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VIVENDO O LUTO

por Elena Mara de Oliveira Ramos

Publicado dia 30/7/2008 em Psicologia

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No início do ano de 2008 meu pai teve metástase de um câncer de uretér e veio a falecer em Maio.

Eu e meu pai tínhamos uma sintonia muito grande. Trocávamos amor, amizade, livros, informações, cuidados e proteção. Enfim, meu pai foi um grande paizão. Sempre muito presente.

Ele já havia ultrapassado, estoicamente, muitas situações-limites em sua vida com relação à saúde, surpreendendo a todos, inclusive aos médicos com seu poder de recuperação. Em todas as vezes eu sempre soube que ele continuaria; até brincava chamando-o de meu querido "Highlander" (fazendo paralelo com o guerreiro imortal dos filmes).

Desta vez, quando percebi que era sua última batalha pela vida neste planeta, fiz questão de cuidar dele até o fim. Já havia cuidado e aplicado muitas outras vezes nele, técnicas de energização curativa e de limpeza emocional, mas agora havia algo além: era a hora de ir embora.

Conversávamos muito sobre a partida. Eu dizia que ele levaria uma "malinha de carinho", malinha essa que eu ajudaria a fazer. Combinamos que eu estaria aqui "desse lado" ajudando-o na sua volta "para casa" e no conforto que pudesse ter, enquanto por aqui estivesse. E assim foi. Passamos juntos por todas as etapas da limitação se fazendo presente, desde ajudá-lo nas tarefas diárias, como comer, beber, tomar banho, se vestir, como ler para ele quando não mais conseguia a concentração necessária para esta tarefa que sempre lhe foi tão prazerosa. Fazíamos exercícios de fisioterapia, trabalhávamos a memória com jogos para evitar a demência, rezávamos e meditávamos juntos. Apliquei diversas técnicas curativas de terapia holística, passeávamos com a cadeira de rodas, comíamos pipoca na praça ou apenas ficávamos abraçados, em silêncio e chorávamos. Mesmo tendo sido sempre muito independente e teimoso, fazia tudo o que eu queria, pedia ou mandava. Confiava em mim, sem restrições.

Meu pai estava mais uma vez me abençoando. Permitindo que eu cuidasse dele, eu teria a oportunidade de viver a temporaneidade que nos renova, nos obriga a reorganizar pensamentos, sentimentos, atitudes e a vida. Ele que sempre foi muito forte, que tinha cuidado de tanta gente, que sempre acreditou que tudo daria certo, agora se entregava, se preparava para "ir" e eu me preparava para "ficar". Ambos estávamos doloridamente a poucos passos do renascimento.

De uma forma singular meu pai me ensinou, dentre tantos outros ensinamentos, a ficar face a face com a morte e perceber que além de triste ela poderia ser compassiva e libertadora.

No hospital pedi que me fosse permitido continuar cuidando dele como em casa. Minha mãe continuava a tomar conta dos remédios, o médico da família e amigo continuava tentando equilibrar, na medida do possível e como num jogo de xadrez, as reações do corpo na iminência de um xeque-mate. Meu marido em sua própria dor contida, oferecia o apoio emocional incondicional de acolhimento e amor neste plano.

Passamos por todas as etapas finais juntos. Passei a sentir e a saber que outras reações do coma paralisariam pouco a pouco. Sabia que precisava sempre estar resoluta em procurar meus pontos de apoio para não sucumbir. Cuidar de mim era a melhor maneira de continuar cuidando dele. Continuava com minhas meditações diárias, tentava preservar uma parte da minha vida, minha casa, cuidar da cachorrinha, meus afazeres, estudos e os contatos constantes com meus amigos espirituais e Mestre querido.

Não queria fugir da dor. Sabia que precisava sentí-la (a dor e os espaços de sofrimento existem mesmo para os que acreditam em outra vida, outras dimensões). A saudade é física, dói no corpo. Meu coração muitas vezes gritou dizendo que não queria ficar neste planeta sem meu pai; apesar de tantas chamadas, instruções e conforto de meu Mestre Interno muitas vezes pensei que enlouqueceria de saudade e que morreria junto com ele. O sentimento de ser uma espécie de sua fiel escudeira me acompanhava no luto antecipado. Caminhava pelos veios da morte com meu pai, sentindo o desespero, momentos em que o coração parece se rasgar inteiro e o vazio e a noite na alma parecem se fechar.

Muitas vezes no quarto do hospital, sozinhos, sentada ao lado da cama, colocava minha cabeça debaixo de sua mão, levemente curvada em concha e ali ficava, recordava, conversava, orava, chorava e dormia. Sentindo sua proteção possível.

O desconhecido futuro de viver sem a presença amiga de meu pai se anunciava e o precipício da dor se abria e dilacerava. Eu precisava aceitar toda dor sem negá-la, pois a dor existe independente de como você norteia seu espírito e sua fé. Aceitar, unificar seu corpo e espírito talvez seja a grande luta que precisamos travar no LUTO! Deixar sentir toda dor, redirecionar sua missão que é individual e única, em meio ao caos das emoções da perda de quem amamos, sem negá-las, é uma batalha. Buscar apoio, suporte, estrutura e ACEITACÃO dos seus sentimentos é um dos caminhos sempre possíveis para se viver o luto.

Assim que meu pai respirou pela última vez, numa expiração incompleta, a "ponte" começou a se tornar levemente visível. A "Ponte de Amor", o elo, o vínculo de toda uma existência tomou forma. A consciência plena de que a sintonia com meu pai permanecia. A sensação de estarmos em unidade constante materializou-se em meu coração.

Eu estava vivendo o tão temido futuro sem meu pai. Minha existência continua, meus trabalhos e estudos continuam, minhas conversas internas com meu Mestre e seus ensinamentos, minhas meditações continuam, coisas novas e interessantes surgem, minha curiosidade, busca pela vida e o desejo de criar vão transformando meu dia-a-dia.

A saudade física continua... então, fecho os olhos e atravesso a PONTE...

Nosso querido poeta brasileiro Mario Quintana escreveu: "O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você".

Vamos nos cuidar, nos apropriar da nossa dor, da nossa condição humana e do nosso potencial divino de transformação e as borboletas pousarão em nossos ombros.

Paz.

Texto revisado por Cris


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Sobre o Autor: Elena Mara de Oliveira Ramos   
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