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TENDO EM CONTA QUE ÉS IMORTAL




Há muitos anos, uma colega do colegial me brindou o caderno de recordações com uma pérola; sentença curta, mas profunda nas suas implicações: “Vive com moderação as tuas experiências de felicidade e infortúnio, tendo em conta que és imortal”...

Hoje, ponderando sobre a mesma, penso que talvez aquele simples e despretensioso recado, sem que disso eu me apercebesse, tenha me transformado numa pessoa diferente, em muitos sentidos, ainda mais em se levando em consideração a minha pouca idade da época que, nesta fase da vida, para todas as pessoas, requer o concurso por vezes moroso das experiências, que afinal nos conferem a dádiva da maturidade.

Pois esta mesma experiência é que, me permitindo hoje a chamada “visão de cima”, me conferiu, com o correr dos anos, a noção exata do valor desta mensagem, que me foi oferecida tão despretensiosamente por uma colega que passou pelos meus dias como nuvem, de quem eu guardo boas lembranças, e para quem desejo a maior felicidade, esteja ela onde estiver atualmente.

Alguém que nos brinda com palavras de tão subido valor num curto período de tempo em que se detêm nas estradas da nossa vida inevitavelmente sugere uma reflexão aprofundada do valor genuíno ou ilusório de tudo que atravessa o nosso caminho, principalmente se somada a esta percepção a noção esclarecedora da eternidade que nos aguarda em termos de jornada evolutiva, nas várias vidas que nos antecedem e nos aguardam, com a riqueza de suas lições.

Efetivamente, tudo nesta vida passa. Acontece, por vezes, que as pessoas me julguem desapegada demais, naquelas situações em que o que se espera de nós seja aquela cumplicidade passional em ocasiões de atrito, quando facilmente é cobrada a atitude de “se tomar partido” em desavenças mais das vezes pueris, naquele tipo de situação geradora da desarmonia entre os seres, em maior ou menor grau, puramente por questão de diferenças. Não é raro que os seres que nos são afeiçoados exijam de nós posição semelhante a de um time de futebol: “se você gosta de mim, é do meu “time”. Tem que torcer por mim. Conseqüentemente, deve se voltar contra todos que me contrariem, que me façam algo desagradável, ou que não concordem com a minha visão das coisas!”

Ora, isso é pretender escravizar um afeto ao custo desta mesma afeição. É destituir o outro da sua liberdade de pensar e considerar. Mais ainda, é demosntração de ausência absoluta daquele bom senso que nos segreda sabiamente nem sempre estarmos de posse da razão nas nossas dissenções com o próximo, e de que estas dissenções se baseiam, muitas vezes, senão na maior parte delas, num ponto de vista inteiramente pessoal, que não pode nem deve ser imposto a ninguém, menos ainda a um amigo ou afeiçoado.

Portanto, quando apelo, nestes momentos críticos, para as alternativas de contemporização entre as partes, ou me eximo de imiscuir-me neles, é exatamente por guardar a noção de que as causas geradoras daqueles conflitos também passarão, inevitavelmente, dando lugar à chance de reflexão, para ambas as partes, de que talvez tenham potencializado desnecessariamente futilidades que jamais mereceriam volume tão grande de aborrecimento, numa contingência tão absurda quanto se passar a querer mal alguém por este não compartilhar conosco o nosso gosto por um prato de macarronada.

Os ânimos exaltados, portanto, passam; as opiniões passam; as nossas próprias preferências se modificam. Guardemos, pois, a nossa disposição mais aguerrida para a defesa das causas que valem a pena, em prol da paz e da harmonização neste mundo já tão conturbado.

A nossa própria vida passará como num piscar de olhos. Que então vivamos de fato nossos desafios de dentro da ponderação e da lembrança lúcida de que, se somos imortais, diante disso, o que vale maltratarmo-nos por um mero minuto que se esvai, com as suas ilusões fugazes de realidade, e com as nossas pequenas verdades que haverão, mais cedo ou mais tarde, de deixar lugar às verdades maiores do que as que, por ora, podemos discernir?

Com amor,
Lucilla e Caio Fabio Quinto
"Elysium"
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Publicado dia 17/5/2004
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Autor: Christina Nunes   
Chris Mohammed (Christina Nunes) é escritora com doze romances espiritualistas publicados. Identificada de longa data com o Sufismo, abraçou o Islam, e hoje escreve em livre criação, sem o que define com humor como as tornozeleiras eletrônicas dos compromissos da carreira de uma escritora profissional. Também é musicista nas horas vagas.
E-mail: meridius@superig.com.br | Mais artigos.

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