Parmênides viveu há cerca de 2.500 anos e deixou uma das ideias mais provocativas de toda a filosofia. Para ele, só podemos ter conhecimento verdadeiro daquilo que não muda. Tudo o que nasce, cresce, envelhece e desaparece pertence ao mundo das aparências, o reino da doxa, da opinião, das impressões passageiras.
A verdade, que os gregos chamavam de aletheia, só pode existir naquilo que permanece.
À primeira vista essa ideia parece absurda, pois basta olhar pela janela para perceber que tudo está em movimento. As pessoas envelhecem, os rios mudam de curso, as árvores crescem, os impérios desaparecem, os relacionamentos começam e terminam... O próprio universo parece uma dança permanente de transformação.
Então por que Parmênides insistia que a mudança nos engana? Talvez porque ele não estivesse falando do mundo, mas da nossa forma de conhecê-lo.
Nós temos uma curiosa necessidade de tirar conclusões definitivas sobre coisas que ainda estão acontecendo. Por exemplo, conhecemos alguém durante alguns meses e já acreditamos saber exatamente quem aquela pessoa é, ou vivemos um fracasso e imediatamente concluímos que somos incompetentes... Recebemos um elogio e passamos a acreditar que finalmente encontramos nossa verdadeira identidade.
Mudamos de profissão, de cidade ou de religião e logo sentimos a tentação de anunciar que agora encontramos nosso lugar no mundo. Mas será mesmo?
Ou estamos apenas fotografando um instante de algo que continua mudando?
Talvez uma das maiores fontes de sofrimento humano seja justamente essa tentativa desesperada de encontrar certezas em um universo que nunca prometeu estabilidade... Vivemos dizendo que conhecemos alguém, quando na verdade conhecemos apenas uma versão daquela pessoa.
Dizemos que nos conhecemos, quando talvez conheçamos apenas a versão que existia em determinado momento da nossa história.
A vida segue, nós mudamos e continuamos defendendo definições antigas como se fossem eternas.
É curioso perceber como isso acontece nos relacionamentos...
Quantos casamentos terminam porque duas pessoas continuam exigindo que o outro permaneça exatamente igual ao dia em que se conheceram?
Quantas amizades acabam porque alguém resolveu crescer numa direção diferente?
Quantas famílias brigam porque insistem em enxergar um filho de quarenta anos através das lentes da criança que ele foi?
Talvez ninguém conheça verdadeiramente outra pessoa, mas apenas fragmentos... E isso exige uma humildade que nem sempre estamos dispostos a cultivar.
O mesmo acontece no autoconhecimento, onde existe uma "obsessão moderna" por descobrir quem somos... Fazemos testes de personalidade, buscamos diagnósticos, adotamos rótulos, construímos narrativas sobre nós mesmos, como se a identidade fosse uma peça pronta esperando ser encontrada. Mas e se Parmênides tivesse razão?
E se tudo aquilo que muda pertence apenas ao campo das opiniões, talvez o verdadeiro autoconhecimento não seja descobrir aquilo que muda em nós, mas identificar aquilo que permanece enquanto todo o resto se transforma.
A criança que você foi desapareceu e o adolescente também.
O jovem cheio de sonhos já não existe exatamente da mesma forma... Seu corpo mudou, seus gostos mudaram, suas ideias mudaram, suas crenças mudaram, talvez até sua profissão tenha mudado.
Ainda assim existe uma estranha sensação de continuidade, que olha para todas essas versões passadas e diz silenciosamente: "Todas elas fui eu."
O que é esse "eu" que atravessa décadas enquanto quase tudo ao redor se transforma?
Uma ansiedade nasce da tentativa de segurar aquilo que é transitório... Queremos congelar momentos felizes, impedir o envelhecimento, preservar relacionamentos, manter prestígio, riqueza, juventude, reconhecimento.
Lutamos contra uma realidade cuja única promessa sempre foi a mudança!
E por isso que sofremos tanto?
Acho que os estoicos perceberam algo parecido muitos séculos antes... Eles não tentavam controlar o fluxo da vida, mas construir dentro de si algo que permanecesse firme enquanto o mundo mudava: A virtude.
Ela não dependia da sorte, não dependia das circunstâncias e nem da opinião alheia, isso é o que Parmênides chamaria de permanente.
Talvez seja por isso que admiramos tanto algumas pessoas, não porque nunca mudem de ideia, mas porque existe nelas um eixo invisível que continua o mesmo quando tudo ao redor desmorona. Elas podem perder dinheiro, mudar de profissão, adoecer, envelhecer ou recomeçar inúmeras vezes, mas há algo que permanece reconhecível.
Mas vivemos numa época que idolatra a novidade... O novo aplicativo, a nova tendência, a nova identidade, a nova opinião, o novo estilo de vida. Parece que mudar se tornou um valor em si mesmo. Mas será que mudar apenas por mudar não seria apenas movimento simples e não uma real evolução?
Parmênides talvez olhasse para esse tempo com um sorriso discreto e perguntaria algo extremamente desconfortável: Em meio a tantas mudanças, o que existe em você que realmente permanece?
Essa é a pergunta que vale uma vida inteira!
No fim das contas, talvez o verdadeiro autoconhecimento nunca tenha sido descobrir quem você é hoje.
Mas ver aquilo que você continua sendo enquanto o tempo faz o seu trabalho silencioso de transformar todas as outras coisas.