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SEU GUARÁ

por Elena Mara de Oliveira Ramos

Publicado dia 8/8/2008 em Psicologia

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Chamava-se Juarez, mas as pessoas o conheciam mesmo era pelo apelido que carregava desde o tempo de escola militar: Guará. Dizia que tinha esse apelido porque os colegas achavam que seus olhos eram de lobo-guará. Por mais que me esforçasse em achá-lo parecido com um lobo não conseguia. Até que um dia no Zoológico com meus alunos, passei pelo lobo-guará e lá estava a semelhança: os olhos eram iguais aos do Seu Guará.

Fui, por curiosidade, pesquisar a vida dos lobos para descobrir - quem sabe! - outras similaridades com Seu Guará. Descobri que lobos são extremamente protetores de seus filhos e que vivem em comunidades. Ah! É fantasiar demais querer fazer um paralelo entre Seu Guará e os lobos, mas Seu Guará era do signo de Câncer, regido pela Lua (não são os lobos que uivam para a Lua?).

Era uma dessas pessoas que vem ao mundo com a missão da AMIZADE, não era à toa que fazia aniversário no dia do amigo (20 de julho). Nordestino de Catende, Pernambuco, menino pobre de engenho, daqueles que fingem que um pé está machucado para poder dividir o sapato com o irmão e cada um calçava um pé. Família grande, muitos irmãos e irmãs de sangue e de coração.

Seu Guará foi para a cidade grande estudar, adorava ler e fazer resenhas, carregava consigo a determinação e a vontade de tudo dar certo. Tinha o sonho de melhorar de vida, se formar e ajudar a todos. E como na vida dos destemidos tudo o que se planta dá, Seu Guará plantou, se formou, se casou, teve duas filhas e ajudou a família. Era oficial militar, pulso firme, coração mole, amanteigado, gestos largos e fartos. Tinha pena de tudo e de todos. Adorava bichos, não podia ver ninguém sofrer.

Seu Guará era assim, acolhia a todos como filhos. Os soldados do quartel, seus amigos, amigas da esposa, amigas e amigos das filhas, os genros, os empregados, o médico da família. Era o melhor amigo de todos os seus amigos. Era o mais novo Super-Herói do planeta!

Falei que sua missão era ser amigo, talvez fosse ser PAI. Adorava comprar. Tremendo consumista, de roupas a guloseimas variadas, porque Seu Guará era muito guloso. A filha mais nova cansou de correr atrás dele para pegar os amendoins (ele não podia comer gordura) que estavam escondidos no bolso do pijama. Escondia até salaminho atrás da folha de alface no fundo da geladeira para comer escondido de madrugada.

Na mesma proporção com que comprava, ofertava presentes. Era capaz de tirar o casaco do próprio corpo para entregar para quem dele necessitasse na rua e voltar para casa com frio. Comprava como uma espécie de reserva para doar. Aliás, Seu Guará sempre tinha reserva de trocados. Trocava dinheiro todo dia para alimentar os necessitados com comidas, remédios, roupas. Quando saía na rua costumava ser cercado por aqueles que encontravam nele a esperança de uma ajuda.

Adorava comer fora. No restaurante sempre dava boas gorgetas aos garçons. Dizia que seu salário era para viver e ajudar os outros a viverem também.

Seu Guará devia ter "sombras", pois não seria humano senão as tivesse, mas dessas de verdade, eu não quero nem saber. Está bem, vai lá um defeito: jogar buraco, dominó, fedorento, gamão, futebol... qualquer jogo com Seu Guará era um verdadeiro teste de paciência. Se ele ganhasse, haja gozação, se perdesse queria jogar até ganhar. Coração de criança que não suporta perder. Veio embutido nele um senso de luta e de sobrevivência. Tinha que dar certo e dar certo implicava vencer.

Seu Guará adorava esportes, tinha mania de tomar remédios, alguns até oferecia às visitas e sempre tinha uma solução. Sua frase preferida era: "Deixa comigo, eu resolvo!"

