, casais e família); autora de alguns textos e artigos. Desenvolvedora de um trabalho piloto sobre a atuação das emoções no corpo físico, que se realiza com grupos de oficinas terapêuticas.
E-mail: [email protected] | Mais artigos.

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