Talvez o problema seja querer ser inesquecível
Autor Raphael Mello
Assunto PsicologiaAtualizado em 7/14/2026 5:31:41 PM

A gente gosta da ideia de permanecer em alguém. Ser lembrado por uma música, por um cheiro, por uma frase dita num dia qualquer.
Existe beleza em deixar marca. O nó começa quando a gente precisa ser inesquecível.
Existe uma diferença brutal entre desejar morar no coração de alguém e precisar ocupar um lugar especial demais no olhar do outro.
Existe beleza em deixar marca. O nó começa quando a gente precisa ser inesquecível.
Existe uma diferença brutal entre desejar morar no coração de alguém e precisar ocupar um lugar especial demais no olhar do outro.
Tem gente que passa anos sem ser encontrada. Não porque ninguém tenha chegado perto, mas porque só deixa aparecer aquilo que aprendeu a iluminar. A infância às vezes inventa uma profissão da qual ninguém pede demissão: a de impressionar. Ser inteligente, resolver tudo, parecer não precisar de nada. Como se o amor tivesse que ser conquistado todo santo dia. Como se descansar fosse perigoso.
Aí a gente chega no amor fazendo uma apresentação de si. Mostra os melhores ângulos, organiza a bagunça antes que alguém veja. Só que o amor não acontece quando encontram a nossa melhor versão. A melhor versão é muito organizada, mas quase nunca é uma pessoa de verdade.
A admiração é confortável porque mantém uma distância bonita. Bonita o suficiente para ninguém precisar encostar. Porque encostar é outra coisa. Quando alguém chega perto, encontra também o que escapa. Encontra a insegurança, o medo, as pequenas perebas psíquicas que a gente passa tanto tempo tentando esconder.
Pensar demais é uma forma sofisticada de proteção. Enquanto a cabeça explica e racionaliza, o corpo espera.
Enquanto a gente entende tudo sobre o amor, a gente vai adiando o risco de amar. Porque amar é correr o risco de descobrir que o outro não cabe no nosso roteiro e que nós também não cabemos na pose que construímos de nós mesmos.
O amor impossível tem uma vantagem enorme: ele nunca precisa lavar a louça. Nunca chega atrasado, nunca muda de ideia. A fantasia é um lugar macio, mas ela não tem corpo.
E o outro tem. O outro chega com suas manias, seus silêncios, seus dias ruins. Ele não veio para confirmar a nossa imagem bonita; veio para bagunçá-la um pouco.
E é aí que o amor dá as caras. Não quando a gente encontra alguém extraordinário, mas quando encontra uma pessoa comum.
Lacan dizia que amar é dar o que não se tem.
Talvez seja justamente isso: oferecer presença sem ter uma versão pronta para entregar. É aceitar que tem um pedaço nosso que nunca estará resolvido, e ainda assim deixar alguém chegar.
A gente tenta ser inesquecível porque tem pavor de ser comum. Mas existe uma beleza silenciosa em ser comum para alguém. Ser a pessoa que fez o café, que ouviu a história repetida, que ficou quando a conversa brilhante acabou. Talvez o amor não precise de gente perfeita. Precisa de pessoas que cansaram de se apresentar e tiveram a coragem de simplesmente aparecer.
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
@psicologo.raphaelmello
Raphael Mello | Psicólogo
CRP 06/122146
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Autor Raphael Mello Olá, sou Raphael Mello, Sócio do Espaço Cântaros, Psicólogo & Psicanalista. Atuo em clínica desde 2015 e trabalho a partir do inconsciente e suas singularidades. E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Psicologia clicando aqui. |








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