Era hipertenso, cardíaco, veias completamente entupidas, possuía apenas metade de uma carótida funcionando porque a outra era completamente entupida, sobreviveu a dois cânceres, teve um infarto, dois edemas agudos de pulmão, operou um aneurisma de aorta abdominal, foi atropelado por um ônibus, teve traumatismo craniano, caiu descendo de um ônibus, quebrou o nariz e devido aos remédios que tomava teve doze horas de hemorragia, teve mais um câncer, retirou o tumor, um rim, um ureter e mais um pedaço da bexiga. UFA!! Era o Highlander! Um grande guerreiro! Imortal? Saía de todas as dificuldades e voltava à VIDA! Provou que MILAGRES acontecem todo o tempo! Vivia e sobrevivia por sua família.

Dizia: "Tenho pedido para ficar mais tempo por aqui porque minha filha me pediu que ficasse". Algumas vezes a filha mais nova pediu-lhe que escolhesse ficar mais tempo na vida com ela.

Ah! Seu Guará! Que disposição de VIVER! Que exemplo de humanidade!

Era rodeado de três mulheres. A esposa e duas filhas. Costumava dizer que a esposa era baixinha e de "cabelinho na venta" (termo nordestino para designar uma pessoa voluntariosa), da filha mais velha que mora nos EUA, dizia que tinha lhe dado muito trabalho. Reconhecia nela sua própria valentia e destemor, sua capacidade de confronto. "Tem um gênio difícil", falava. A filha mais nova ele ouvia e obedecia. Religioso, a considerava meio "bruxinha", como costumava dizer, confiava que ela tinha poderes especiais de conquista e cura, mas que também tinha um "gênio da gota, só faz o que quer", falava.

Um dia Seu Guará descobriu que estava com metástase. Precisavam de alguém de coração disponível para acolher as pessoas que chegavam no céu. Já haviam dado muitas chances para ele aqui na Terra e não podiam adiar mais. Era necessária a ida com urgência de Seu Guará para o céu.

Seu Guará foi paralisando pouco a pouco sem perder o sorriso. Ainda no hospital, em coma, quando os médicos chamavam "Seu Guará!", um breve e leve sorriso se alargava em seu rosto.

A filha mais velha nos EUA tentando passagem, ligava incessantemente numa tentativa de se fazer presente. Mal sabia que nunca tinha estado ausente para Seu Guará, que perguntava (antes do coma) por todo o tempo para a filha mais nova, quando ela chegaria. Não queria partir sem mostrar que sempre a teve em seu coração. A filha mais nova sabia em segredo que ele só partiria quando ela chegasse e torcia em silêncio para ela vir logo, pois assim, quem sabe, o sofrimento do Seu Guará seria aliviado, pois no fim seu corpo em coma doía por inteiro sendo sustentado pela morfina.

A missão não estava completa, precisava esperar pela filha mais velha, sabia a mais nova. A filha mais velha chegou e dois dias depois, no começo da noite, pouco antes da família se despedir pelo término do horário de visitação, quando só o acompanhante poderia ficar, Seu Guará depois de tantas vidas em uma só, se foi. Morreu com a família ao seu redor: a esposa, as duas filhas e o genro a quem amava e convivia como um filho. Não quis provocar ciúmes, morreu junto de todos.

Aqui deste lado da vida a família rezava silenciosamente de mãos dadas, mas do outro lado da vida uma festa acontecia, uma piada estava sendo contada, um abraço sendo dado.

Seu Guará é meu pai e eu sou a filha mais nova. Seu Guará foi tão especial e único na vida quanto você, o outro, aquele ali e mais esse...

Você é o protagonista da sua vida!

Seu Guará costumava dizer nas adversidades: "A vontade de dar certo nunca pode ser menor do que o medo de não dar".

Texto revisado por Cris

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Sobre o Autor: Elena Mara de Oliveira Ramos   
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