Houve um tempo em que eu acreditava que servir, no terreno da mediunidade, era se entregar sem limites.
Acreditava que sentir muito era sinal de evolução, e que suportar tudo era parte do caminho.
Mas chega uma hora em que o corpo começa a falar. Não com palavras, mas com apertos, com cansaço, com dor, e com uma inquietação difícil de explicar.
E se você, como eu, é aquele médium que sempre escutou o invisível, agora é necessário aprender a escutar o que é visível em você.
Nem toda presença é chamado, e nem toda intensidade vem da luz.
A mediunidade precisa estar alinhada com sua própria essência.
Casas espiritualistas dão o nome de "cavalos" aos médiuns que se entregam ao processo mediúnico, dando passagem às presenças desencarnadas ou guias para uma manifestação ostensiva de incorporação ou psicofonia.
O termo "cavalo" não me parecia desrespeitoso ou humilhante, compreendendo tratar-se de uma condição necessária à manifestação, em que o médium permite que as entidades se utilizem de seu aparelho físico.
Mas, além do nome dado, existe uma outra forma de ler a estrutura energética que contribui para o processo.
A mediunidade engloba uma grande gama de nuances. A maioria delas é cada vez mais sutil atualmente, e será ainda mais no futuro do planeta.
No entanto, muitas práticas ainda se movem nesse contexto , em que os médiuns atendem a um chamado sem questionar. E nisto pode residir o engano: quando esse dom do espírito adoece física ou energeticamente.
Isso acontece quando não se respeita a condição de autonomia, nem de competência com o próprio corpo. Você deseja servir, talvez porque ouviu que médiuns são seres endividados, e que o trabalho mediúnico é uma dádiva que redime as almas nessa condição cármica de resgate de vidas passadas.
Então, você se condiciona à ideia de ser e de se sentir útil, disponível, trabalhando em proveito dos seres.
E nisso tudo, onde fica a obrigação conosco mesmos? Com nossa essência sutil, com nosso corpo?
Sim, mediunidade é uma bênção quando, como canais, entramos em alinhamento com nosso Eu Superior e com as consciências de luz que nos sustentam. Ela não é controle ou subjugação, mas uma oportunidade de transcendência quando vivida com verdade.
Quando se acredita que, como médium, você precisa ultrapassar seus próprios limites, o corpo costuma denunciar esse abuso. O coração que dispara, o peso no peito, a sensação de sufocamento.
Mas o médium desenvolvido, muitas vezes, acha isso natural e submete-se a isso sem reclamar, acreditando que precisa pagar pelos erros do passado.
Então, deixa-se arrastar pelo processo, de forma voluntária e irrestrita. Mas a sobrecarga energética acaba por ter um preço alto para a psique e para o corpo. E, uma hora, você se sente exaurido, sobrecarregado. Às vezes irritado, sugado, invadido. Mas costuma não comentar por
medo de ser mal interpretado .
A
espiritualidade verdadeira não invade, não pressiona, não exige que você se perca de si. Ela te devolve a ti mesmo, sem alarde nem cobrança, sem entregar teu sistema nervoso no intuito de ser útil.
Espiritualidade não é performance. É alinhamento com a verdade e com a luz.
O processo mediúnico há de se mover para um intercâmbio cada vez mais fluídico, uma sintonia fina de inspiração que nos nutra e nos mova para um campo de unidade com a Fonte, sem nos agredir física ou energeticamente.
Quais são os sinais para sabermos em que ponto estamos no caminho mediúnico?
O corpo percebe antes da mente. A pergunta é: "Isso me deixa mais inteiro ou mais dividido? Me acalma ou me angustia?" Sinais verdadeiros tendem a acalmar, simplificar, tirar os excessos e os ruídos da mente que aceleram e cansam.
Precisamos separar o que parece profundo, mas que carece de direção segura, daquilo que nos transforma de fato.
Espiritualidade verdadeira não é só profundidade sem indicar o caminho de saída. Às vezes, ficamos ligados na expressão (no fenômeno) e não na verdadeira essência espiritual por trás dela. E, ao final, não mudamos.
Hoje eu entendo: há momentos em que o caminho não é se abrir... é se recolher.
Não por medo, mas por verdade. Porque a luz que é real também sabe esperar e respeitar o espírito que nos anima como uma força soberana e única que reside em nós mesmos.
Texto Revisado