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Submissão e Liberdade


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Liberdade para agir como se deseja e submissão aos impositivos dos códigos reguladores do comportamento são os dois opostos de um permanente conflito que regula a vida do ser humano civilizado. Diante desse impasse, Freud chegou a concluir que jamais se conseguiria ser realmente feliz, que esta felicidade seria uma utopia inalcançável, já que os desejos instintuais não cessariam de clamar pela sua satisfação, exigindo sempre a ação repressora que permite a possibilidade da vida social.
Mas será que esta conclusão é realmente definitiva? Apesar de Sigmund Freud ter nos oferecido uma sistematização teórica sobre o psiquismo altamente elucidativa, ele não incluiu a percepção da transpessoalidade que é pertinente ao ser humano. Até que ponto os instintos humanos não são capazes de ceder à força da sublimação que promove a evolução espiritual?

Por acreditar nisso –na transcendência que habita em nós e que nos aponta rumos de sublimação dos instintos no processo evolutivo– é que estou a ensaiar estas despretensiosas linhas.
Inicialmente, faz-se necessário situar a figura do Ego como a instância psíquica que realiza a administração desse conflito, basicamente entre desejo e moral. É justamente o Ego que, por circunstâncias que não temos como desenvolver neste texto, ligadas à resolução do Complexo de Édipo, interdita a satisfação do gozo almejado pelo desejo, por entender os ganhos secundários de se submeter aos impositivos da lei.

Essa lei vai se apresentar, inicialmente, na figura repressora vivenciada na infância, que Freud identificou no papel censor do pai mas que, por força dos novos hábitos culturais, poderá ser a mãe ou outras pessoas de valor afetivo para a criança. A partir dessa formação, outras figuras vão se sobrepondo, inclusive com aspectos transferenciais, como outros parentes, professores, amigos, parceiros afetivos e, de uma maneira geral, as próprias regras sociais que se impõem pelas forças institucionais.

Toda essa ação interditória entra em confronto com as pulsões dos desejos institintuais que, pelas características do inconsciente, são amorais e atemporais. Ou seja, elas tentam impor a satisfação do gozo pretendido a qualquer custo.
Quem paga esse custo é o Ego que se vê envolvido em manter suportáveis as pressões intrapsíquicas do desejo, aliviando a satisfação do que seja possível e, ao mesmo tempo, sustentando uma “aparente” –e relativamente hipócrita, diga-se de passagem– sujeição aos sistemas instituídos. A maior prova disso é que no recôndito de nossos isolamentos ou na privacidade de nossos pensamentos esses desejos continuam a ecoar e até a se satisfazer, muitas vezes no âmbito apenas do imaginário.
Sob este ponto de vista parcial, seguindo o pensamento freudiano, não existiria liberdade plena de satisfação realmente possível.

Contudo, entendendo o ser humano como um espírito imortal a caminho da perfeição que se faz na sublimação das pulsões instintuais, podemos projetar a perspectiva de um tempo futuro onde essas pulsões instintuais deixariam de existir, onde as leis fragmentadas organizadas pelos homens para o equilíbrio das relações sociais não seriam mais necessárias, e onde haveria uma plena harmonia psíquica com a ordem cósmica que rege todas as formas de vida no universo. Possivelmente, aquilo que as religiões e filosofias chamam de paz, de estado nirvânico, de plenitude, de vivência no paraíso.
Cabe, então, a pergunta: e o nosso Ego, deixaria de existir? Eu, particularmente, acredito que não. Como defendo em meu primeiro livro, “Psicanálise da alma”, penso que esse Ego sofre também um processo de evolução para um estado cósmico, talvez aquilo que em outras nomenclaturas de características transpessoais se chama de self. Eu prefiro chamar de Ego Cósmico, por entender o self mais no seu aspecto de totalidade, e o Ego Cósmico com o resultado final do processo evolutivo de uma instância que não deixaria de existir, apenas se plenifica.

Qual o papel desse Ego Cósmico? Certamente que não mais administrar conflitos entre os desejos e a lei, já que elas estariam unificadas na coerência absoluta com a verdade. Penso que esse Ego Cósmico estará fluindo de uma forma totalmente harmônica pelo determinismo da vida, em uma sincronicidade plena com a ordem do universo, onde não existiriam mais conflitos e nem decisões a serem tomadas, mas aquilo que podemos chamar de uma submissão pacificada com a vontade do Poder Criador, com a lei universal – já que nesse estado de compreensão acredito que só seremos regidos por uma única lei, absoluta (mas vamos deixar isso para outro texto).

Por enquanto, voltando à Terra, vamos trabalhando para o avanço da sublimação dos desejos, para uma compreensão mais verdadeira das leis cósmicas e uma harmonização melhor com elas, pois esse é o único caminho que nos liberta das injunções sofridas dos conflitos intrapsíquicos, e que acabam sendo os causadores de quase, senão todas as nossas doenças.

João Carvalho Neto é Psicanalista
autor dos livros "Psicanálise da alma"
e "Casos de um divã transpessoal"

Texto revisado


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Conteúdo desenvolvido por: João Carvalho Neto   
Psicanalista, Psicopedagogo, Terapeuta Floral, Terapeuta Regressivo, Astrólogo, Mestre em Psicanálise, autor da tese “Fatores que influenciam a aprendizagem antes da concepção”, autor da tese “Estruturação palingenésica das neuroses”, do Modelo Teórico para Psicanálise Transpessoal, dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal"
E-mail: joaoneto@joaocarvalho.com.br | Mais artigos.

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